Opinião por Tânia Toffoli
24 de junho de 2004
Procurando um livro de poesias numa livraria deparei-me com três diferentes traduções. Pensei em decidir-me levando em consideração simplesmente o preço, já que todas eram ruins, mas logo desisti notando que a mais cara era uma edição bilíngüe. Decidi-me por esta apesar de ser o tradutor que menos gostava entre os três. Levando-se em consideração que era uma obra de um poeta francês e o quão rudimentares são meus conhecimentos dessa língua, seria de se espantar que tenha feito minha escolha devido ao fato da edição conter o texto na língua original. Digo “seria de se espantar” por que para quem conhece a qualidade das traduções brasileiras, especialmente quando se trata de poesia, não há motivo para espanto.
A maioria dos tradutores de poesia brasileiros tem a irritante pretensão de querer “recriar” a poesia original ? como disse certa vez Ivan Junqueira numa entrevista à revista Cult “não dizer exatamente o que o poeta disse, mas sim o que ele quis dizer”. O problema é que, em geral, esses vaidosos intelectualóides a la Ivan Junqueira não são capazes de compreender em sua totalidade o que o poeta “quis dizer” e nos impõem suas interpretações muitas vezes vazias através de traduções muito mal feitas.
Não seria melhor que esses senhores e senhoras se limitassem à sua condição de tradutores e não de poetas e nos permitissem ler aquilo que um grande mestre da poesia disse literalmente traduzido para nossa língua?
É claro que há muitas implicações concernentes à tradução de um texto ? deve-se considerar qual a melhor palavra para traduzir o sentido pretendido pelo autor, a simplicidade ou erudição da linguagem, o estilo e muitas outras questões estudadas nesse ramo do conhecimento, não se trata de desmerecê-las. Essas questões passam, é claro, pelo talento e habilidade do tradutor.
Mas o que estou questionando é o fato de se respeitar, quase que religiosamente, a musicalidade, a métrica, a rima dos poemas em detrimento do sentido. E o pior, esse respeito à forma não ser perfeito, já que é impossível mantê-lo em línguas diferentes. Além disso, apesar de ser muito mais simples e útil esforçar-se para manter o sentido, isso, no entanto, não é feito.
Prefiro lidar com uma tradução grosseira que me ilumine as palavras de um grande poeta do que uma trabalhada durante anos que apenas obscureça meu trabalho de leitora de poesia. A tradução é uma ferramenta, não uma obra de arte. Envolve trabalho, conhecimento, cuidado, mas a arte é do poeta e não daquele que o traduziu. Os tradutores nos seriam muito úteis se deixassem de lado sua vaidade e fossem bons naquilo que fazem em vez de tentarem ser bons na especialidade de outrem.
Titulo: EM FAVOR DAS TRADUÇÕES LITERAIS
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Opinião
Data de publicação: 24 de junho de 2004
Resumo: Sobre a qualidade das traduções de poesia no Brasil.
Interessante ponto de vista!
Esta é uma boa discussão, Tânia. Se por um lado temos tradutores que “recriam” textos - tirando o sentido original; existem outros que só transpõem as palavras para o português - ato igualmente prejudicial. No texto, vc fez sua escolha entre estas duas categorias e eu concordo com sua opção. Mas o lance mesmo é desenvolver um mercado de tradutores (ou seja, valorizar o ofício) que consigam achar o meio termo, como fez, por exemplo, Haroldo de Campos em sua tradução de Eclesiaste. Legal vc ter levantado a discussão!
Assunto delicado, Tânia. Tradução é ofício ingrato e mal pago; de poesia então, traiçoeiro. Há de se vencer a “intransponibilidade das línguas” com muito empenho, engenho e arte. E acredito que a melhor forma para compreender as agruras do “métier” é exercitá-lo.
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Não é à toa que os italianos dizem: “Traduttore, traditore” (tradutor, traidor). E a sabedoria popular ensina que quem tem telhado de vidro deve ter cuidado ao brincar com pedras…