Ensaio por Nelson Valencio
25 de março de 2004
Eu havia falado do livro de John Pilger, “Os novos senhores do mundo”, na semana passada em “A patada”. Um dos quatro artigos do jornalista australiano era uma atualização do “Grande Jogo”, nome com o qual ficou conhecida a disputa do Afeganistão pela Rússia e Inglaterra no século XIX.
Fronteira entre o avanço russo para o leste e o da Inglaterra, partindo da Índia, o Afeganistão causava um mal estar aos dois impérios. Depois de muitas escaramuças, a questão foi resolvida com a decisão de considerar o país um estado-tampão, status que permaneceu até a revolução de 1917, quando os bolcheviques repudiaram o acordo.
Toda a história está no livro “Bandeira Vermelha no Afeganistão”, de Thomas Hammond, editado pela Biblioteca do Exército (Bibliex), a qual, aliás, tem publicado uma bibliografia excelente para quem gosta de história militar e estratégia.
Pois bem, Pilger parte do antigo “Grande Jogo” para falar do novo grande jogo. O jornalista recupera a célebre frase de lord Curzon, vice-rei da Índia a respeito do Oriente Médio: “para mim, confesso que os países são peças de um tabuleiro de xadrez no qual se joga um grande jogo pelo domínio do mundo”. Lapidar, não?
Mas por que o Afeganistão é tão importante? Não, pela presença de gás e petróleo. Esta é uma riqueza dos seus vizinhos. Acontece que para escoar a produção é necessário atravessar o território afegão. É o secretário de estado norte-americano, Colin Powell, quem nos elucida esta jogada de xadrez: “A América manterá na Ásia Central uma presença e um interesse permanentes, de um tipo que sequer teríamos podido sonhar antes (do 11 de setembro)”.
É um avanço considerável. Para continuar a alimentar sua monumental máquina industrial, os Estados Unidos precisam de petróleo. O Oriente Médio já estava dominado, uma vez que a mãe de todos os produtores ? a Arábia Saudita - sempre foi um dócil aliado dos americanos. Outros produtores importantes ? Iraque e Irã ? estão na lista do “Eixo do Mal”. O que falta, então?
As imensas riquezas de gás e petróleo da Ásia Central, talvez os últimos depósitos potenciais do “ouro negro”.
Até a queda do império soviético, a Ásia Central era um território de influência soviética. O excelente “Jihad”, escrito pelo jornalista americano Ahmed Rashid, editado pela Cosac & Naify, em 2003, e prefaciado por José Arbex Júnior, ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Moscou, é uma leitura obrigatória e complementar para entender o novo grande jogo esquadrinhado por Pilger.
Petróleo, petróleo, petróleo. Este é o nome do jogo. Desde a queda do império soviético, aqueles países com nomes tão exóticos como Uzbequistão, Quirguistão, etc, começaram a ser olhados com atenção redobrada pelos americanos. O combate ao narcotráfico (já ouviram esta história antes?) e a guerra contra o terrorismo, diga-se, avanço do islamismo, são o mote para o “apoio” norte-americano aos ditadores regionais da Ásia Central, figuras que não fariam feio numa recepção do conde Drácula.
Aliás, a história da Ásia Central é um rosário de torturas, de disputas, de brigas, todas genialmente arquitetadas pelo megademoníaco Stalin, criador da política de divisão regional.
Voltando ao livro de Pilger, é bom que se saiba que “o objetivo final é uma conquista americana muito mais ampla, militar e econômica, que foi planejada desde a Segunda Guerra Mundial e, como diz o vice-presidente Cheney - não pode ser concluída enquanto ainda vivermos - ou até que os Estados Unidos consigam se posicionar como guardiões do que resta de petróleo e gás do planeta”.
Outro trecho de “Os novos senhores do mundo” é ainda mais esclarecedor; “o mapeamento dos oleodutos é fundamental, pois petróleo e gás de nada valem sem os meios de transportá-los para portos de águas profundas. São três as rotas que os dutos podem tomar: através da Rússia, do Irã e do Afeganistão. Para Washington, depender da Rússia é um absoluto anátema, e o Irã é o país que a América vem tentando há mais de vinte anos isolar.
Não surpreende, por exemplo, que em 1996, quando tomaram o poder em Cabul, os talibãs tenham passado a ser cortejados pelo lobby do petróleo americano”. É preciso dizer algo mais?
Não, mas atentem para outro fato.
