Pequena história da riqueza no Brasil

Matéria por Márcio Sampa
16 de outubro de 2003

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Rei D. João VI. Ficou célebre
na história do Banco do Brasil
duas vezes. Foi o seu fundador
e o primeiro a desfalcá-lo.

Quando o grumete na gávea da nau capitânea da frota de Cabral gritou “terra à vista”, apenas confirmava a expectativa mantida pelos empresários lusitanos. Se Colombo havia descoberto anos antes terras mais ao norte, muito provavelmente as haveria em latitudes inferiores. Nascia um negócio chamado Brasil.

Por tratar-se de investimento de longo prazo e sem garantia de retorno líquido, a solução encontrada pelos homens de bem daquela época foi a divisão da terra em sesmarias e a exploração do patrimônio da superfície que trouxesse algum lucro imediato. “Mas e a mão de obra?”, perguntaria algum fidalgo desavisado, em meio a seus pares. “Ora ô pá, vamos colocar aqueles folgados que ficam pelados, transando o dia inteiro, para fazer alguma coisa, meu rapaz”, responderia outro mais instruído sobre as peculiaridades da nova terra. Naquela reunião de homens bem nascidos e tementes à Deus era engendrada a primeira exploração da mão de obra brasileira.

O tempo passou e os negócios se diversificaram. Para ajudar os pelados, que andavam morrendo como moscas, os empresários de sucesso resolveram contratar uns pretinhos que andavam lá do outro lado do Atlântico a cultuar deuses pagãos com danças e batuques exóticos. “Precisamos trazer estes gajos para a civilização”, ponderou outro nobre. Na contabilidade ganharia-se duas vezes, uma com o cruzeiro marítimo e outra com a contribuição que aquela rapaziada daria para colher a cana, no calor infernal dos trópicos. Muita gente ficou rica tomando emprestada a terra dos gentis indígenas para montar suas fazendinhas tropicais e contando com a colaboração dos nem sempre muito dispostos africanos. “Aquela gente não gosta de trabalhar”, chegou a confidenciar para El-Rei um dos donatários de reputação ilibada.

Enquanto isso, mais ao sul, o tempo das famílias prósperas dos corajosos bandeirantes paulistas, que se enfiavam no mato para levar a civilização para os bárbaros indígenas estava chegando ao fim. Para elas restaria apenas a tradição e a honra de serem reconhecidas no futuro como famílias quatrocentonas, que ajudaram a construir a riqueza de São Paulo e do Brasil com os inestimáveis serviços prestados por seus valorosos filhos, que até ouro ajudaram a encontrar lá pelas Minas.

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Perfil de índio tupi. Primeiro
trabalhador a contribuir para
a riqueza de alguns brasileiros.

Inexplicavelmente, o ouro que não ia para a Metrópole sumia misteriosamente no trajeto entre Minas e o mar, e mais inexplicavelmente ainda, em meio aos pés de chinelo que num último ato de desespero havim abandonado a corte para tentar a vida na maldita terra de malária, calor e pagãos, surgiam prósperos comerciantes que subitamente enriqueciam. Um chegou a reconhecer, “julguei mal o Brasil, isto aqui é uma terra de promissão”.

O enriquecimento do dia para a noite nunca foi realmente um problema por aqui. Afinal, não havia nada que um bom tabelião não resolvesse ao tornar legal a aquisição de uma fazendinha ou de uma modesta casinha de meio quarteirão, em Vila Rica ou mesmo na capital da colônia, lavrando os documentos de posse.

Com a chegada da família real portuguesa e posteriormente com a instituição das cortes dos dois Dom Pedro surgiria uma outra possibilidade de ascenção social, o funcionalismo público. Não o funcionalismo representado pela tiazinha do café ou pelo tiozinho da recepção, mas um funcionalismo que conhecia os meandros do poder e a lógica dos gabinetes palacianos. Compras superfaturadas, legalização de terras griladas, facilidades junto ao judiciário, fornecimento de serviços e materiais para o governo sem licitação, nomeação para cargos bem remunerados e que, de quebra, davam acesso às chaves do cofre e, claro, exploração da mão de obra daquele mundo de gente preguiçosa e imprestável.

Estavam criadas as bases para o Brasil do futuro. Terra abençoada, de gente pacífica e ordeira que conhece o seu lugar, e que respeita as instituições e a superioridade moral dos homens de bem que construíram a riqueza deste imenso País de oportunidades.

Semana que vem contaremos a segunda parte dessa história. Os séculos XX e XXI.


Titulo: Pequena história da riqueza no Brasil

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Matéria

Data de publicação: 16 de outubro de 2003

Resumo:

Narrativa dividida em duas partes sobre a história da riqueza no Brasil

4 Comentários

  1. Bruno disse:

    Grandioso! Relata de forma clara e simples os históricos assaltos à nação. Cada um à sua época, mas sempre tem quem vá tirar vantagem. É o que há de mais triste nessa sociedade.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    aguardando a segunda parte…

  3. Mário disse:

    Para um período tão longo como esse, cheio de contradições, coisas engraçadas e outras nem tanto, o texto, de forma curta, consegue abordar a riqueza de maneira simples. Faltam detalhes, claro, mas encaixa bem na intenção de “panoramizar” esses períodos. “Raízes da História”, de Sérgio Buarque de Holando, e “Formação Econômica do Brasil”, de Caio Prado Jr, são obras fundamentais para quem quer saber mais de história do Brasil. Esse texto, do Sampa, ajuda a ligar tudo isso. Parabéns!

  4. PH disse:

    Bom Sampa. Bem ambientado e contextualizado, pra explicar um pouco deste Brasilzão que tanto conhecemos, curtimos e desentendemos. Uma sugestão de leitura para complementar seu texto é o romance “Esaú e Jacó”, do Machado, uma bela metáfora sobre o período de transição da monarquia para a república, que fala dos anseios de ambos regimes, os cargos públicos (por ex. de deputado), o irônico destino da “Flora” e a dúvida acerca da tabuleta de uma confeitaria que se chamaria “do Império” ou “da República”, dependendo da situação… Bom, agora fico no aguardo pela sua análise contemporânea.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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