Opinião por Tânia Toffoli
23 de abril de 2004
Vou começar aqui uma série de divagações que merecem um esclarecimento anterior ? não é um texto para transmitir uma idéia, não é uma argumentação. É um texto que tenta definir um espírito, num sentido geral, e, por isso, é vago.
Alguns pensamentos me vieram à cabeça e passaram a me incomodar de maneira particular, não como aqueles pensamentos que, apesar de interessantes e de alto teor filosófico, são apenas bobagens de uma mente ociosa que, por pensar demais, pensa apenas no que é estúpido. Não me alongando mais com explicações, o que quero dizer é a respeito de nossa época; essa que me irrita, que me enoja, que me desgasta e da qual jamais poderei me livrar do fardo de fazer parte. Ao falar sobre esses tempos horríveis não esperem de mim coerência ? só as pessoas chatas a possuem e conseguem mantê-la por muito tempo. Eu não. Prefiro abrir mão dela em favor da sinceridade. E nenhum ser humano é sinceramente coerente; só pode ser coerente se não for sincero consigo mesmo e vice-versa.
Conversas de bar ou de corredor, tomadas pelo tédio que caracteriza essa geração, são os melhores momentos em que esses pensamentos me surgem, talvez até animando o tédio pelo simples fato de se discorrer sobre ele. Novamente estou fugindo do assunto, mas isso pouco importa, já que é ao espírito dessa época onde quero chegar e essas leves mudanças de assunto ocorrem pelo fato de haver para dizer algo pouco objetivo, que só se vai compreender através da sensação daquilo que se pretende.
Como é fácil perceber, essa não é uma idéia original. Mas isso é óbvio, já que nada, exceto as asneiras, do que se diz é originalmente deste século ? somos os repetidores dos grandes homens. Tudo é uma versão piorada e/ou digitalizada de algo que já foi feito ou dito antes de maneira melhor em algum momento em que a humanidade possa ter tido, creio eu, algum pensamento ou sentimento que a engrandecesse.
Já que se falou em sentimentos, continuemos voltando-nos a eles que, hoje, são completamente ornamentais. Digo isso porque as pessoas que conseguem ser verdadeiramente felizes e satisfeitas com a vida são aquelas nas quais há muito pouca sensibilidade, mas para quem é bonito falar de bons sentimentos de maneira distante e superficial. Acordam pela manhã, compartilham de um ambiente doméstico comovente, pegam seus carros, vão para o trabalho ou a faculdade (sobre os quais geralmente nem pararam para pensar no porque o fazem), ocupam-se dele durante todo o dia, já que não teriam nada de mais interessante para ocupar suas mentes em caso de ócio, chegam em casa cansados, compartilham mais uma cena doméstica e dormem para repetir a jornada básica sucessivamente até a chegada dos finais de semana quando vão aos mesmos lugares onde tocam músicas iguais num volume que não permitam que elas sejam obrigadas a perceber o vazio de sua existência ao terem que dizer alguma coisa. São pessoas práticas, ocupadas, não dadas a teorizações ou pensamentos que sejam mais profundos que suas olheiras sobre a existência ou algo que importe porque isso é coisa de gente alienada que não tem mais o que fazer (com o que, aliás, concordo plenamente).
O problema é que a alienação e a falta do que fazer (mesmo quando tem o que fazer) vêm do fato dessas pessoas possuírem sensibilidade num mundo no qual ela não cabe. A banalização e a ridicularização do que deveria ser sensível é uma característica crucial dessa época. Há algo de patético em sofrer por um sentimento. Tudo o que deveria ser levado a sério é exposto ao ridículo e tornado humilhante e depreciativo ? sexo é o melhor exemplo. Aqueles que não encaram tais assuntos dessa forma não escapam à sina de parecerem encarar ou serem considerados “românticos”, o que parece ser quase sempre sinônimo de patético. Para esses, o tédio é inevitável, já que sentir, de maneira geral, é inadequado.