O Instituto Baker de Políticas Públicas afirmava, em 2001, que o mundo aproximava-se de um perigoso esgotamento das reservas de “ouro negro” e o único país do Oriente Médio capaz de aumentar sua produção era o Iraque. Entenderam tanto empenho na presença de “armas de destruição de massa”?
A grande verdade é que os Estados Unidos vêm cumprindo à risca uma estratégia de dominação das maiores reservas e dos centros de produção de petróleo mundiais, notadamente o Oriente Médio e a Ásia Central.
Para fundamentar este ponto de vista é interessante destacar o excelente livro de Kenneth Deffeyes ? “Hubbert´s Peak”. Com o subtítulo “The impending World Oil Shortage”, Deffeyes, especialista na indústria petrolífera, explica a teoria do geólogo M.King Hubbert que, em 1956, afiançava que a produção norte-americana de petróleo iria atingir seu pico em 1970 e, daí para a frente, declinaria irreversivelmente.
Ridicularizada na época, a tese de Hubbert foi comprovada posteriormente. E, mais atual do que nunca, explica as engrenagens dos governos americanos, com destaque para as gestões de Bush pai e filho, ambos homens da indústria petrolífera, assim como seus principais assessores, a começar pelo vice-presidente Cheney.
Como uma cereja neste bolo cor de chocolate, sugiro a leitura imediata de um pequeno livro escrito pelo francês Pierre Péan. Editado em 1975 pela Paz e Terra, “Petróleo, a terceira guerra mundial” está atualíssimo.
A tese central de Péan é que os americanos deliberadamente estão cercando o Oriente Médio. Quem perde com isso é a Europa e Japão, dependentes do petróleo da região. Mais do que nunca as peças do jogo estão em atividade frenética. Já dizia Pedro, o Grande, a respeito da região: “aquele que dominar ali será o senhor do mundo”. O Ali do czar da Rússia cresceu um pouco e se estendeu para a Ásia Central.
Vários personagens do xadrez desenhado por Péan estão vivíssimos. É o caso do coronel Kadafi, então começando sua carreira, e a família real saudita. A novidade, segundo Pilger, é a complacência da mídia. Apesar da abundância de meios, da loucura que é a internet, nunca estivemos tão desinformados. A imprensa têm ignorado solenemente esta movimentação norte-americana e embarcou ? literalmente ? nos tanques na mais recente Guerra do Golfo.
Aqui, na terra dos tupinambás, a quase ignorância por que passou a comemoração dos 50 anos da Petrobrás, é exemplo disso. Absoluta na vanguarda da exploração e produção de petróleo em águas profundas, a Petrobrás não interessa a quem cozinha o mingau ralo das editorias nos grandes jornais.
Quem nos salvou do ridículo foi a edição especial da Scientific American, editada por Laura Knapp. Aliás, a edição nacional da respeitada revista americana tem sido capitaneada por Ulisses Capozzoli, uma referência em divulgação científica no Brasil.
Para finalizar, recomendo ainda um tijolo de mais de 900 páginas chamado “O petróleo, uma história de ganância, dinheiro e poder”, de Daniel Yergin, estudioso do assunto. Publicado pela Scritta, o livro pode ser encontrado nos sebos de São Paulo por aproximadamente R$ 10. Uma pechincha pela qualidade das informações. No conjunto, considerando a situação atual do Oriente Médio, fica difícil não pensar na terceira guerra mundial. Um cenário negro, negro de petróleo.
Titulo: Petróleo: a terceira guerra mundial
Autor: Nelson Valencio
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 25 de março de 2004
Resumo: Negras estratégias.
Nelson, só tem um detalhe. A Terceira Guerra Mundial já começou! Não é concebível que nenhuma nação do mundo enfrente os yankees numa guerra total. Qual a solução? A guerrilha do século XXI, os ataques terroristas. Não se tratam somente de ações engendradas por fundamentalistas religiosos, mas por indivíduos politizados e conscientes de suas ações. Ou será que as escolhas de datas (11), horários e alvos são aleatórias? Por fim, obrigado pelas dicas. Vou atrás do Jihad.
É Nelson… além da desinformação láááá no Oriente Médio, é grave o parágrafo que vc fala da desinformação no Brasil. Os EUA devem estar muito mais a par de nossas reservas, do que os brasileiros - preocupados apenas em mesquinharias e politicagens pequenas pelo poder. E, no futuro, isto pode gerar mais um capítulo nesta guerra escura, não?
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eu gostaria que este site fosse mais equipado com conteudos sobre a pesquisa de que eu preciso(asia do petroleo)!thank you