Opinião por Tiago Russel
1 de agosto de 2003

Pela primeira vez, saio da ficção e vou escrever um pouco sobre a minha vida, meu trabalho e a experiência de passar uma semana no maior festival publicitário do mundo em Cannes/França.
Sou redator publicitário, e pela primeira vez vou escrever sobre algo que não vai fazer parte de nenhuma campanha. Nem de minhas fantasias.
“Depois de uma semana no templo máximo da propaganda, como é sentar atrás de um PC em Porto Alegre?“ é uma pergunta difícil, complicada e muito abrangente. Apelando para a analogia, eu poderia dizer que é como conhecer pessoalmente a Maryeva, passar uma semana com ela no Caribe, dizer tchau, voltar para casa e se contentar com a nova edição da Playboy em Capão da Canoa. Mas estaria sendo injusto com Capão da Canoa.
O nosso, digo meu, mercado é tudo o que temos. Não adianta ficar aqui suspirando, de braços cruzados e beiço enorme na boca. O meu PC continua aqui, e ainda é o mesmo. Assim como os PITs, os clientes, os desafios e as obrigatoriedades. Se você está lendo isso no no RS, irá ter provas disso em qualquer página de jornal ou revista. Existem clientes e clientes, trabalhos e trabalhos, mentalidades diferentes das que existem por lá. Isso é óbvio.
Assim como é óbvio saber que nem mesmo uma boa idéia ou mil passagens por Cannes poderão resolver esta situação assim, num passe de mágica. Quem dera o mercado gaúcho inteiro invadisse o Festival, incluindo aí clientes, fornecedores, produtoras e demais profissionais das agências. Tudo poderia ser diferente. Sim, apenas poderia. Não pense você que “eles” também não têm problemas. Se fosse assim, o filme da BMW “Who Killed the Idea?”, de Hermann Vaske, não teria feito o maior sucesso no Palais (ou Palácio dos Festivais).
Já a Maryeva, esta sim! Campanhas gostosas, com idéias maravilhosas e detalhes perfeitos. Do short list em diante, era só o que se encontrava. Mas, como nem só de Maryevas é feito o paraíso, muita coisa comum também mostrou as caras por lá. E é aqui que entra o dia-a-dia atrás de um PC em Porto Alegre. Como transformar esta menina normal numa Maryeva? Não sei ainda. Mas com certeza, vai ser preciso trabalhar muito. Duvido que apenas uma gotinha de suor consiga (repetir) este milagre.
Talvez seja esta a diferença: a chatice. De tanto estar junto com a Maryeva, muita mulher bonita, gostosa, série A mesmo, deixou de chamar a atenção. Ou seja, estou mais chato agora. E serei ainda mais daqui pra frente. Brigar mais por
idéias, produções, trilhas, títulos, vírgulas até. Entrar de corpo e alma no envelope pardo que acompanha o briefing. Ser mais exigente, sem esquecer de manter os pés no chão. Lutar por melhores resultados, nem que para isso precise ajudar a construir as condições para isso.
Sem querer parecer político em palanque nas vésperas das eleições, eu repito: não adianta cruzar os braços e reclamar dos clientes que temos aqui no Sul. Não adianta criticar a falta de dinheiro para se produzir um bom filme. Não adianta sentar na frente do teclado e escrever textinhos bonitinhos e pseudo-inspiradores. É preciso colocar o dedo na tomada e não tirar mais. Abaixar a cabeça e se dar conta de que é preciso aprender muito, amadurecer muito e, principalmente, lutar muito para poder ficar atrás de um PC, em Porto Alegre, e se sentir feliz e realizado assim.
Finalmente! Acho que é isso. O que sobra, depois de uma experiência como a de Cannes, é Tesão. Com T maiúsculo. Na prática, no dia-a-dia, é isso que muda. É conseguir sentir como se a Maryeva da Playboy fosse tão real quanto a verdadeira, só que aqui, em plena Capão da Canoa, me fazendo um cafuné.
Titulo: A Doce Realidade
Autor: Tiago Russel
Gênero: Opinião
Data de publicação: 1 de agosto de 2003
Resumo: Vida de publicitário no RS é difícil. Tanto quanto em qualquer outro lugar do mundo.
Senti falta do texto de semana passada, Tiago. Bom, falando do texto… Para quem está acostumado a ficções e a fixações de propaganda - ok, fui péssimo no trocadilho -, essa crônica-reflexão sobre a vida de um publicitário em pleno RS - e voltando de Cannes - foi bem divertida. As referências ao imaginário e ao que fez a Maryeva ser essa Maryeva, essa aí, que não precisa de comentários, encaixaram-se harmoniosamente com o restante de sua reflexão de publicitário. Gostei!
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Ótima comparação entre Cannes e Capão da Canoa. Nesta ingrata - e estimulante - área da “comunicação social” falta legitimidade, criatividade e competência. Cabe, justamente para quem sacar isto, criar as condições para construir algo grande. Está nas suas mãos o mercado do RS (e do Brasil, da AL…). Repetindo um delicioso slogan: Keep Walking.