Dízima

Poema por Marco Giannelli
14 de maio de 2003

Teu olhar singrou os indômitos vales

Do meu espírito espicaçado.

Como prisma, siderei o que em pé

Agitava-se em mim e encadeei todas

As letras que tremulavam

Nas mãos

Prestes a corromper a palavra,

Prestes a calcinar o momento.

Tuas retinas emulavam cores que

Ardiam em pupilas, rogos

E imagens

E qual magiar sem pátria,

Escolhi um dialeto a prolatar sentenças.

Foram palavras em vão que me

Conduziram ao varredouro que são teus seios

E das ruínas poucas, dos teus

Estilados pêlos, de tuas mãos em cruz

E tuas coxas semoventes,

Jungi o que o parvo acolhe

E o quanto o sábio mente,

Dei nas exatas dobras dos teus

Cabelos,

E lá uma dízima me é cobrada,

Paga com dedos e falanges, mãos e incenso.

Teu beijo é o Estige e há uma

Patena que oferece a hóstia,

Colapso que dá relevo à cena.

Sei que o seguinte passo é

Quitar o débito com um prêmio:

Falar é tartamudear para quem

Deseja.

Esparzi sobre a lânguida carne

Verdadeira,

E qual semente rupestre da madeira,

Escrevi no torso uma palavra inteira

Doce pena que nem à tinta mesma ensina,

Que a palavra por mais pequena

Não fala nem acena.

A quantas mil letras recorrerei

Para lacerar o trigo e escrever a frase,

Dizer o que digo ou tanger um vocábulo?

Meu verso é todo ele contrição e desencontro,

Quanto mais digo, menos razão assomo.


Titulo: Dízima

Autor: Marco Giannelli

Gênero: Poema

Data de publicação: 14 de maio de 2003

Resumo:

poema de amor aflito

, , , ,

1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Gostei. O começo já anuncia a dívida escondida no título (“As letras que tremulavam/Nas mãos/Prestes a corromper a palavra,/Prestes a calcinar o momento.”) e o encerramento guarda algo de moderno e romântico: “Meu verso é todo ele contrição e desencontro,/Quanto mais digo, menos razão assomo.” - muito bom.

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Quem é Marco Giannelli?

Brasileiro de cosmorama, celibatário mas com os pulmões cheios de desejo, latitudinário e sem qualquer razão para ser franco. Mente mas procura ser verdadeiro.

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