Poema por Marco Giannelli
6 de março de 2003
Sou o Judas das hostes
E a cada dia me apunhalam de um modo
Diferente.
Surrado e estropiado dos pés à cabeceira,
Valem-me pouco as trinta moedas de prata que me fizeram
Um condenado à danação eterna.
Sou o Judas das milícias celestes
Que me negam o perdão
Como negam à um varão o direito de procriação perene.
Sou o Judas das crianças catequisadas e
Das hóstias deglutidas,
Judas que se assemelha ao capim gasto pela
Equimose dos pampas e das
Noites em meio às rameiras.
Meu lema é soçobrar em virtude de tantas
Queixas e doenças, de tantas lamúrias e desgostos
Mágoas, pecados e deméritos…
Sou o Judas que apanha das mãos benzedeiras
E dos galhos de alecrins malfadados,
Sei que a minha dor alivia a dos amantes rejeitados
E a dos guerreiros “sconfitti”,
Paliativo das chacinas e hemorragias ultimadas.
Quando me abatem, posso sentir o cheiro ardido
Do sentimento que escapa às narinas Infectadas e
dos braços tesos,
Os músculos rijos jamais endurecem tanto
Para a ventura quanto para o meu esfolamento.
Lembro-me das últimas expressões do banquete
No qual acedi à minha própria ganância,
Mas nenhum daqueles que me ladeava e
gania,
Expôs à sua vez o quanto urdia.
Sou por isso, o Judas que havia
E não há como fugir à penitência e
Ao rigor dos insolentes juízes que me Maceram a carne,
Que me lanham a pele e
Me riscam o corpo,
Pois sou o Judas que nasceu para ser povo.
Titulo: Judas
Autor: Marco Giannelli
Gênero: Poema
Data de publicação: 6 de março de 2003
Resumo: Sobre a judiaria que se faz com Judas
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