Opinião por Márcio Sampa
14 de julho de 2004

A vida louca, vida breve, de Cazuza não pode ser contada em um filme de uma hora e meia. Esta é a impressão que se tem ao sair do cinema, deois de se acompanhar sua biografia transformada em longa-metragem.
Com produção de Daniel Filho, direção de Sandra Werneck e amparo da Globo filmes, "Cazuza. O Tempo Não Pára" é uma boa reconstituição de época. A geração do baixo Leblon carioca, cansada de 20 anos de ditadura, aparece ali, gritando, soltando a voz abafada pela ridícula repressão de mais um ridículo regime militar. Aliás, este é um dos méritos da geração rock dos 80: soltar a voz. Coisa que seus precursores não puderam fazer.
Há mérito também na excelente atuação de Daniel de Oliveira, que literalmente incorporou Cazuza e chegou a confessar que o papel é um marco em sua carreira, pois "entrar na alma" turbulenta do cantor foi ao mesmo tempo rico e complexo.
Mas o grande destaque do filme, enquanto concepção da diretora, fica para a cena em que Cazuza corre pela praia, logo após saber que é portador de HIV. A câmera move-se freneticamente, foca, desfoca, e torna a focar, indicando o turbilhão de idéias e emoções que assaltam qualquer mortal que receba uma notícia dessas.
As virtudes de "Cazuza", porém, terminam aí. A vida do pequeno burguês da zona sul carioca, como ele mesmo costumava se auto-definir, foi muito mais rica do que a película aponta.
Numa pequena demonstração de sua capacidade de buscar sempre novas experiências, Cazuza costumava fugir de seu mundo praiano para se internar na boca do lixo paulistana, simplesmente para tocar violão nos bares homossexuais da região do Largo do Arouche.
Sua veia blueseira, tão importante para a sua formação de intérprete, é infra-explorada, e suas parcerias com ângela Rô Rô, Lobão e outros saem do nada e vão igualmente a lugar algum durante a narrativa. Isso sem falar no picante romance com Ney Matogrosso, que é solenemente ignorado. Talvez haja aí um dedo da mamãe Lucinha.
De qualquer maneira, é um filme que precisava ser feito. Se Cazuza fosse norte-americano, Hollywood e a indústria fonográfica ganhariam milhões de dólares às suas custas. Infelizmente, a grandiosidade da história se perdeu em algum momento. Ficou meio café sem açúcar, dança sem par. Pouco pra quem viveu 32 anos a mil.
Titulo: Cazuza. O tempo não pára
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Opinião
Data de publicação: 14 de julho de 2004
Resumo: Se Cazuza fosse norte-americano, Hollywood e a indústria fonográfica ganhariam milhões de dólares às suas custas.
A História precisa ser contada e vida alguma se conta por completo em filme ou livro. O filme esconde bem a voz de seu narrador (ou narradora!), se perde na omissão de outros importantes detalhes ao dar lugar a montagens de shows e outras apresentações, talvez por querer contar vida do músico com a própria música. Legal a “opinião” - e vê se aparece ;^)
Boa análise Sampa. Vc sempre traz idéias novas sobre os fatos. Vê se aparece mais…:-)
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O texto do Márcio expressa exatamente a impressão que o filme me deixou. Gostei bastante da sua apreciação!