O sentido lato da Vida

Ensaio por Paulo Henrique
21 de dezembro de 2003

Morte, gênio inspirador, a musa da filosofia. Sem a qual dificilmente se teria filosofado” (Schopenhauer)

Esta frase que eu tomei emprestada indignamente é de um dos mais brilhantes filósofos do século XIX, Arthur Schopenhauer, que vai nos nortear bastante durante este ensaio. Além servir como uma bela frase para a abertura de um exercício de pensamento e argumentação, ela resume o sentido de todas as idéias desenvolvidas desde os primórdios da humanidade até hoje: a efemeridade da existência humana, que é consumada pela Morte.

Todas as manifestações intelectuais e culturais desde as primeiras civilizações bem estruturadas, sendo elas os gregos, os egípcios, os romanos, com todos os arquétipos platônicos, deuses vãos e prazeres epicurianos, até hoje em dia com todos os clássicos universais com menos de duzentos anos, com canções existencialistas (“A day in life”?) e filmes kubrickianos, buscam justificar de um modo ou de outro, a razão de existirmos, nem que seja a própria não-existência.

Schopenhauer, em “A Vontade de Amar”, compara o indivíduo humano com a folha de uma árvore, que nasce na primavera, desenvolve e, no outono seguinte, seca e morre, deixando para as próximas folhas dar a continuidade à vida da árvore, completando-se assim um ciclo. Este ciclo, que se consuma a cada morte individual, é necessário para a manutenção harmônica da vida da natureza, pois se cada indivíduo fosse imortal, na sua mediocridade, no acanhamento da sua alma, só faria atrapalhar todo o desenvolvimento da Vida (no sentido lato), com seu obtuso entendimento das coisas. Ou seja, para o nosso germânico pessimista, a morte “é a penosa aniquilação do principal erro do nosso ser; o Grande Desengano”.

Mas, se queres ser imortal, ó otimista de plantão, Schopenhauer, nesse mesmo texto que nos serviu de fonte, te dá uma colher de chá: O “dogma da Imortalidade”. Que é isso? É o princípio básico da matéria, em que Lavosier sacou e cravou numa frase que perpetuou sua memória através dos séculos: “Nada se cria, tudo se transforma”; ou seja, a partir daí, Arthur Schopenhauer consola os aspirantes à imortalidade: “Essa matéria, pó e cinza, dentro e pouco dissolvida na água, brilhará no esplendor dos metais, projetará faíscas elétricas, manifestará o seu poder magnético, converter-se-á em animais e plantas, e no mistério de sua essência criará essa vida, cuja perda chora amargamente nosso espírito acanhado”. Vês? Podes considerar-te imortal, se quiseres.

Portanto considerando que para a natureza, a morte e o sono são iguais, que significam apenas ciclos e renovações da Vida, nada é mais seguro e relaxante do que o refúgio do túmulo, pois como diria Machado de Assis, “dormir é o modo interino de morrer”.

Até agora, estamos desenvolvendo uma idéia já muito bem desenvolvida por diversos sábios valorosos, entre eles Arthur e Machado, e eu nada tenho a acrescentar se continuarmos neste rumo. Mas o leitor deve estar se perguntando: Será que este jovem petulante, com esboços de pensamentos mal formulados, tem a intenção de acrescentar algo à essa complexa discussão? Tu sabes muito bem que não sou capaz disso, meu amigo leitor (se é que alguém, fora o autor, esteja lendo essas linhas), embora eu proponha-me a acrescentar não um conceito inovador, que há de se fixar nas teorias sobre o assunto, proponho-me a acrescentar minhas idéias e meu credo; nem que seja apenas para a minha vã tentativa de querer compreender o mundo.

O que eu vou falar agora, certamente causará no leitor o ímpeto de jogar este texto fora, resmungar algumas palavras torpes a respeito do autor e se concentrar em algo mais produtivo e atraente para fazer. Mas se fores insensato, há de continuar perdendo seu tempo na blasfêmia que hei de proferir: Não concordo com Schopenhauer!

Calma. Fique sabendo que minha última afirmação foi para dar mais efeito ao texto, mais ênfase, pois já estava ficando monótono este monólogo. Vou explicar melhor: Não que eu não concorde com Schopenhauer. Muito pelo contrário, afinal de contas, quem sou eu (um ínfimo ignaro) para discordar de tão grandiosa mente? Eu concordo em tudo que ele diz sobre a mediocridade humana, sua efemeridade e a inegável importância da Morte na correção desse Grande Equívoco que é a nossa existência. Concordo ainda nos aspectos físicos da morte analisado por Schopenhauer, e falar a respeito disso seria redundância. A única diferença da minha visão com a visão do filósofo (afora toda a inteligência e capacidade de compreender o mundo, que no caso dele, sobra, no meu, é nula), é que existe mais um elemento no meio de toda esta natureza: o Espírito.

