Três cenas para Maiakóvski

Poema por Juli Manzi
25 de janeiro de 2004

CENA 1 – INT. NOITECASA DO POETA

Na periferia pobre de Moscou

um apê social club penuriante my friends

Ele, que não é Tim mas é Maia

passando por uma fase ultra racional

administra à base de

idéias.

Entre bolas tacadas vodka

ócio

cada

vez

mais inventivo

O homem cada vez mais convencido

a plenos pulmões bradeja

como uma luz cintilante

num fim de tarde tristonho:

- Não é tempo de escrever sobre rosas

afiem seus versos e prosas

ninguém põe fim ao sonho!

Um brinde imediato levantam

Amigos de todas as letras

Otto Lilia Burliuk Kliebnikov Kroutchonik

Iluminação escassa

Comida pouca

Sobre a mesa servem apenas bolas de bilhar.

CENA 2 – EXT. DIA CLAROINTERIOR DE UM BONDE

No trajeto rumo ao centro

vê o dedo em riste de Lênin

ilustrando um cartaz na janela

de um,

como tantos eqüidistantes edifícios

da Kutususki Prospect

Duas quadras antes do rio congelar.

Vou visitar meu museu

Agora sou museu, rua, estátua

e livros

Fiz da vida um desafio

Não a tive sob controle

é certo

Mas escolhi a data da minha morte

respirei fundo o cheiro de aço

sabendo do último minuto.

Fodam-se os críticos

e as caspas

Que me ponha fim uma bala

e uma balada de balalaika

se faça ouvir no paraíso vermelho.

Meus irmãos me aguardam

Vejo vindo a alvura da múmia de Ulianov

Cada vez mais distante

desse inferno de lamúrias!

Quando dizem que tenho escrito pouco

cito os 17 anos da greve de Valéry

Diecisieste años sin una pica de un poema

Pero con corazón de poeta

una viez poeta…

CENA 3 – INT. ESTÚDIODEPOIMENTO DO DIRETOR

Camarada, ei camarada!

Muito cuidado, ou te cantarei uma elegia

Sinto que estás com o coração grande, grávido de suicídio

Em ti a anatomia ficou louca

És todo coração

Ele bate em todo teu corpo

E aí é que mora o perigo!

Derrete (com punhados de sal)

esta dor que te atormenta

Com pá pesada remove estes montes de desilusão

Limpa o caminho

para que uma nova estrela surja

apontando com cinco braços

os continentes de uma só nação

Para que o amor expanda

e ninguém volte a morrer

por ele.

( Podes crer que é bem no Brasil

na lonjura triste dos trópicos

que há um homem feliz

não se sabe

por quanto tempo )


Titulo: Três cenas para Maiakóvski

Autor: Juli Manzi

Gênero: Poema

Data de publicação: 25 de janeiro de 2004

Resumo:

Biografia/homenagem/ficção

,

2 Comentários

  1. Magela disse:

    Eles queriam dar o que eles vivem: pequeno-burguezismo. Eles queriam transformar nossas crianças em consumidores conscientes.

  2. Magela disse:

    Entraram em minha casa. Lugar sagrado. Ninguém crê em Deus, mas é sagrado. Nada além do pão-nosso-de-cada-dia. E de cada sol e cada lua, apenas um mundo estranho para os homens que entram em minha casa.No início o verbo era de bom tamanho e entusiasmava a todos. Terra, casa, comida, lazer para todos.Mas desconfiamos a tempo. Eles queriam o que eles vivem. Um amigo até que me disse um verso, nem sei se é do próprio punho do danado: “fica mal com Deus quem não sabe amar, ficar mal comigo quem não sabe dar… o jeito a gente ajeita dele se acabar”.Fechamos a porta. Nem gente direita, esquerda e equilibrada entra mais. Continuamos não acreditando em Deus, nem nessas religiões chamadas partidos, dogmas e linhas políticas.

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Quem é Juli Manzi?

Compositor, professor e jornalista. Mestre em semiótica e poesia experimental pela Unicamp.

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