Opinião por Paulo Henrique
7 de junho de 2004
Estes dias eu estava dando uma bisbilhotada nos arquivos do extinto site NO. Em 2001, era o melhor site de notícia e opinião da web brasileira. Com um time de jornalistas brilhantes, conseguia dar o tom exato entre a boa leitura e a opinião consistente.
No entanto, nem os craques do NO escapavam da síndrome de "donos da razão", um mal generalizado do jornalismo e das atividades que de alguma forma são relacionadas. Sem excessão, todos aqueles que trabalham com as palavras caem nesta armadilha: os autores pecam pela total confiaça em suas opiniões, como se fossem verdades plenas e inquestionáveis. Em suma, donos da razão (antes que você me adiante, caro leitor, impute-me este defeito, por favor).
Voltemos ao NO. O site tinha um time de dar inveja a qualquer redação: Marcos Sá Corrêa, Artur Dapieve, Guilherme Fiuza, Zuenir Ventura, e tantos outros colunistas e repórteres de destaque no meio jornalístico. Pautas diferentes e criativas, bem elaboradas e bem apuradas. Jornalismo de dar água na boca, seja para quem lê, seja para quem escreve.
Ainda assim, veja só, regularmente o tal pecado voltava à tona, com opiniões alicerçadas em questões subjetivas, um "quê" de eruditismo e - por que não? - arrogância (de novo leitor, visto a carapuça). Dou exemplos: lembra do episódio de 11 de setembro, do atentado ao World Trade Center? Todo mundo lembra. E um dia antes deste fato histórico, o que aconteceu? Aí menos gente lembra: na noite anterior, no dia 10 de setembro, o ex-prefeito de Campinas, o Toninho do PT, foi assassinado à tiros em sua cidade. Tragédia nacional, ainda mais no contexto da época, quando Campinas sofria de uma onda de violência inédita, com um assassinato a cada 14 horas. Violência urbana exagerada.
No dia seguinte, o WTC foi para o chão e deu no que deu. Mas e no site NO? Lá, todo mundo estava concentrado nas imagens via satélite da CNN, vendo a fumaça de Nova Iorque e repetindo o que todo mundo dizia. Agora, sobre o Toninho, nenhuma matéria, nada. Só dava WTC. Passados dois dias, nós leitores do site mandamos e-mails para a redação, alertando a "barriga" histórica que o site tinha tomado, ao omitir um fato tão importante como a morte do Toninho. Ao invés de também contemplarem a pauta sobre o Toninho, Marcos Sá Corrêa, editor do NO, ocupou sua coluna para justificar que o site não tinha tomado barriga e que era natural ninguém dar atenção ao evento de Campinas, devido a monstruosidade do fato de NY.
Como se não bastasse, o editor disse que nem o site do PT tinha dado uma notícia decente sobre o assunto. Ou seja, como argumento, Corrêa nivelou a cobertura do NO ao site do PT, que nem jornalístico é. Só um mês depois (11 de outubro), o editor voltou a fazer algumas considerações sobre o caso - diga-se de passagem, nada primorosas em termos jornalísticos. Em suma, com a tecnologia de informação, ficou mais cômodo apurar (e opiniar) sobre terrorismo nos EUA, do que fazer uma boa cobertura sobre a violência em Campinas - cidade que fica ao lado de Sampa, onde o site tinha escritório.
Mas nem só de conveniência se vive no jornalismo on-line. Julgamentos precipitados também fazem parte do problema. Em 14 de novembro de 2001, quando o jornalista João Wady Cury publicou um artigo com o sugestivo título "O Fim de Ronaldinho", ele decretou irrevogavelmente: "Ronaldinho acabou". Argumentando sobre o fraco desempenho do jogador na época, por causa o joelho bichado, o jornalista utilizava termos como "morto vivo", "covarde" e "merreca" para classificar o craque, sugerindo que ele tinha se vendido à Nike. Um texto fortíssimo, que foi preciso que o cantor Léo Jaime (?!?!) intervisse com outro artigo para explicar que Ronaldinho estava se esforçando nos treinos e voltaria a jogar bem. Poucos meses depois, o jogador fez 8 gols na Copa de 2002 - dois na final -, foi artilheiro da competição e o principal responsável pelo Pentacampeonato. Gostaria de saber a opinião atual do João Cury sobre este artigo. O espaço está aberto.
Pra concluir: falo todas estas coisa no intuito de chamar a atenção da nossa aPatada, mais do que criticar os jornalistas em questão. Quero ressaltar que eles são profissionais diferenciados - não por acaso marcaram época no site NO. Mas estes exemplos são alertas, pois até profissionais de primeira, como Corrêa e Cury, caem em erros de imprecisão e julgamentos precipitados.
Ainda mais na web - onde a publicação de textos se tornou fácil, automática. Todos os dias podemos ver toneladas de palavras arrogantes e críticas infundadas neste mar digital. Um perigo. Por isso que a escrita é um dom complicado. É muito difícil concentrar-se apenas em escrever, sem começar a julgar e, principalmente, sem ser vaidoso. Precisamos estar constantemente atentos, pois existe uma linha tênue que separa as opiniões sensatas de palavras vazias. E qualquer escritor está sujeito a isso. São ossos do ofício.
Titulo: Donos da razão
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Opinião
Data de publicação: 7 de junho de 2004
Resumo: É preciso medir as palavras.
Os comentários nos fazem saber o que temos do outro lado. Mas nossa opinião deve ser sempre verdadeira, e procurar ser o mais justa possível. Claro que não precisamos ser cruéis. Parabéns pelo texto.
Com certeza o alerta é válido e a lembrança da falta de cobertura da morte do Toninho muito bem colocada, mas é praticamente impossível escrever sem impor dentro do texto determinado ponto de vista, cabe ao leitor concordar ou discordar!
Isso aí PH, se é pra falar mal melhor nem falar. Por isso minhas críticas só falam bem dos ‘criticandos’. Quanto aos ‘donos da razão’, eles estão por toda parte, no jornalismo não seria diferente.
Boa exortação, bom alerta, afinal pode-se dizer que ser “dono do poder” é um mal generalizado da própria humanidade…
Por mais que se diferem as opiniões, acho que o jornalista/escritor tem que fazer as pessoas acreditarem no que está escrevendo. Se ele está certo ou não cabe a cada um interpretar, mesmo ele tendo o poder da palavra e com isso da influência.
Muito bem lembrado, PH, em tudo. Da morte do Toninho, do WTC, e principalmente dos nossos lapsos de “donos da razão” — pois realmente todos nós somos, vez ou outra, mordidos por ele. Como é difícil, em certos momentos, aceitarmos quietos comentários que nos mostram um outro lado que, às vezes, nem nos demos conta de existir. Enfim, parabéns.
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Continua dono da escrito, seus textos cativam muito a atenção, não gosto muito de ler textos longos geralmente, mas os seus prendem a atenção. Continue assim… abraços saudosos