Machado de Assis, recados sobre um imortal

Opinião por Editores d'Apatada
29 de setembro de 2003

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Machado de Assis (1839-1908)

Em 29 de setembro de 1908, falecia Machado de Assis, talvez o mais importante letrado dos nossos trópicos. Quase um século depois, o escritor ainda reina como incontornável e derradeiro incipit para toda nossa literatura. A envergadura de sua obra alarga-se para além do universo puramente literário ou acadêmico, invade nossos costumes, dita modas e insiste em revelar nossa malevolência e nossa virtude. Se as outras artes desejam persegui-lo e expandir seu legado através de um frenético mimetismo (vejam-se as adptações recente para o cinema como Memórias Póstumas ou Dom), é ainda na leitura do velho original que irrompem as grandes surpresas e mistérios do bruxo. Ler Machado, enfim, será sempre um inestimável barato.

Para lembrar a data, os colunistas desta Patada rabiscaram algumas linhas compartilhando seus primeiros contatos com o mosaico literário de Machado ou apenas lançando um novo olhar sobre seu extenso legado.



Devia ter quinze anos quando me obrigaram a sentar os olhos nas

Memórias Póstumas. Era uma tarefa espinhosa, sobrecarregada principalmente pelas ameaças da prova bimestral no mês seguinte. Ai do miserável que não ler, insinuava a desleal educadora. De má vontade, comecei uma leitura burocrática, imune a qualquer tipo de envolvimento. Nem havia por onde se envolver. Pois já na advertência ao leitor, esse tal de Brás Cubas citava Stendhal, Sterne e Xavier de Mestre, nomes para mim tão familiares quanto a onomástica da Ucrânia. Até então habituado às tramas inequívocas da série Vaga-Lume, senti enorme dificuldade em compreender o obscuro relato, cheio de ambiguidades e metáforas, daquele garboso e defunto senhor carioca. E quando pensava na prova, parecia vivenciar uma épica injustiça, como se devesse pagar uma sentença por crime não cometido. Odiei Machado e o sarcasmo da professora, pérfida no sorriso e ? mais tarde descobri - Capitu do magistério. Resultado: fui me reecontrar com Cubas oito anos mais tarde. Já éramos outros. Eu, livre das espinhas. Ele, pasto das vicissitudes humanas, primoroso encanto na pena do autor. Quanta falta me fez. Hoje, inseparável e verdadeiro mestre, Machado me segura pelas mãos (“vem comigo, leitor”, diz no Quincas Borba) e me guia, com fina ironia e admirável elegância, pelas densas malhas das relações humanas, transformando no caminho suas personagens em mitos modernos. Machado representa um permanente ensino e consolo. Numa de suas saborosas digressões, sobre discórdia e modéstia, presentes em Esaú e Jacó ? para mim, a obra suprema ?, o bruxo exclama: “Viva a Modéstia, e excluamos este livro”. Depois de tanto tempo separados, eu queria poder dizer: “Viva Machado, e excluamos o colégio.”


Quando conheci pela primeira vez Machado de Assis senti algo estranho. Era como se um senhor meio sisudo me contasse uma história e ao mesmo tempo estivesse a me fitar, me observasse paciente e soturno e, de meu riso ligeiramente disfarçado, ele se ria mais discreto ainda. Demorei a perceber que ele ria, mas ria baixinho, pacato, e permanecia quieto em seu canto de costume, com um sorriso inesquecível no canto dos lábios. Ouvi dizer que ele era bruxo, morava no Cosme Velho, se casou com uma moça de que ninguém queria falar a respeito - importante companheira. Vivia ensimesmado, não se sabia se por prosa, tosse ou gênio. Sei que ele me mostrou noz-idéia nova, que não me canso de abrir ­- eu ainda impetuoso, enquanto ele me ensina calma e paciência, mistura de reflexão e suspiro. Devagar e com o tempo, tenho aos poucos vislumbrado a teia-nada que ele tanto contemplava. De vez em quando ele reaparece pruma visita, a conversa é sempre boa, inteligente e agradável, e algo de proveitoso acabo tirando como lição, de alguém que parece ver mas disfarça em palavra-insinuação, com elegância e estilo, o mistério por trás da vida.


