São Tomé das Letras

Matéria por Márcio Sampa
14 de abril de 2003

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A paisagem de São Tomé
é dominada pelas formações
rochosas que abundam na
região

Se você tem fé, vá e diga ao seu senhor que me viu. Eles não te cortarão a cabeça e ainda lhe darão a liberdade”. Assim começa a lenda de São Tomé, o santo que teria aparecido a um escravo fujão, escondido numa gruta dentro dos domímios do Barão de Alfenas.

Alguns dias depois, cumprindo sua palavra, o escravo retornava com o Barão e mais uma comitiva de leais e curiosos seguidores do fazendeiro, que queriam presenciar o milagre. A única coisa que encontraram foi uma estranha imagem do santo talhada em madeira. O Barão decidiu levá-la para a capela da fazenda, de onde ela desapareceu no dia seguinte. Formaram então nova comitiva e mais uma vez a estátua foi encontrada na gruta e levada de volta para a capela.

Por três vezes a imagem desapareceu e foi recolocada no altar, até que em 1875, João Francisco Junqueira – filho do Barão de Alfenas – ordenou que se construísse uma igreja ao lado da gruta e um casarão para onde se dirigiria todos os anos em procissão. O escravo conquistou sua alforria e ao redor da igreja nasceu o vilarejo de São Tomé. Mais de cem anos se passaram, desde então, e após todo esse tempo, a história do surgimento da cidade passou a ser apenas mais um componente no emaranhado de estranhas ocorrências que cercam o município mineiro.

Com a descoberta de indecifráveis escritos nas rochas existentes no local – atribuídos a indígenas ou até a uma possível passagem dos fenícios por ali – o nome São Tomé acabaria ganhando um “das Letras”, para marcar definitivamente o aspecto curioso do lugar.

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As habitações mais tradicionais
da cidade empregam a pedraria
como matéria-prima.

Sociedade Alternativa

Não se sabe ao certo quando ou como nasceu o mito de que a região seria um centro místico, onde bruxos, fadas, duendes e até discos voadores teriam encontro marcado com aqueles que fossem à sua procura. A verdade é que muitos dos moradores e das pessoas que até lá vão juram jamais ter visto nada, apesar de já terem gasto, pelo menos, uma noite inteira observando os céus e os vales em busca de algo sobrenatural.

Os discos voadores não aparecem para pessoas com uma carga energética muito negativa”, garante Macrô, uma das únicas pessoas que não negam ter presenciado algum fenômeno. Ela conta que há seis anos decidiu abandonar Juiz de Fora, a segunda maior cidade de Minas Gerais, para viver uma vida mais sossegada em São Tomé. “Aqui eu me encontrei”, diz ela, satisfeita por poder acolher os fluídos mágicos que a cercam.

Mas Macrô não é a única pessoa que trocou algum outro lugar para viver ali. Além de uma série de moradores que não conseguem disfarçar os costumes e idéias adquiridos nas grandes cidades e que vivem em função do turismo e dos agitos do “centrinho”, existe ainda uma comunidade inteira montada a uma certa distância de olhos curiosos. É o vilarejo de Eubiose. Situado na estrada entre São Tomé e Sobradinho é habitado por pessoas que resolveram criar uma sociedade alternativa para esperar pelo fim do mundo, ao qual supostamente somente algumas cidades, como a criada por eles, sobreviverão.

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O céu da região é de tirar o
fôlego…

Natureza

Eubiose é também o nome de uma das diversas cachoeiras existentes na região. São nove ao todo, sendo que os principais destaques ficam para o “Véu da Noiva”, uma bela queda d’água com cerca de 20 metros de altura; a “Cachoeira do Flávio”, onde se toma uma boa ducha revigorante e a atraente “Sobradinho”, que pode ser atingida através de uma passagem subterrânea.

E o subterrâneo de São Tomé das Letras é um de seus pontos mais instigantes para aqueles que procuram aventuras. O destaque maior fica por conta da “Caverna do Encantado”, a famosa passagem que conduziria até as entranhas da Terra, onde uma civilização inteira viveria, a meio caminho de Machu Pichu, no Peru, onde haveria outra entrada para a caverna.

Lenda…, realidade…? Não se sabe ao certo. O que se sabe é apenas que nenhum explorador, cientista ou leigo jamais conseguiu alcançar o final da caverna. Segundo Francisco Bacamarte, ou somente Chico, um dos moradores da região, o máximo que se consegue penetrar em Encantado são três horas de difícil caminhada por estreitas passagens, galerias e perigosas beiradas de abismos. “Lá no fundo”, diz Chico, “tudo que é luz se apaga, não tem lanterna e nem vela que funcione”. Coisas que para os cientistas encontrariam explicação na atuação do magnetismo da Terra, prejudicando pilhas e baterias, e pela falta de oxigênio a tantos quilômetros da superfície, no caso da velas.

Em São Tomé existem muitos outros pontos turísticos curiosos e lendas intrigantes, mas sua verdadeira magia, no entanto, está nos céus. É o maravilhoso espetáculo das estrelas cadentes, que dão ao impressionante grupo de incontáveis corpos celestes um pouco mais de vida com o seu bailado. Também no horizonte pode-se avistar diariamente o majestoso ciclo do nascer e do pôr do sol. Basta subir em um dos morros que cercam a cidade e olhar para o poente ou para o oriente. Talvez aí o verdadeiro milagre da pequenina cidade nascida com a história do escravo que, escondido do mundo dos homens, encontrou sua liberdade na força e na beleza da natureza.


Titulo: São Tomé das Letras

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Matéria

Data de publicação: 14 de abril de 2003

Resumo:

A cidade mineira, que teria um portal mágico que a ligaria à peruana Machu Pichu, é uma mistura de lendas, mistérios e belas paisagens.

4 Comentários

  1. Bel disse:

    Sou fã de carterinha da cidade e posso garantir que a matéria descreve fielmente as belezas do lugar. Parabéns Sampa!Vale lembrar também que São Thomé encanta pela sua vibração. A cidade das pedras concentra um alto nível de enrgia terra que é percepitível até para os menos sensíveis.Quem sabe não rola uma excursão daPatada para lá!

  2. Mário de Souza Neto disse:

    Olha, tô com o Piccolo. Deu uma água na boca danada. Além do aspecto transcedental, as fotos deram um gostinho de “preciso conhecer”. Gostei!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Maravilha. Agora fiquei muito a fim de conhecer a cidade e ver se o tal “portal mágico” é lenda ou realidade. Fotos e legendas perfeitas ;^)

  4. PH disse:

    blz, Sampa! É legal postar uma matéria… inaugurou um novo gênero.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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