Húmus

Poema por Marco Giannelli
23 de abril de 2003

O chão lavado do sêmen das

chuvas, agora regurgita

uma antiga esterilidade e

dá loas à gravidez do dilúvio.

Cada seixo é uma pedra no caminho,

cada pedra é uma escultura barroca

das águas e de sua intenção

benfazeja, mas não há

só pedras,

há também busílis e poeira,

estilhaços e esterco

e se o mato rasteiro lhe roça

a pele, e não faz nascer o feto,

surge o rebento da branca espuma das praias,

ctônia, ígnea, seivada e

prenhe de tempos mitológicos.

A terra é mendiga e sorve todos

os recursos da Penia,

mendigando húmus dos passantes

e esterco dos semoventes.

As formigas lhe sulcam o rosto e

as enxurradas arreganham as

pernas, numa falta de pudor

sem remorso.

E se a terra é mendaz quando

frustra a colheita pelas mãos do que

a inventou de fazer, é

que nem sempre a parcimônia é

um defeito.

Das raízes cismadas, arranca

a terra seu virulento magma,

e desfaz os cistos que a natureza

planta.

E à noite, quando ao deitar,

se levanta, a terra prazenteira se afeiçoa

à lama que o orvalho cria e

que a escuridão protege,

enquanto o raiar do sol apenas se

anuncia

e o céu de um novo dia vem à tona.


Titulo: Húmus

Autor: Marco Giannelli

Gênero: Poema

Data de publicação: 23 de abril de 2003

Resumo:

poema mitológico

,

1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Sua poesia me evoca Augusto dos Anjos, que deixo por aqui: “Começaste a existir, geléia crua,/E hás de crescer, no teu silêncio, tanto/Que, é natural ainda algum dia, o pranto/Das tuas concreções pásmicas flua!/A água, em conjugação com a terra nua,/Vence o granito, deprimindo-o… O espanto/Convulsiona os espíritos, e, entanto,/Teu desenvolvimento continua!/Antes, geléia humana, não progridas/E em retrogradações indefinidas,/Volvas à antiga existência calma!…/Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres/De atingir, como gérmen de outros seres,/Ao supremo infortúnio de ser alma!” - (A um gérmen, in Eu e outras poesias)

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Quem é Marco Giannelli?

Brasileiro de cosmorama, celibatário mas com os pulmões cheios de desejo, latitudinário e sem qualquer razão para ser franco. Mente mas procura ser verdadeiro.

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