Pequena história da riqueza no Brasil II

Matéria por Márcio Sampa
21 de outubro de 2003

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O velinho Dom Pedro,
que foi chutado do
trono, quando não
atendia mais aos
interesses das
elites.

O líder político e espiritual Mahatma Gandhi tem em meio ao seu repertório de frases lapidares o epíteto, “todo aquele que tem mais do que precisa, é um ladrão”. Uma frase obviamente ignorada pelos barões do café e coronéis latifundiários que apoiaram o golpe de Estado que derrubou o imperador e deu origem à República brasileira. Ignorada, primeiro porque não havia sido proferida naqueles dias, mas, mesmo que estivesse reverberando pelo espaço, seguiria ignorada pelas necessidades e interesses daquele grupo tão "preocupado" com os destinos da nação. De mais a mais, o velinho barbudo, que só queria saber de viagens e engenhocas futuristas, estava começando a atrapalhar os negócios com suas idéias extravagantes de civilização(!) .

Este grupo de brasileiros notáveis, que atualmente emprestam seus nomes às nossas ruas, avenidas e até cidades, se livrou do entulho imperial, mas se manteve mestre em perpetuar o modelo colonial: muita terra e renda na mão de poucos e uma massa de conterrâneos com pouco ou nenhum estudo. Afinal, em time que está ganhando não se mexe. A prova disso é que no território brasileiro, todas as guerras e revoluções que marcariam a primeira metade do século XX, podem ser comparadas às brigas entre os leões pelo melhor pedaço de carne da pobre zebra. “O povo é um detalhe na paisagem”, teria dito um coronel baiano, enquanto balançava em sua rede, pitando sua cigarrilha.

O tempo passou, e com o fim das guerras devastadoras entre as potências industriais do hemisfério norte, os anos 50 e 60 seriam testemunhas de uma sensível mudança no perfil da economia brasileira. Milhões de brasileiros começam a abandonar a vida simples do campo pelo frenesi das cidades, em busca de um lugarzinho ao sol. “O sol nasceu pra todos”, afirmou em discurso um banqueiro de futuro promissor, no início dos sessenta, “mas a sombra só pra alguns”, completou mentalmente. É claro que ele se referia às práticas bancárias que seriam instituídas no país, a partir daquele período. Enquanto no mundo inteiro, a diferença entre a remuneração de aplicações e as taxas cobradas por empréstimos e créditos em geral são razoavelmente aceitáveis, no Brasil, ela chegaria com o passar dos anos a patamares inacreditáveis de mais de 1000%. Como não ficar cada vez mais rico assim?

Quando ingleses, espanhóis, holandeses e norte-americanos resolveram, aproveitando a onda de privatizações, comprar alguns bancos por aqui e ensinar práticas bancárias aos seus colegas brasileiros, descobriram que em matéria de lucro os brazukas estão no primeiro mundo há muito tempo! Em termos de capitalismo, lucro e concentração de renda a Terra Brasilis é imbatível.

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Já reparou como a galera
do MST é sempre tratada
como bandidos pela mídia,
que nunca denuncia os
grileiros de terra no
Brasil?

Com o fortalecimento de uma chamada classe média urbana, em conseqüência do êxodo rural, as condições gerais da população até melhoraram, é verdade, mas o jeitinho brasileiro (maneira bonitinha de se dizer que alguém foi sacaneado) virou mania nacional e ganhou até um bordão, cunhado pelo tri-campeão Gérson. “O importante é levar vantagem, certo?!”.

Na história recente do país, a riqueza (há exceções!) perdeu a vergonha de ser sem-vergonha e, só para ficarmos nos últimos dez anos, já tivemos vice-presidente grileiro de terra indígena, um estado inteiro dominado pelo tráfico de drogas (e não é o Rio de Janeiro), prefeitos assassinados por quadrilhas de traficantes, assessoradas pela polícia, senadores cassados por improbidade, mas absolvidos pela justiça, candidata a presidente apanhada em flagrante com dinheiro irregular e inocentada pelos seus próprios acusadores, e uma série de indecências abençoadas pelo silêncio de uma população e por uma mídia que fazem de conta de que nada sabem.

Como gritaria Cazuza, lá do inferno, “Brasil, mostra a tua cara, eu quero ver quem paga pra gente ficar assim!"


Titulo: Pequena história da riqueza no Brasil II

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Matéria

Data de publicação: 21 de outubro de 2003

Resumo:

Continuação da história da riqueza brasileira. Qualquer semelhança com a realidade é coincidência!

3 Comentários

  1. Mário disse:

    Gostei pacas! Parabéns. Se serve como incentivo, continue escrevendo (também) sobre nossa história…

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Bacana sua abordagem, Sampa. Do “nascia um negócio chamado Brasil”, da parte I, ao imperativo-questionamento dos infernos de Cazuza, não nos faltam exemplos para desconfiarmos da própria ironia, pois a sujeira e o grotesco parecem já pasteurizados. Gostei de dois trechos em especial: a continuação em pensamento “mas a sombra só pra alguns” e o parêntese para o “jeitinho brasileiro”. Grosseiramente resumindo, bela matéria em duas partes.

  3. PH disse:

    Porra, Sampa! Um texto muito punk para a terra do samba. O interessante é que tem uma estrutura decadente, que começa com Gandhi e, na medida que se desenrola a podreira, termina lá no inferno - pra onde vc mandou o Cazuza. Acidez total.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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