O homem podre

Poema por Marco Giannelli
24 de fevereiro de 2003

O homem podre

Amanhece e a cor infeta do dia é um desgosto a mais

para os que vieram do jugo da noite.

Do leito, pendem as mãos encolhidas

do homem,

indicam as impressões lavadas

de um corpo que não mais se identifica,

corpo que é uma estátua ulcerada e

moeda que os dedos frustearam ou

calendário que a azenha consumiu em dias

e horas e minutos e segundos e toda a extensão que

a vida é capaz de criar para iludir os que não

cansam de morrer.

O homem balouça que é quase um inseto,

tem a fronte hirsuta,

e os pés chagados da seara amanhecida

e se tem a roupa suja,

é que há uma ferida mórbida em seu

coração suicida

que não é tremelicoso nem

chora por ser furtivo.

Tem o parasita o desejo de alçar-se

mas sobre o quê se levantar

se as suas costelas não são de barro

e cuspe

nem seus músculos de tecido

e azinhavre

nem suas lembranças de pústula e

ferida?

Há naquele homem uma espécie de tropismo,

um querer volver-se ao lívido,

sensual e bucólico sintoma.

De pé o homem está caído e se o projeto

de uma cúspide é para acrescê-lo,

há de haver litígio entre o deus que assoma e os

ínferos que regurgitam fendendo os dedos e os olhos.

Cada passo é para ele um cálice

de cicuta,

cada beijo foi para nós a expressão de um dia a menos

no veneno do desejo.

E se o corpo ereto e levante é uma evolução

da natureza,

que dizer do septo que é o olhar vazio e que

recai sobre a mesa?

Alcanço o homem que ampara o seu tumor,

quase o sacia,

dou-lhe cutiladas que valem por carinhos

e como seu prazer me enoja e me conspurca,

qual azáfama na véspera do casamento,

e se fustigo suas partes pudendas

é que seu pênis ereto e resseco chagam

minhas boas impressões do paraíso…

Homem desprezível e de porções candentes,

que ao menor sinal de seu cheiro,

infesta o ar e cuspinha cada bago do alimento que consumo!

tu que sevandijas a própria comida,

como pode requerer um merecido açoite

na noite dos condenados?

Visto o homem com detença e seguro seus braços

escorrebundos.

Amarro suas pernas anquilosadas e

curo suas cavidades podridas.

Não há remédio para o que arde

nem curativo para o que geme.

Há somente o azedo de quem posterga o dia

da morte ou da vida

e qual aziago do Egito,

mutilo o cancro que envenena a tua boca!

De pé já está o homem no que o sol se enveredou

e mais não pode que os pés não conduzem.

E se os dentes nasceram para cair,

não há mais o que o mastigo promete

nem o que a língua almagra canta.

Podre pode o homem caminhar, basto de eczemas e

dermatoses e gangrenas e humores,

edaz de todas as dores que cancionou e

de todos os amores que entendeu

gozijar

e se o pênis continua ereto é que o

homem ainda vive como um sarraceno em caverna.


Titulo: O homem podre

Autor: Marco Giannelli

Gênero: Poema

Data de publicação: 24 de fevereiro de 2003

Resumo:

O despertar de um inseto para sua inexorável degenerescência.

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Quem é Marco Giannelli?

Brasileiro de cosmorama, celibatário mas com os pulmões cheios de desejo, latitudinário e sem qualquer razão para ser franco. Mente mas procura ser verdadeiro.

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