Entrevista por Samira Marzochi
23 de maio de 2005

O sociólogo irlandês, residente nos EUA desde a década de 70 e naturalizado norte-americano, inaugura em junho um grande instituto de pesquisas sociais, de proposta multidisciplinar, associado ao MIT e à NASA. Conhecido no meio acadêmico como intelectual que acredita em revoluções sociais sem deixar-se aprisionar por dogmas de qualquer tipo, John C. Campbell ainda vê nas viagens espaciais e teorias cibernéticas o futuro da igualdade entre espécies humanas, animais e vegetais. Do Hotel Shelton, no Rio, ele concede à jornalista Ana B. Salgado esta entrevista.
Ana: O Sr. é conhecido no meio acadêmico por sempre apoiar sua produção intelectual na idéia de revolução. O que tem a ver sociologia com revolução? A que revolução se refere?
J.C.C.: Antes de mais nada, as idéias são coisas. O pensamento não é algo metafísico ou abstrato, mas matéria. Todos os que se dedicam ao trabalho intelectual deveriam estudar física, como eu estudei nos cinco primeiros anos de formação acadêmica. Não deixei a física para estudar sociologia. Meu projeto sempre foi refletir sobre o poder do pensamento, e para isso estudei não só filosofia e sociologia do conhecimento como também física, matemática, biologia, astrologia, cabala, cibernética, história, poesia, filosofias orientais, siberianas, amazônicas e subsaarianas. Daí a importância também de minha formação em antropologia, que me permitiu viver dois anos entre os Tungue, como iniciação científica.
Ana: Ao pensarmos, então, já fazemos revolução? É isso?
J.C.C.: Não, nem todo o pensamento é potencialmente revolucionário. Um pensamento revolucionário se identifica por sua lógica básica, que são as informações genéticas que ele contém antes de tornar-se idéia. Como as idéias são todas irmãs, elas vivem trocando de roupas e por isso a dificuldade em identificar o tipo de matéria de que são feitas. As idéias cuja lógica coincide com a ordem social são conservadoras e as que destoam são revolucionárias. A dificuldade, porém, está em compreender as idéias que destoam, porque nosso aparelho cognitivo não está preparado para isso. Para tanto, recomendo aos meus alunos uma série de exercícios, que eu mesmo desenvolvi, de alongamento do aparelho cognitivo. São exercícios igualmente teóricos e práticos, a partir do estudo de línguas e fonética, realidades virtuais, drogas, sensações físicas e mentais. Estou negociando com a NASA um convênio para a utilização de suas técnicas de treinamento de astronautas e viagens pelo Sistema Solar. Talvez isso já seja possível no próximo ano através do Instituto Campbell.
Ana: A revolução de que fala é puramente cognitiva?
J.C.C.: Não existem revoluções puramente cognitivas e este é o ponto-chave do meu pensamento. Se você está preocupada com a transição da humanidade para uma sociedade melhor, é o que quero também, e esse desejo orienta todo o meu trabalho acadêmico. Não me envolvo com partidos, sindicatos, ONGs, administrações ou governos, mas minha produção é integralmente política. A maneira como trabalho é procurando identificar qual é a lógica de base de uma sociedade melhor, mais justa, de respeito aos seres humanos, animais e vegetais. Todo o meu projeto está em descobrir o código genético dessa sociedade através do estudo de idéias hoje presentes e fragmentadas. Vou identificando e coletando aqui e ali estas séries de combinações informacionais para lançá-las em solo fértil e fazê-las frutificar em um novo mundo.
Ana: Ouvi falar que o Sr. está envolvido em projetos de colonização espacial. É verdade?
J.C.C.: Você deve ter acompanhado as informações emitidas pela sonda Huygens da Lua Titã. As condições são propícias e podem ser aceleradas através de impulsos elétricos e introdução de pequenos organismos, uni e pluricelulares, simulando o começo da vida na Terra. O resultado será muito semelhante, com algumas diferenças de temperatura e pressão gravitacional, o que não exclui a produção também de um homem adaptado a essas condições. Linearmente falando, isso não vai ser para a minha geração, nem para a sua, mas já estamos observando formas harmônicas de convivência entre espécies em ambientes fora da Terra.
Ana: Como seria?
J.C.C.: Um dos graves problemas de nossa sociedade na Terra é a separação entre trabalho intelectual e material. Minha produção intelectual, por exemplo, depende de um período do dia dedicado à atividade manual. Faço artesanato em barro e trabalho como marceneiro. Escolhi estas tarefas para não perder o contato com a elementaridade da vida orgânica e do universo. Deste contato faço meu critério de relevância para tudo o que produzo. As coisas que escrevo são feitas de barro e madeira, pedrinhas e folhas. A sociedade na Lua Titã se organiza dessa maneira, reservando para todos, mesmo às crianças, o tempo de trabalhar na produção de subsistência e o tempo de ler, cantar, dançar, divertir-se livremente. O trabalho material não é um castigo, mas um ritual de integração cotidiana com o cosmos. Não é visto como algo que purifica ou liberta, porque não há em que se “sujar” ou “aprisionar". Titã é herdeira da história da Terra, revista e criticada. Não há exploração do trabalho, nem desigualdade, porque estes foram os motivos da destruição do planeta Terra.
