Ensaio por Alexandre Piccolo
19 de abril de 2003

O caso de Abelardo e Heloísa é uma história de Amor das antigas, anterior a Romeu e Julieta, do século XII para ser mais preciso. Pouco sabemos de verdade sobre este Amor entre professor e aluna, sequer se existiu. O livro em si, Correspondência de Abelardo e Heloísa *, além de um breve estudo inicial, nos apresenta cinco epístolas - gênero muito difundido na antiguidade latina - trocadas entre os famosos "amantes", as quais juntas costuram um tecido de uma apaixonante colcha de casal medieval, sem rasgá-lo ou remendá-lo por completo. Ao contrário, deixam dúvidas descobertas tão atrozes que inúmeros estudos e hipóteses são bordados há quase 1000 anos. Enfim, um belíssimo texto no sentido pleno.
A primeira das cartas é, na verdade, uma confissão de Abelardo a um amigo. Toda a história dos infortúnios é contada longa e complacentemente: das aulas (e confusões) de filosofia que o professor ministrava nas incipientes escolas medievais, dos primeiros encontros furtivos com a bela e jovem Heloísa ao trágico episódio da castração do protagonista (sim, castração!) e o longo e conseqüente arrefecimento de uma "concupisciência literária" amaldiçoada na obra. O gênero epistolar e a tragédia da emasculação podem parecer desestimulantes ou desagradáveis (principalmente aos homens…) mas, ao contrário, a prosa é por demais envolvente e impetuosa. O tom íntimo e confessional da carta, bem como a retórica e erudição do autor - exageros de linguagem característicos destes tempos "barrocos" - cativam e inebriam, ainda que desconfiemos da soberba do protagonista em suas confissões, ora puramente arrogante, ora calorosa: "Sob o pretexto de estudar, entregávamos inteiramente ao amor. As lições nos propiciavam esses tête-à-tête secretos que o amor anseia. Os livros permaneciam abertos, mas o amor mais do que nossa leitura era o objeto dos nossos diálogos; trocávamos mais beijos do que proposições sábias. Minhas mãos voltavam com mais freqüência a seus seios do que a nossos livros. O amor mais freqüentemente se buscava nos olhos de um e outro do que a atenção os dirigia sobre o texto" [1].
Heloísa coloca sua colher na obra quando recebe e lê por acaso a carta endereçada ao amigo de Abelardo. Responde-lhe então com o fervor e a paixão do amor feminino, mas um amor já contido e amargurado pela desgraça dos infortúnios que lhes afligira (certamente, muito mais a ele!), um amor já em princípio de revolta, tamanha submissão religiosa por ela aceita - ambos dedicam-se à vida monástica após o fracasso amoroso. Abelardo recebe e responde a epístola de sua amada, porém ensaia uma resposta com ensinamentos de uma frieza tão grande que chega a parecer desdém aos pedidos de boa notícia que Heloísa tanto lhe rogava. Aí ela "roda a baiana" na quarta carta - um reconhecido ponto alto da obra.
Ela confessa-lhe um amor inimaginável, supremo e irrestrito, acima do Deus a quem ela serve por obrigação do pedido de Abelardo, unicamente como prova de amor incondicional a seu amado terreno. Assim, Heloísa profere vitupérios ao destino (a deusa Fortuna, para a cultura latina), à sabedoria, à prudentia, à temperança, à castidade e a todos os valores que lhe parecem falsos por terem lhes conduzido à infeliz ruína amorosa - resumo de sua vida conjugal. E o aparato filosófico e bíblico esquenta o conflito entre intelecto monástico e mente pecaminosa, caliente em diversas passagens: "Os prazeres amorosos que juntos experimentamos têm para mim tanta doçura que não consigo detestá-los, nem mesmo expulsá-los de minha memória. Para onde quer que eu me volte, eles se apresentam a em meus olhos e despertam meus desejos. Sua ilusão não poupa meu sono. Até durante as solenidades da missa, em que a prece deveria ser mais pura ainda, imagens obscenas assaltam minha pobre alma e a ocupam bem mais do que o ofício. Longe de gemer as faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não pude cometer" [2]. Nem os homens nem mesmo as mulheres escapam a suas vociferações ("As mulheres não poderão então jamais conduzir os grandes homens senão à ruína" [3]) - argumento a favor da manipulação e falsidade da própria obra.

