O PENSAMENTO VIRAL

Ensaio por Samira Marzochi
23 de janeiro de 2005

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Astrócitos Normais

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?Psicoativo? é um termo sugestivo. Aliás, nomes têm a propriedade de conter uma idéia, sempre mais ou menos reestruturadora de outras idéias que os acompanham. No caso do psicoativo, a idéia é a ação de algo sobre a Psiquê. De algo, porque este nome é um adjetivo. (E ?adjetivo? também).

O próprio nome é o que ele faz assim como todos os outros. Quando se diz ?tal coisa é um psicoativo?, a informação já produziu na mente do receptor uma psicoação. Quando se diz qualquer coisa, produz-se uma psicoação. Produzi? A menos que o enunciado não tenha sido em absoluto compreendido ou que, de tão óbvio, tenha sido incapaz de suscitar efeito, tudo o que se diz, sim, gera uma psicoação. Reestrutura, de alguma forma, um instante do pensamento.

A palavra psicoativo, por sinal, encontra-se às pencas em citações recuperadas pelo google mas, curiosamente, não está registrada em dicionários populares como Aurélio e Koogan/Houaiss. Também não a encontrei no Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis, - comprado num sebo por simples curiosidade, - o que era de se esperar, já que sequer a palavra Psiquê este continha.

Psiquê é um termo que invade minha Pisiquê de maneira mágica. Um psicoativo poderosíssimo. Imagine que Psiquê habita um palácio segundo a vontade de Eros. Só esta idéia já contém em si quase toda a teoria freudiana. E mais, Eros para Psiquê não tem rosto. Psiquê quer vê-lo, mas quando consegue, ele foge. A bela moça mora só e seu amor a visita todas as noites. Eros é o psicoativo de Psiquê.

Embora meu psicoativo para chegar a esta conclusão tenha a sido a própria palavra Psiquê e seu significado, o verdadeiro psicoativo de nossa mente é Eros, invasor do palácio. O poder original de sedução é o mistério. Não há pessoa em Eros até que Psiquê a defina. A lâmpada de Psiquê é um achado na história. Ilumina seu rosto e assim o faz fugir, mas a trama não acaba aí. A moça o reencontra. O enigma, apesar de desvendado, permanece como estrutura de ligação entre Eros e Psiquê.

O efeito do amor sobre a mente já se havia produzido para sempre. É o palácio o seu lugar, um mundo à parte. Sai à luz do dia e retorna à noite, com tudo o que as palavras dia e noite possam sugerir como significado psicoativo. O fato é que partindo da mitologia de Eros e Psiquê, não é possível compreender a mente sem a dimensão afetiva. O desejo é constitutivo da alma como eterno enigma. Psiquê, saindo em busca de Eros, depara-se com outras aventuras, ou melhor, desventuras, até reencontrá-lo.

Eros, como o psicoativo cativo que abre Psiquê a novos dados, funciona mais que apenas como o ?vírus do amor? de Rita Lee. É um verdadeiro software de reprogramação que permite a entrada e instalação de outros psicoativos-programa capazes de operar a realidade de modos diversos. Fugindo, Eros obriga Psiquê a sair do palácio e viver uma série de experiências que resultam como atualizações de uma função constante: a busca de Eros.

Psicoativos podem ser pessoas às quais atribuímos significado, substâncias químicas que ingeridas, aspiradas ou inaladas alteram a percepção, acontecimento súbito que produz emoção forte, idéia que impressiona pela lógica e obriga a reestruturar bases do pensamento, música que carrega para longe, poema capaz de sintetizar tudo o que há de ridículo e sublime simultaneamente, as cigarras agora, luz da tarde, uma lista infinita.

Atribuir valor demasiado a apenas alguns destes elementos como verdadeiros psicoativos talvez seja reduzir possibilidades de compreensão. As reestruturações deslumbrantes que a mente pode experimentar, - embora estudos científicos demonstrem que resultam de efeitos químicos produzidos no cérebro, - nem sempre são estimuladas por substâncias químicas exógenas.

Tais substâncias, objetos e eventos são informação. E há que se levar em conta que informações são apreendidas conforme uma série de variáveis, algumas conhecidas, como constituição física, história de vida, cultura etc., e outras ainda não pensadas. Informações são vírus de reprogramação em máquinas humanas de diferentes tipos.

Daí a experiência do contágio, da troca e adaptação mútua ou combinada de estruturas mentais particulares que chamarei, por ora, ?reestruturação psíquica por tabela?. Um fenômeno que pode ser a chave para explicar comportamentos e culturas intrigantes e merece, portanto, estudo sistemático envolvendo distintas disciplinas, como psicanálise, psiquiatria, medicina, neurociências, antropologia, teoria de sistemas e informação, cibernética, sociologia, história. Os exemplos que teria a relatar sobre a experiência do contágio são muitos, mas não caem bem em meio público.

Este fenômeno mostra que a idéia de individualidade deve ser posta à prova. O pensamento como sensação, informação, é viral, migra de ambiente a ambiente compondo um mundo de labirintos mentais, o gigantesco cérebro da humanidade. Considerando-se ainda o movimento dos astros como informações sobre a natureza, diga-se, então, ?do universo?. Enfim, psicoativos existem, mas não são só o que você pensa. São o que eu penso também.

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Titulo: O PENSAMENTO VIRAL

Autor: Samira Marzochi

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 23 de janeiro de 2005

Resumo:

A solidão é o princípio da mágica’ - Amélie Poulain

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2 Comentários

  1. Platão disse:

    Não sou imbecil coletivo. Não sou um ser coletivizado. Sou a encrenca que não tem sistema lógico, científico que dê conta de traduzir. Mas nem sei se possuo frutos meus na realidade. Não sou culpado e não acho que o outro seja o réu. Fico triste porque uma substância é liberada no meu cérebro cinza? Não sou ativo, mas minha existência não é um patamar. É uma sucessão de psicoatividades que vão ser esquecidas.

  2. PH disse:

    pô Samira! Puta texto bom. Gostei da dimensão que vc deu para o termo, tanto na teoria, como na prática. Gostei tb da lucidez de sua prosa e da fluência das idéias. É um texto de tema complexo, mas que fica simples nas suas palavras, quase extra-sensorial. Um texto, eu diria, psicoativo.

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Quem é Samira Marzochi?

Samira é cientista social mas desde 1990 escreve um livro de poemas, o "Notas Oblíquas", que não tem prazo para terminar. Alguns de seus poemas foram musicados pela vocalista e compositora Uliana Dias (CD "Eribêra" - 2003), do Eribêra, - de que faz parte também o guitarrista Marcel Rocha, - e pelo compositor Juli Manzi (CD "Todo o Perfex" - 2001).

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