Numa tarde quente de setembro (era uma segunda feira), um moribundo ironizou do clima triste da sua casa:

- "Está vendo este zum-zum-zum?" - cochichou para um conhecido - "É de velório…"

Sem saber o que fazer, o amigo tentou desconversar, dizendo que não era bem assim. Ouviu outra:

- "Estou mau, vou morrer".

Este moribundo realmente já estava nas últimas. Mas ainda estava lúcido e, dentro do possível, bem humorado. Ele já era viúvo, tinha perdido sua companheira há 4 anos. Já tinha deixado uma obra extensa, tinha produzido muito em sua vida. Nos últimos tempos, sua vista só o permitia ler e estudar durante a luz do dia. As noites se arrastavem longas e solitárias. Aos 69 anos a morte até que era bem vinda.

Mas aquela tarde foi ofegante e o enfermo variava entre momentos de dor e alívio. A falta de ar às vezes assustava os presentes: o zum-zum-zum era suspenso. Nos momentos de sono e calmaria, o barulho voltava. Em meio a este ritual, surgiu entre as pessoas um moleque mulato, que se ajoelhou ao lado do enfermo e abaixou a cabeça. Pelo canto dos olhos, o moribundo extendeu sua mão, que o jovem prontamente beijou, antes de se levantar e ir embroa. Era Lima Barreto.

Poucas horas depois, na madrugada da terça feira, Machado de Assis morreu.


Tudo começou com algo leve. Não sabia o que iria encontrar, mas a curiosidade me empurrou em frente. Como eu poderia saber que um ato tão simples quanto aquele poderia me tornar um viciado? Pois sim, antes dele eu já havia experimentado outros. Mas nenhum deles me tornou viciado. Talvez eu não estivesse predisposto. Talvez eu só tivesse experimentado o que não me satisfazia. Só que isso mudou. Provei, provei sim, não escondo. Ah, foi um gosto novo, novos desejos, um universo. E tudo, tudo por culpa dele. Sou agora um viciado. Mesmo antes, com suas palavras, ele já havia tentado me seduzir. Não conseguiu. Foi só com Dom Casmurro que ele enfim me convenceu. Aquele ciúme, aquela tensão, aquela desconfiança. Foi um baque, fiquei de porre. Depois outros reforçaram o vício: Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Com a tensão dessas três obras, a liberdade narrativa, as personagens marcantes, oras, não havia como escapar. Foi vício imediato. Portanto, não tenho dúvidas de que ele é o grande culpado. Machado me fez um viciado em literatura.


Ele pegou o Machado e olhou fundo nos olhos dela. Olhos parados, de peixe-morto. Isso só fez o sangue dele ferver ainda mais dentro do corpo. Como ela ousou mexer no Machado? Quem ela pensava que era para tirá-lo do lugar? Tocar seu corpo? Maldita ordinária! Não merecia sequer olhar para ele. Num instante, chegou a se imaginar matando-a. Um golpe seco resolveria. Mas pensou melhor. Ela merecia mais do que isso. Ela merecia sofrer. Estava decidido: a partir daquele instante, ele a condenou a viver na eterna ignorância.




Leia mais sobre a repercussão em 1908: http://jbonline.terra.com.br/jseculo/1908.html


Titulo: Machado de Assis, recados sobre um imortal

Autor: Editores d'Apatada

Gênero: Opinião

Data de publicação: 29 de setembro de 2003

Resumo:

Em 29 de setembro de 1908, morria o bruxo do Cosme Velho. Deixamos pequenas impressões em sua homenagem.

3 Comentários

  1. roberto angelseyes jr disse:

    achei esse testo na internet no google e nao entendi essa história do limabarreto negro ou mulato beijar a mao do machado de assim porque eles nao se gostavam e acho q ele nao era mais menino nas minhas contas ele tinha 26 anos e assim escrevi no meu trabalho posso colocar isso no meu trabalho?

  2. Andhressa disse:

    Machado de Assis não conseguiu o que nenhum outro jamais fizera antes : despertou em mim não só o prazer pela leitura como uma senso crítico que com certeza me aconpanhará por toda a vida

  3. Herbie disse:

    …e lá sentado, em frente ao monitor brilhante - 575N - e à janela com vista praquele mar de prédios, dia claro de fim de setembro, lembrou de tudo aquilo que é Machado. E chorou, acanhado - uma lágrima de cada olho. Que lindo dia.

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