Opinião por Márcio Sampa
29 de setembro de 2003

Há algum tempo atrás convidei uma dessas criaturinhas que não saem do shopping, a não ser para ir a academia ou ao salão de beleza, para ir ao cinema.
Ousado e ao mesmo tempo ingênuo, a convidei para assistir a um Almodóvar. A criatura, igualmente ousada e ingênua, me disse que preferia os filmes de Hollywood aos europeus e latinos em geral. Disse-me que os hollywoodyanos se incumbiam de mantê-la num mundo de fantasia, enquanto os demais tinham uma desagradável tendência à realidade. A figurinha pneumática me fez lembrar o soma de Aldous Huxley, em seu Admirável Mundo Novo.
Confesso que fiquei enojado. Não, não da garota. Fiquei enojado de mim mesmo, por tê-la convidado para alguma coisa. Mas devo admitir também que admirei sua sinceridade e seu aguçado senso de auto-preservação emocional.
Bem, como encarar a realidade nunca foi um problema pra mim, resolvi honrar um auto-compromisso que há muito me perturbava. Resolvi assistir “Notícias de Uma Guerra Particular”, uma co-produção de Kátia Lund e Walter Salles (1998) que, elaborada em forma de documentário e assessorada por Paulo Lins, serviria de piloto para o comentadíssimo “Cidade de Deus”. Sei que essa turma já está numa terceira geração, com o seu “Seja o Que Deus Quiser”, mas era necessário fazer uma visita a essa protoprodução.
O documentário é horrível! Não em sua estética, roteiro ou proposta. É horrível por relatar uma realidade nua e crua sobre milhões de brasileiros confinados em suas vidas miseráveis dos morros cariocas, onde a desesperança é a palavra de ordem e onde a idéia do “se eu morrer hoje, depois de amanhã faz dois dias” é a tônica que embala a proposta de existência dos mais jovens. Creio que Elis Regina quando cantava “o Brazil não conhece o Brasil” não se referia somente aos não brasileiros, mas a milhões de nós brasileiros que vivemos tão próximos e tão distantes dessa realidade.
Pela primeira vez, ao terminar de ver o documentário, senti inveja da patricinha do shopping center. Pensei comigo, ela nunca vai ver esse documentário e nunca vai sentir o que estou sentindo agora: desgosto. Desgosto ao ver seres humanos reduzidos a condições que só me remetiam àqueles igualmente trágicos campos de concentração nazistas e suas atrocidades, narradas pelos documentários da BBC. Desgosto por saber que a corrupção dos valores, da vida, da Alma, pode atingir níveis inimagináveis.
Me furtando a uma análise crítica do documentário, apenas posso dizer que não vou me afundar no ópio dos hollywoodianos, gritando por uma dose a mais de soma, mudando minha maneira de ser, pensar e sentir o mundo, mas sei que não sou tão forte para encarar a realidade, como equivocadamente imaginava.
Titulo: Notícias de uma guerra…
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Opinião
Data de publicação: 29 de setembro de 2003
Resumo: Impressões sobre as impressões sentidas ao final de um documentário.
Assim como o documentário é “horrível” (na opinião do autor), considero este texto tão “horrível” (no mesmo sentido acima), por mexer com o leitor e provocá-lo a chocar a realidade que conhece de fato com aquela que ele certamente dispensa conhecer… Parabéns, Sampa!
Ótimo texto, Sampa. O que é duro e ao mesmo tempo uma segurança é que, para nós, é possível encarar nossa realidade atrás de uma tela de cinema. A vida maldita, crua, nua, cheia de desesperanças e lutando contra a maré. A alienação é a chave para aqueles que querem a felicidade a todo custo. A pneumática entendeu isso perfeitamente, como todos os demais. Ainda preciso assistir mais essa realidade, só que no cinema.
Sarcasmo picante, Sampa, muito bem temperado - falsamente melancólico e muito instigante -, gostei. Ainda que “horrível”, me falta ver o documentário…
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Paradoxamente, achei muito bem pensado neste ponto de vista, é depressivo termos que absorver a realidade brasileira que nem todos os brasileiros conhecem.