Ensaio por Alexandre Piccolo
16 de fevereiro de 2003

O Idiota é um romance inquietante. Dostoiévski narra sobre um impulso frenético, escrevendo algo do gênero. Vida densa numa mistura de imprevistos que atordoam: uma espetacular cena de "negociação pública" de noivado, em que um pacote de dinheiro acaba arremessado ao fogo da lareira; um cinematográfico ataque epiléptico na escadaria, trazendo o rebuliço completo à entrada de um hotel; uma frustrada tentativa de suicídio em público, após a leitura de uma pungente carta de prenúncio de morte; um assassinato aterrador, inexplicável, incompreensível, que deixa atônito qualquer leitor, por mais avisado. Eis o resumo da ópera construída por Dostoiévski em meio a crises de epilepsia, derrocada financeira e vício no jogo, problemas pessoais complexos e marcantes na vida do escritor. Mas, como bem lembra o tradutor Paulo Bezerra, se assim não fosse, não seria Dostoiévski.
Trabalho mais uma vez notável, mais que louvável, o de Paulo Bezerra. Como Crime e Castigo, O Idiota nos chega pela primeira vez traduzido diretamente do russo pelo estudioso nordestino. Trabalho árduo, minucioso, a tradução de uma grande obra deste "monstro cerebral" - na metáfora de Augusto Meyer -, romance que tem a vida como leitmotiv - nas palavras de Bezerra. Lembro-me de um descontraído encontro com o tradutor, em que ele nos contou um engraçado causo das dificuldades de tradução: um amigo acadêmico russo vertia para o leste-europeu nosso Jorge Amado; ao deparar-se com uma dificuldade, pediu-lhe auxílio para traduzir para a "distante" língua russa uma passagem do texto brasileiro, "mal a polícia entrou na casa, o pau comeu". E o estudioso lhe indagava perplexo, "qual é o sujeito desta frase".
Sem mais conversa fiada, muitas são as observações e reflexões possíveis sobre esta grande obra, dentre as quais deixo algumas, frágeis e incompletas, para serem melhor revistas a posteriori, certamente numa releitura mais madura.
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Momentos densos e nervosos da história se concentram sobremaneira, como já aponta a crítica de Baktin, sobre a vida dos personagens "vivos" do autor, extraindo-lhes as emoções mais pungentes de seus instantes mais difíceis de vida, o que nos causa nervosismo e angústia avassaladores.
Dostoiévski é um escrutinador de caracteres, persona, todos mascarados na misteriosa imagem do escritor russo do subterrâneo. A chave da personagem de Dostoiévski não está simplesmente nela mesma, mas na relação intrincada que trava, ainda que analiticamente, com o semelhante, relação que se estabelece pelo diálogo de inúmeras vozes de uma prosa irredutível.
Curiosa é a construção da figura do personagem principal do romance, o príncipe Michkin. Olhando-a num primeiro relance, sua figura aparece de repente e concentra-se nela todo o enfoque do autor, de modo intenso, por toda a primeira parte do livro em especial. Não lhe faltam diálogos, apontamentos, reflexões, reflexos ou descrições que o autor não nos apresente, como se ao desnudá-lo, confessasse-nos muito de seu próprio frenesi. A forma penetrante como conduz o monólogo inicial sobre a pena de morte na casa dos Iepántchin se traduz como o espelho da alma de Dostoiévski. Após o auge da cena bárbara de Nastácia Filippóvna lançando um pacote de dinheiro ao fogo da lareira, perde o foco central a personagem do príncipe, cuja imagem melhor será formada pelas intrincadas relações com as complexas personagens do romance, previamente introduzidas de relance nesta primeira parte. Enfim, depois de brevemente delineado em linhas simples e gerais, toda e qualquer imagem que teremos do príncipe não virá diretamente dele, mas de fora, definindo-o pelo caracterização de seu diálogo com o outro, como um reflexo de si na relação dialógica com seus semelhantes - para relembrar uma expressão baktiniana.
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Curioso é que Michkin é o lado tênue desta relação, a personagem frágil, compreensível, "idiota", que está por traz da frase de outrem - especialmente a partir da segunda parte do romance. Suas falas passam a ser engolidas, cortadas pelo diálogo de todos, como se a complexidade destes, nos momentos de convívio com o príncipe, definissem sua simplicidade (ou imbecilidade), seu lado naive. Os únicos capazes de travar relações pares (talvez por isso por demais complexas) são Rógojin e Nastácia. Esta vive uma frenética e louca vida imprevisível, relegando a si frustrações perpétuas; aquele, quase como irmão de Míchkin, é tão sucinto, sarcástico e misterioso que por pouco não olhamo-lo como duplo do príncipe. Mas em Dostoiévski parece não haver duplos (e sim múltiplos), não simples, não idiotas.
(…)
Titulo: Palavras sobre O Idiota
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 16 de fevereiro de 2003
Resumo: O Idiota, romance de Fíodor Dostoiévski, comentado num ensaio simples.
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