Ana: Há algum prognóstico?
J.C.C.: A integração econômica e política, a informatização da produção, a escassez de recursos naturais, os acidentes nucleares, alterações climáticas, criaram um big Titanic. Você deve ter visto o filme. A elite se salva em botes e os serviçais e a classe C afundam. Nessa altura é mais fácil viver em Titã do que na Terra. Abandonado, nosso planeta se recupera lentamente e cria uma vida própria, bem diferente da anterior, com um pequeno grupo de descendentes humanos, animais e vegetais dos que sobreviveram entre ruínas.
Ana: E os outros voltarão?
J.C.C.: Não será a mesma coisa. Em Titã, estamos adaptados. A Terra sofrerá, por sua vez, alterações. Mas, é claro, se continuarmos mantendo um ritmo de desenvolvimento tecnológico em Titã, iremos à Terra com freqüência, até porque temos uma grande responsabilidade em relação à ela. Nós a destruímos e somos irmãos das espécies que não conseguimos salvar, mesmo que tenham sofrido mutações.
Ana: Será preciso morrer tanta gente e só restar uma elite para criarmos uma sociedade melhor? O Sr. chama isso de revolução?
J.C.C.: Sim, é muito cruel, mas é o que é. E não estamos encontrando maneiras de evitar isso senão fazendo tudo de novo.
Ana: E como será o governo em Titã?
J.C.C.: O Instituto de Pesquisas Sociais John C. Campbell será o governo. Por isso somos desde agora uma estrutura administrativa de gerenciamento da sociedade futura. Desenvolvemos teorias sistêmicas que desprezam definições geográficas e temporais e com isso conseguimos aqui e agora organizar toda a sociedade de Titã através de mecanismos aprimorados de governabilidade. Neste sentido, a revolução já aconteceu.
Ana: Como assim?
J.C.C.: Trabalhamos com a idéia de “concentração de tempos”, como diz o Chico Buarque, de simultaneidade e materialização. Se você quiser, eu posso contar como foi, como será, posso criar uma linha temporal, construir periodicidades. Você julgará a história terrível, trágica etc., com base em sua formação moral. Mas a verdade é que não há linhas de tempo, apenas emaranhados, ausência de começo e fim, onde e quando. Essas todas são categorias restritas ao tipo de sociabilidade que temos na Terra.
Ana: Então, simplificando, tudo depende do ponto de vista?
J.C.C.: Nem tudo depende do ponto de vista. Nosso ponto de vista é que depende de como vemos as coisas.
Ana: E como o Sr. lida emocionalmente com tudo isso? Gostaria de viver em Titã?
J.C.C.: Adoro. A vista de Saturno é maravilhosa, você precisa ver. Durante alguns meses, ele fica mais gigantesco de madrugada. A olho nu, as cores são vivas, há brilhos que variam conforme a órbita de Titã que não se pode ver nas fotos. Para você ter uma idéia, ele ocupa toda a minha janela da sala, avarandada de 2,5 de altura por 6 metros de extensão, e ainda ficam de fora 2/3 dele. Isso sem contar com os anéis. No início sentia um grande medo, mas fui me acostumando. Nessa hora paro tudo, preparo um leite de Rifna com gelo e fico reparando as linhas, manchas, sombras. Depois volto ao redator. A vibração de Saturno é muito forte e é bom senti-la de vez em quando. É uma das fontes de nossa energia em Titã.
Ana: Sr. Campbell, muito obrigada pela entrevista e sucesso na inauguração do Instituto. Desculpe ocupar tanto seu tempo.
J.C.C.: Nada disso. Eu é que agradeço você ter me dado ouvidos. Aliás, “olhos, boca, narinas e orelhas”, como diria Caetano. Os brasileiros são muito criativos (risos).
----------------------------------
Os personagens John C. Campbell e Ana B. Salgado são criações livres da autora, Samira F. Marzochi, que também existe na vida real.
----------------------------------
Tradução de Ana B. Salgado
Titulo: UM NOVO INSTITUTO DE PESQUISAS SOCIAIS
Autor: Samira Marzochi
Gênero: Entrevista
Data de publicação: 23 de maio de 2005
Resumo: O sociólogo irlandês, residente nos EUA desde a década de 70 e naturalizado norte-americano, inaugura em junho um grande instituto de pesquisas sociais, de proposta multidisciplinar, associado ao MIT e à NASA. Conhecido no meio acadêmico como intelectual que acredita em revoluções sociais sem deixar-se aprisionar por dogmas de qualquer tipo, John C. Campbell ainda vê nas viagens espaciais e teorias cibernéticas o futuro da igualdade entre espécies humanas, animais e vegetais. Do Hotel Shelton, no Rio, ele concede à jornalista Ana B. Salgado esta entrevista.
Bad Behavior has blocked 20 access attempts in the last 7 days.
Eita sociologo hippie e nazista! Ahahahaha…