Ensaio por Paulo Henrique
23 de julho de 2003
“Saudade, saudade!
Palavra tão triste.
E ouvi-la faz tão bem.”
António Nobre, poeta português do século XIX
Dizem que "saudade" é uma palavra que só existe em português. Precisa e clara assim, só em português. Alguns exagerados dizem que só quem fala o idioma pode sentir saudades, justamente por ter o privilégio de expressar, pensar, falar e sentir esta palavra. Não sei. Não sou nenhum filólogo ou estudioso de idiomas para analisar esta condição da palavra saudade. Meus conhecimentos não passam da ordinária duplinha Inglês/Espanhol. E olhe lá…
Independente das possíveis traduções da palavra saudade, o nosso tema não é seu significado, nem suas variantes filológicas. É o sentimento mesmo, aquele que sentimos quando estamos longe de alguém que amamos e prezamos. É aquela melancolia desorientada, que nos deixa sem saber o que fazer, sem querer muito e ao mesmo tempo, desejando tudo.
Na infância, me lembro que sentia muita saudade de meu pai, sempre viajando pelo mundo pela estatal na qual sempre trabalhou. Foi por aí que eu comecei a sentir esta vontade de rever quem vai para longe, valorizando - pela falta - cada segundo da presença da pessoa, que é o objeto deste estranho sentimento.
Digo estranho, mas talvez o melhor termo seja "ambíguo": por um lado a melancolia que afoga, mas por outro, uma dorzinha insistente e gostosa - que nem bicho de pé - que nos faz lembrar de cada detalhe, de cada gesto e expressão, do sorriso, das palavras… em suma, de tudo o que faz aumentar mais ainda a saudade.
Existem também saudades de lugares, de tempos passados e de pessoas que, definitivamente, não voltam mais. Mas estes são diferentes tipos de saudade, algumas menores, totalmente reversíveis, como por exemplo em relação aos lugares visitados; outras até saudáveis, que podem ser chamadas de nostalgia, no caso de tempos passados; e a última mais drástica, que não cabe à saudade alcançá-la, ficando para o "luto" a dolorosa tarefa de expressar o sentimento de perda.
Por isso que saudade é viva, é racional, é pessoal. Hoje, por exemplo, estou desorientado de saudade de minha namorada que está viajando para longe, para a terra dela, lá no Norte. Para os nossos padrões de união, já faz um bom tempo que ela foi e ainda vai demorar um pouco para ela voltar. Cada dia que passa, fico que nem um presidiário contando os dias para sua volta, pois somente ela pode matar esta saudade que eu sinto. Esta saudade sem noção, que até me faz escrever este artigo.
Mas o mais interessante é que a saudade funciona como um fomentador do amor e, por mais doída que seja, ela é boa. Como disse Mário Quintana, "só a saudade faz as coisas pararem no tempo". É por isso que ela é ambígua, seu poder de cura e de desolação são proporcionais e permite o crescimento de um sentimento único pela pessoa amada, durante os momentos de separação. A saudade é um sentimento xereta, justamente por mexer nos assuntos mais delicados e profundos e, de certa forma, por ficar tomando conta de quem fica e de quem vai, unindo as mais remotas distâncias, esta saudade, que merecidamente descansa em paz, depois que os corações se reencontram.
Titulo: Saudade
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 23 de julho de 2003
Resumo: Vai minha tristeza e diz à ela
Que sem ela não pode ser
Muito interessante PH esse texto. Uma saudade que faz o tempo parar…. eita coração apertado!!!! Vc está de parabéns. Um gd abraço e que nosso Pai Eterno continue a iluminar seu caminho!!!!
Eu sou meio suspeito para comentar, porque eu gosto de todos os textos seus que eu leio, parece que um supera o outro. Parabéns pelo texto. Ótimo. Imagino como deve estar sendo chato o ap. vazio. Mas logo logo vai estar cheio como sempre. Abraço Irmão. Fique com Deus.
Quem te conhece e lê este artigo consegue imaginar tua cara, vagando pelo apt, procurando a lembrança dos bons momentos…isso que é amor em PH!!!!! A Marcia é uma mulher de sorte por ter encontrado este amor!
Lindo texto, PH!Me lembrou de uma saudade que sinto de vez em quando, de alguém que já foi alguém prá mim, mas que hoje é só mais alguém que conheci. Estranha essa saudade de alguém que nem é mais alguém…
O dilema no começo do texto é curioso (será que precisamos da palavra saudade pra sentir saudade?), passa para o ambíguo e chega à conclusão do “presidiário” longe da namorada - facetas originais de um sentimento tão humano, difícil de nomear e definir…
Pois falou tudo. E teve o mesmo efeito que o texto sobre rangos do Piccolo: deu uma vontade lascada de sentir uma saudades daquela! Desculpe se a analogia foi ruim… hehe. Enfim, muito terno, sincero e gostoso de ler. Deu saudade de ter saudade de escrever, inclusive…
Bad Behavior has blocked 23 access attempts in the last 7 days.
Maravilhoso o texto! Parabéns!Saudades, seu amigo de São Paulo, do Submarino…