Notícia por Eduardo Socha
2 de maio de 2003
Alles, was nicht Literatur ist, langweilt mich
("Tudo o que não é literatura me aborrece")
Kafka, Tagebücher. Agosto, 1913.
Há em cinquenta metros e poucos minutos:
- a moça bonita (ahh, essas mulheres do calor inesperado de outono!)
- o sol potente lá em cima
- a dona-de-casa levando o cachorro no colo (ela trocou o analista pelo cão)
- o vendendor de colchões rasgando a inefável risada (depois ele imita o som da freada do ônibus com a boca, senhores, com a boca! Pftttt, Pfttttt, Pfffft!!)
- a velha senhora trazendo carrinho de feira cheio cheio
- o músico à porta da loja tocando o cavaquinho batido
- o pastel pingando aquela gordura de ontem
Diga lá então, Franz, de onde vem a literatura?
Titulo: Prosa na terça-feira
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Notícia
Data de publicação: 2 de maio de 2003
Resumo: Um passeio dispensável
A indagação parece redutora, afinal o que “há em cinqüenta metros e poucos minutos” não só alimenta a Literatura mas também se transforma em material literário. Ao invocar, na intimidade do primeiro nome, o célebre autor tcheco, retoma-se a declaração que abre esta reflexão, e a resposta que paira é provocante, talvez reducionista. O questionamento, no entanto, é eterno, quiçá inefável.
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não sou Franz, mas digo: está na sua descrição e poder de observação. Ou o cachorro no colo pode estar substituindo um namorado. Ou o carrinho da feira está meio cheio, quase lotado. Ou estes 50 metros são 49, em minutos que são muitos segundos. Sim, a meu ver Franz continua certo.