Torno a advertir, prezado leitor; se tens vontade, não hesites em parar de ler o ensaio, pois o que virá agora é muito subjetivo e pessoal, embora eu encare como a Verdade Suprema. O Espírito que eu me refiro é o que cada um de nós carrega enquanto vivemos, desde o dia em que fomos criados. E criados, não numa concepção devido a uma relação sexual, mas sim criado por Deus, que segundo a minha crença tem nome e é conhecido por muitos, amado por uns e contestados por outros; este Deus é o Javé , Senhor de Abraão, Isaque e Jacó, Criador dos Céus, das Terra e dos Mares e de tudo que neles há.

Deus, antes de criar o Universo e todas as coisas mais, repousava no Nada e apenas o Nada existia. Você, meu amigo racionalista, há de convir que antes de qualquer “Big-bang” ou escala evolutiva, existia alguma coisa que nenhum cientista sabe explicar por nenhuma pesquisa em modernos laboratórios, e foi esta “coisa” inexplicável que deu origem a tudo. Apesar de negar e não acreditar, tu sabes que o Universo não surgiu do nada… não apareceu no vazio de repente… tente voltar no mais remoto tempo que tu consegues conceber, antes da mais velha estrela que inaugurou todas as constelações. Ela simplesmente apareceu sem menor explicação? Ou aconteceu algo que a fez existir? Pois então, é este “algo” que eu chamo de Deus, que pra mim, se chama Jeová, o Senhor.

Partindo então dessa idéia, um Espírito nos criou; e não só como uma criação complementar, mas sim como protagonistas deste planeta, em sua imagem ou semelhança. Não a imagem e semelhança física que a maioria tende a interpretar erroneamente das escrituras sagradas. Esta “imagem e semelhança” escrita na Bíblia é a nossa consciência, nosso livre arbítrio, nossa capacidade de chegar perto deste Deus Criador, ou seja, nosso espírito. E este nosso espírito, de tão grande valia pra Deus, apesar de subutilizado pelos homens, não pode e não fica submetido a um ciclo de coisas palpáveis e efêmeras como o cotidiano, nossa vida terrena ou bens materiais. Não é algo que está submetido, portanto, à degradação física de uma matéria, de um corpo que dura, quando muito, oitenta anos.

O espírito faz parte de uma organização maior, longe da mesquinharia física. É como se nós, pelo espírito, fizéssemos parte deste Grande Deus, o Criador. Não como se vários “eus” compusessem um “Deus”, como afirmam os filólogos, mas sim que esse “Deus” concebesse vários “eus”, como peças de sua criação, que é muito maior e mais ampla do que alguns continentes rodeados de mares e habitados por animais ? racionais ou não. É como o apóstolo Paulo de Tarso diz em sua epístola aos Romanos: “Quem conheceu a mente do nosso Senhor? Quem primeiro deu a ele, e depois foi restituído? Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas”. Apenas repetindo: não são os nossos “eus” que concebem o “Deus”, caros filólogos, mas sim “Deus” que concebe os “eus”, cada indivíduo. Não fui eu quem disse. Foi Paulo.

Portanto, estes “eus” criados por Deus têm um valor muito maior do que uma mera cadeia carbônica que acontece nas reações químicas a cada segundo. Cada “eu” leva em si um espírito, e cada espírito, por sua vez, não está submetido a morte física. Logo concluímos que somos imortais.

Essa é a principal ? e fundamental ? diferença entre a filosofia teológica, cristã e a filosofia de Schopenhauer. A morte física é realmente um ciclo, um processo natural que transforma as matérias de acordo com a necessidade da natureza. Isto, Schopenhauer e eu estamos de pleno acordo. Só que ele não vai além, fica por aí, como se a morte fosse o fim de toda a consciência do indivíduo, que por sua vez é um ser fruto de uma evolução que veio do Nada. O que é esse “Nada”? É esse meu amigo, o ponto que os racionalistas e ateístas não conseguem esclarecer, onde eles se complicam. O sopro inicial foi dado por alguém. Quem? Isso nós já discutimos antes.

Então, sabendo que a morte física é apenas um processo, ela fica menor do que parece. De “Morte”, aquela que Álvares de Azevedo invocava em seus mórbidos poemas, ela é rebaixada para “morte”, natural, plácida, schopenhaueriana. Ufa, não é que resolvemos um problema?

Mas nenhuma solução é encontrada sem que outro problema surja.

E o espírito? É deveras imortal? Bem, se formos entrar no campo teológico para responder essas questões, não terminaríamos tão cedo, e este ensaio tornaria uma tese, o que não é minha intenção. Mas vamos tentar esboçar uma respostas em poucas e laicas palavras.

Jesus Cristo, em seu ministério terrestre, certa vez disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Essa vida, a que Cristo refere, não é a longevidade que a ciência procura, é a vida espiritual, o nosso espírito respirando um ar puro, se desenvolvendo e nos tornando cada vez mais valorosos aos olhos de Deus. O espírito pode chegar próximo do Criador, descansar Nêle e tranqüilizar sabendo que há algo maior que nós, que somos criações, e não criadores. É a inebriante sensação de alívio que as pessoas procuram a vida toda.