Mas o tédio vem também porque nada choca, nada transgride, porque nada mais é autêntico ou ideológico. Tudo o que se poderia fazer de doentio e bizarro já circula na Internet. Um programa como Jackass define bem o que quero dizer ? é a tentativa falha de transgressão calcada no estúpido, já que a preocupação com algo que seja relevante também não é original, principalmente porque não há nada de novo com que se preocupar.
Até a guerra hoje é chata. E perceba-se que as guerras e as revoluções em geral são iniciadoras de grandes pensamentos e sentimentos e, por isso, bastante responsáveis por muito da arte feita até hoje. Mas, atualmente, isso também é banal. E rápido. Cada vez se termina uma guerra mais rápido e com maior destruição, só que agora longe da Europa para não estragar mais nada que importe.
Eu desprezo o meu tempo. Ele me enoja. Não só pelo tédio ou pela falta de sensibilidade, mas pela enorme mediocridade que lhe é intrínseca. Nada é grandioso além da tecnologia. A humanidade definitivamente perdeu todos os seus valores, embora nunca a sua hipocrisia. A desigualdade existe da mesma maneira que sempre existiu, só que agora ela é sustentável porque todo mundo pode se considerar mais rico que alguém, quem não pode está com tanta fome que não é capaz de se preocupar com idéias. É divertido almejar ser tão rico quanto alguém, comprar algo que não se tem.
Sim, o consumo! Essa forma brilhante de distrair os desejos. Eles podem concentrar-se nisso, movimentar a economia e não encher mais o saco. Isso porque há sempre que se desejar qualquer coisa, melhor que seja algo que está a venda. É por isso que ser ilimitadamente rico também é chato e tedioso ? o interessante para se comprar é o que não se pode. A partir do momento em que há a possibilidade, já não interessa.
Também a falsa impressão de liberdade e democracia que permeia a todos é genial ? um exemplo magnífico da astúcia humana em sua capacidade perturbadora de auto ilusão.
E falando na ilusão, há que se falar do amor. Acredita-se, mesmo aquele sem sensibilidade, na existência de uma “alma-gêmea”, e acredita-se com tamanho fervor que a vida faz sentido por algum tempo. Há aqueles que continuam a crer nisso por toda a vida: felizes os que conseguem! Há outros, porém, que percebem nisso, através de alguns anos, uma impossibilidade inata. É irreal em si mesmo, é absurdo! E, para esses, o tédio torna-se tão absolutamente deprimente que nem mais o choro pode contê-lo. É uma tristeza seca!
Mas há alívio para isso! Há algo de incrível nesse tempo ? há remédio para tudo. Pode-se comprar felicidade para um mês inteiro por apenas R$ 16,40, basta que um psiquiatra lhe dê uma receita. Vicia, mas enquanto houver quem venda, não há problema. Efeitos colaterais não importam, afinal se está comprando felicidade e só se está sacrificando o corpo por isso ? ele pereceria de qualquer forma.
Poderia continuar falando de uma enormidade de coisas que desprezo nesses tempos horríveis, mas estou entediada demais para fazê-lo. Interessa-me agora uma imagem de podridão ? enquanto se vomita, o tédio não incomoda. Talvez por isso a ressaca e a anorexia ou a bulimia… ou não. O vômito é a descrição perfeita desse tempo! É asqueroso e vem do incômodo interior que não é nada mais do que podridão.
A questão central é que não há nada de interessante a dizer que já não tenha sido dito de uma forma melhor por alguém melhor que eu. E isso ocorre porque nesses tempos existe um vazio de espírito, um nada provocado pela mediocridade.
E se acham que acabo aqui, não se animem precipitadamente. Paro agora porque não tenho vontade suficiente para me prolongar mais, talvez numa próxima vez, talvez nunca mais me interesse em falar sobre isso. Pouco importa!
Titulo: ESCÁRNIO AO MEU TEMPO
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Opinião
Data de publicação: 23 de abril de 2004
Resumo: Um texto confuso, obscuro e pouco claro ? impressões sobre o espírito que define a juventude desse tempo.
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Concordo com “quase” tudo que vc escreveu. Esse texto é você.