Ensaio por Alexandre Piccolo
16 de dezembro de 2002

Folheava ao acaso "Os Lusíadas" que comprei hoje na banca por módicos R$9,90, do nobre poeta português Luiz de Camões - o qual dispensa apresentações - e acabei caindo no final do canto IV, na famosa cena do velho que amaldiçoa a empreitada lusitana. E a situação merece toda a pompa de fama e glória por exprimir em versos tão universais e eternos sentimentos tão humanos. Curioso também é como a leitura serve de mote, nos dias de hoje, aos "cegos" patrões e chefes de empresas, homens que não se cansam de correr atrás do vento sem se dar conta disso.
A imagem é inesquecível: o velho "meneando três vezes a cabeça, descontente, (…) com um saber só de experiências feito, tais palavras tirou do experto peito":
- Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Com uma aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!(Camões, Os Lusíadas, canto IV, estrofes 95 e 96)
Titulo: Para os chefes ou patrões
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 16 de dezembro de 2002
Resumo: Uma breve (e talvez tola) comparação dum fragmento ao acaso com a correria dos dias de hoje.
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