A dor, a morte, o medo são sensações causadas por pensarmos que somos nós os seres supremos do universo, sendo que somos tão impotentes que nem uma chuva conseguimos parar, nem uma morte evitar, nem um átomo, um grão de areia sequer, conseguimos criar. É desesperador pensar que nós caímos num mundo que não foi criado por ninguém, simplesmente existiu, e sem nenhum propósito estamos aqui, apenas para sofrermos até a morte, derrotados desde o ponto de partida. É essa linha de pensamento que culmina a verdadeira “Morte”, porque, além da inevitável deterioração física a qual temos passados desde o começo, a nossa arrogância não nos deixa aceitar que tem alguém no controle de tudo, nos olhando e, provavelmente, tendo piedade de nós, inocentes ignorantes, achando que somos deuses, enquanto não passamos de meros ratinhos dentro de uma gaiola, lutando pela sobrevivência biológica.

Esta é a pior morte. A morte espiritual. A arrogância física e material nos cega a tal ponto de pensarmos que somos apenas matérias, cadeias de carbono, enquanto o espírito se definha nos shoppings centers e universidades, tentando buscar em papéis, o sentido da vida, esta, mais ordinária do que nunca. Eis a Morte (no seu sentido mais lato possível), desprendida da idéia de vida.

O primeiro passo para a compreensão de como as coisas funcionam é tirar a venda dos nossos olhos e admitirmos que somos criações de Alguém bem maior que nós, e que esse Alguém nos permitiu que tivéssemos consciência Dêle para tornar as coisas mais fáceis para nós.

A partir daí, com o nosso espírito aberto para o crescimento e o contato com esse Deus, todas as coisas que afligem os pobres espíritos desesperados diante da sua própria impotência se tornam pequenas, e ao invés de preocupar com isso, podemos contemplar toda essa criação de forma mais leve e grandiosa, aplaudindo assim o Grande Artista Criador com a grandeza de espírito que Êle quer que nós o aplaudamos. Eis a Vida (no seu sentido mais lato possível), agora sim, finalmente desprendida da idéia de morte.


Titulo: O sentido lato da Vida

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 21 de dezembro de 2003

Resumo:

Um exercício sobre a vida.

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4 Comentários

  1. J.P. Mello disse:

    Schopenhauer se sentiria honrado de conhecer voce! Ele perguntou tanto, o que por si so nao e mal … mas voce ja encontrou a resposta. E isto nao tem comparavel. E, P.H. o que vc acha do fato deste artista do universo nao apenas ter dado o sopro inicial, mas ter se tornado carne para dar o”sopr” eterno?

  2. Herbie disse:

    Excelente ensaio, PH. Como racionalista que tenta consciliar o conhecido com o desconhecido, minha visão de mundo e vida se encaixam quase que perfeitamente com a descrita, a não ser pelo ajuste que teimo em fazer para que as coisas façam sentido pra mim. Eu prefiro a não personificação de Deus. Só. Troco o “O sopro inicial foi dado por alguém.”, por “O sopro inicial foi dado.”. E o “Alguém” responsável fica sendo a fonte primária de energia para todo o cosmo, que parece ter uma consciência natural, não-humana, ou até sobre-humana. Acho que esse ajuste faz com que muito mais portas se abram…Assunto prá vida toda, hein? Um forte abraço e, parabéns!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Legal, PH, as palavras parecem ganhar vida quando proferidas/escritas por quem nelas acredita. Como diria um personagem da tv, “há controvérsias”, mas curti muito a divagação e a elaboração da idéia. Me lembrei deste trechinho da Vulgata, de cuja essência Pe. Vieira usa (e “abusa”) ao desenvolver um célebre sermão de quarta-feira de cinza - prosa simplesmente espetacular - e que também cabe aqui: Memento, homo, quia pulvis est, et in pulverum reverteris.

  4. Mário disse:

    Grande PH… Feliz ano novo! Ainda não nos falamos, mas faremos logo. Bem, este é mais um texto em que você exprime vorazmente sua fé, o que é bom para você, para registrar no tempo uma visão sua de Deus, da vida, da morte, do mundo e universo, e também para as pessoas que o conhecem, como já mencionei em outro lugar. Vários são os interlocutores de seu texto com quem dialoga, procurando construir racionalmente algo que, convenhamos, não cabe em um ensaio nem em qualquer outro livro, seja a Bíblia, o Alcorão, o Evangelho segundo Kardec ou as visões de Brahma. Temos várias abordagens com relação ao desconhecido, e a sua é mais uma - e sem dúvida também das mais belas e reconfortantes. No entanto, sejamos arrogantes acreditando ou não em Deus, a certeza de algumas coisas parecem cada vez mais longe de nós. Enfim, um exercício de argumentação e de fé. Como sempre, leio com todo o prazer, pois é sempre bom ler um texto seu, não só bem escrito, como transpirando sua “alma”, seja ela uma série de reações químicas no cérebro e pelo corpo, seja um espírito que escapa a espaços tridimensionais. Forte abraço!

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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