A Porta do Céu

Poema por Mário Neto
2 de abril de 2003

Já era madrugada

E uma fila desgraçada

Se esticava na escuridão.

Pessoas das mais diferentes,

Jovens, velhas ou doentes,

Inquietavam o coração.

Longa a fila se tornava,

Só de noite se formava,

De dia a solidão.

O silêncio era completo,

O lugar era incerto,

Sem rumo nem direção.

Numa porta esperavam,

O quê não imaginavam,

Vai ver que foram em vão.

Assim o primeiro ia,

Se agachava e não sorria,

Espreitava com paixão.

Espiava pelo buraco

Só esperava não ser fraco

De fugir na contramão.

Assim o primeiro ia,

E o segundo repetia

A mesma operação.

Cada um saía dum jeito,

Mas não importava o sujeito,

Sorria bonachão.

E a fila foi crescendo.

Tinha muita gente crendo

Que era a salvação.

Estavam lá o delegado

E o maior dono de gado,

O Coronel Sebastião.

O silêncio foi sumindo

E o povo invadindo

Aquela quase procissão.

A fila não se encolhia,

Foi gerando uma folia

E uma grande confusão.

Delegado ficou puto,

Levou pedra no cocuruto

Queria dar uma lição.

Deu um tiro para o alto

Como bandido num assalto,

Até ter a atenção.

Foi andando mui valente

No meio daquela gente

Com muita convicção.

Teve um que não agüentou

Sua perna esticou

Delegado foi pro chão.

Um tumulto aconteceu,

Teve gente que correu

Pra não levar safanão.

Delegado levantou

Sua pele enrugou

Grudou barro na sua mão.

Mostrou cara de malvado

Queria achar o culpado

De tamanha humilhação.

Viu um homem correndo

E depois se escondendo,

Era aquele o sabichão.

A pistola estremeceu

E o homem um grito deu

Mas fora da visão.

Quando deu por percebido

O maldito havia sumido

Como uma assombração.

O Coronel mui religioso,

Crendo em Deus tão poderoso,

Fez logo uma oração.

Sendo homem tão amado

Foi logo copiado

Pelo novo sacristão.

O povo não demorou.

Logo se ajoelhou

Pedindo uma grande benção.

Foi quando a porta se abriu

E o homem surgiu

Numa grande comoção.

Ele estava tremendo

E o povo foi gemendo

Acompanhando a emoção.

O delegado desconfiado

Não era abobado,

Juntou-se a multidão.

Decidiu ficar calado.

Vai que Deus acha pecado?

É a melhor solução.

O homem foi carregado

Como o Deus crucificado,

Tinham fé na aparição.

Grande festa foi feita

E uma mulher foi eleita

Para casar com o guardião.

Era filha do Coronel,

Moça jovem e cruel,

Antes fosse morto ou aleijão.

A porta ganhou nome,

Era do céu, se não houvesse fome

Naquela região.

O lugar prosperou,

Muita gente o visitou

Para ver a sensação.

Mas o céu ficou bem triste

Por ter tanto dedo em riste

Pedindo solução.

Teve que morrer o santo,

Mesmo com tanto espanto,

Para que vissem a situação.

Que a porta era porta,

Que haveria gente morta,

Não importasse a religião.

Num dia choveu forte

Fosse milagre ou fosse sorte,

Tinha até trovão.

E a porta foi cedendo,

O povo chorou temendo

A falta de opção.

Estava tudo acabado.

Qual seria o resultado?

Era incerto. Por que não?


Titulo: A Porta do Céu

Autor: Mário Neto

Gênero: Poema

Data de publicação: 2 de abril de 2003

Resumo:

A fé do povo simples numa trova popular.

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3 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Um novo estilo e oficialmente um novo gênero - prósperas letras. Parabéns!

  2. PH disse:

    Uma trova na aPatada. Inaugurado um novo estilo. O curioso é que a trova começou com uma fila, o que me remeteu à excelente crônica “A Mulher do Salto”, que li hoje mesmo no “Beco”.

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