Abelardo encerra neste livro o conjunto das correspondências com uma carta consoladora. Uma espécie de tratado que defende os valores sacrossantos do matrimônio (pois resignou-se a acreditar que seu casamento fora um atentado ao pudor - ah, se eles imaginassem a lascívia do mundo de hoje…), uma contra-argumentação sólida dos pontos fortes expostos por Heloísa que se assemelha a um primeiro tratado de pura retórica. E digo "neste livro" e "primeiro tratado" pois parece haver continuação desta seqüência de epístolas, de essência puramente filosófica, diferente destas apaixonantes cartas - tema de novos tratados para um outro livro. Para os mais eufóricos com o cinema, há uma adaptação de 1988 deste caso de amor para as telas, o filme Stealing Heaven (traduzido no Brasil como Em nome de Deus), que, além das cores reluzentes, não guarda a mágica das palavras, ainda que conte quase a mesma história…
Há um encaixe perfeito entre as epístolas (ou coesão do conjunto, um discurso compacto e persuasivo, segundo Duby [4]) que nos faz questionar não só a autenticidade da correspondência mas também o propósito monástico de tais escritos. Há um ambiente cristão misturado a valores pagãos, o que tempera a imaginação com muito misticismo medieval. Uns se questionam: houve mesmo tamanho desencontro e sofrimento nesta tragédia, no sentido medieval do termo (ação com final infeliz), como nos lembra Zumthor no prefácio do livro. Há a valorização da tradição latina em confronto com o ideal cavaleiresco que surge no período e inúmeros outros apontamentos. Enfim, muito já se falou e ainda é possível falar sobre esta facinante história de amor de tão longes tempos. E uma infinidade de leituras permite também uma inesgotável gama de análises - proposta que foge do objetivo deste curto ensaio. Como este amor fracassou ou por quê Abelardo foi castrado? - estas ciladas da curiosidade ficam ao leitor e leitora que desejam saber mais de uma história de Amor que vale a pena ser conhecida.
_____
* Correspondência de Abelardo e Heloísa, tradução do francês de Lúcia Santana Martins, prefácio de Paul Zumthor, ed. Martins Fontes, SP - 2000, p. 41
[1] Op. cit. , p. 41
[2] Op. cit., p. 119
[3] Op. cit., p. 116
[4] Duby, G., Heloísa, in Heloísa, Isolda e outras damas no século XII, Companhia das Letras, SP - 1995, p.68
Titulo: uma história de amor: Abelardo e Heloísa
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 19 de abril de 2003
Resumo: a velha e bela história de Abelardo e Heloísa
Claro o comentário. Será que houve amor tão intenso e sofrido? Os crentes acveitarão ou não sua autenticidade. Abelardo é comom muitos: amam até as ultimas consequencias a vida toda.Eloiza talves não tenha entendido tamanho amor (porque rodou a baiana. Uma coisa é certo há muito que se pesquisar, se o tempo não destruiu as provas. Ai fica tudo como está, e pronto?
Oi Alê,Histórias de amor… ah, as histórias de amor… não importam se verdadeiras ou fictícias, se trágicas ou “foram felizes para sempre”… sempre moveram o mundo. Amei seu comentário, mas penso que as expressões: “a prosa é por demais”; “coloca sua coher”; “Aí ela “roda a baiana” “; “esquenta o conflito”, deviam ser substituídas por termos mais técnicos conforme demanda o ensaio. Ao invés de “popularizar” o ensaio o empobreceu.Continue…Saudades,Tia Marilda(Eterna Leitora…)
Em parte concordo com Newton. Seu ensaio ficou muito parecido com uma resenha minha, que nem era uma resenha mas um ensaio. Por um lado conta parte da história, por outro discute sua veracidade ou ficção. Serve como uma espécie de introdução ao tema… Gostei.
Um “ensaio” que não ensaia segundo as regras, talvez uma “resenha” para quem leu já leu o livro (mas aí quem precisa de resenha?). Inoportuno, texto sem um eixo ou estilo limítrofe bem definido…
Triste fim de Abelardo, não? Encerrou escrevendo “uma espécie de tratado que defende os valores sacrossantos do matrimônio”. também, depois de tudo que aconteceu… Brincadeiras a parte, parabéns pelo texto! Muito claro e agradável de ler.
Um primor de tratado sobre as cartas de Abelardo e Heloísa. Sucinto, elucidativo e introdutório. Eu ainda não li as tais epístolas, mas seguramente o filme - pelo menos este - assistirei. Parabéns pelo material publicado!
Bad Behavior has blocked 22 access attempts in the last 7 days.
pude ler dois livros.fabulosos!..