Opinião por Tânia Toffoli
28 de abril de 2004
Pensando em produção artística, mais especificamente sobre literatura, embora não só, estive pensando na questão da autenticidade e da originalidade de uma obra. Faço aqui uma distinção entre essas duas coisas para explicar melhor o que quero dizer ? a primeira me parece mais ligada a algo pessoal, ligado ao autor enquanto a segunda me parece mais ligada à obra em si, seu estilo e sua estética.
Com “autêntico” quero dizer, no caso, que uma obra seria feita para expressar a sensibilidade do autor (isso porque a influência romântica ainda hoje assim nos faz perceber a arte). O que poderia ser feito sem necessariamente ser original, bastaria que fosse natural, sincero e, principalmente, sensível.
Já com “original” quero dizer fazer algo novo, com características únicas, tanto em forma quanto em conteúdo. Além disso, seria algo característico do momento histórico ao qual pertence o autor, algo diferente de tudo o que teria sido feito anteriormente na arte.
Se pensarmos na produção artística atual, veremos que muitas obras, mesmo sendo originais, não são autênticas. O autor pode fazer algo novo, inusitado e característico do nosso tempo, mas não estar sendo natural, não estar expressando sua sensibilidade, está apenas tentando vender um produto que as pessoas talvez gostassem de comprar justamente por ser novo ou inusitado e lhes despertar a curiosidade. Há, para dar uma ilustração óbvia, muitos filmes com essa característica. Inclusive muitos que poderiam ser grandes idéias, mas que prendem-se ao mercado.
Talvez uma grande obra da atualidade se reconheça pela existência tanto da autenticidade quanto da originalidade, mas acredito que a primeira seja o que há de mais importante na produção artística, sendo que sem ela a originalidade é oca, vazia e sem propósito. Uma obra que, mesmo não sendo original, seja autêntica consegue nos emocionar, significar algo e atingir nossa sensibilidade, que é o que considero mais importante na arte. O fato de uma obra trazer algo de novo é importante e deve ser levado em consideração, mas a essência da arte está em sua capacidade de sensibilizar.
Por isso, muito do que se produz artisticamente hoje em dia é desanimador ? falta aquilo que é a “alma” de uma obra. Talvez isso ocorra pela falta de sensibilidade e/ou pela desvalorização da mesma, o que nos lembra de nossos sentimentos é considerado chato, porque ser prático e não sentimental é muito mais adequado aos tempos atuais. O curioso é que isso acaba se tornando uma especificidade da arte contemporânea ? seu vazio. O seu “original” implica em não ser autêntico.
Defendo minha predileção pelo que é autêntico, mesmo que, para isso, haja o sacrifício da originalidade, já que muitas vezes me parece impossível a ocorrência de ambos na arte da atualidade, pois ser novo e característico do nosso tempo, portanto original, é não ser autêntico.
Mas deve-se, de qualquer forma, expressar-se a sensibilidade de alguma maneira, embora o espírito pobre dessa sociedade não permita grandiosidade alguma; permite no máximo que se faça algo modestamente parecido com o que se fez no passado. Ainda assim, tem-se alguma peculiaridade nisso, pois o que se está produzindo de parecido com o passado está sob a perspectiva de quem vive em nosso tempo. Sendo assim, acaba-se tendo algo que não é de todo original, mas possui a particularidade de ter sido escrito por um autor do presente.
Titulo: A NECESSIDADE DA AUTENTICIDADE
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Opinião
Data de publicação: 28 de abril de 2004
Resumo: Um comentário amador de quem vê a literatura de forma intuitiva.
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Hmmm… conceitos complicados, intrincados, complexos, difíceis. “Originalidade” (será que há mesmo algo de novo debaixo do Sol?) e “autenticidade” (não será só uma aparência autêntica e/ou imitação?) podem ser questionados a qualquer instante - e sua “revisão intuitiva” já é em si valiosa por “ter sido escrita por uma autora do presente” - pra tomar emprestado seu “grand finale”. Bacana.