Poema por Juli Manzi
4 de junho de 2003
Umbigo
O umbigo é o centro do corpo
da gravidade do corpo
centro de tudo
Olho do mundo
eixo da via láctea
ponto de fuga no óleo do artista
Os índios tapam o umbigo
e mostram o pênis
o bico do pênis no meio da mata
Matavam-se e se comiam
mas não os umbigos
Umbigo é a boca do feto
que descansa
incesto
atrás do umbigo da mãe
_____
No escuro
o olho do morto
lê
(finalmente)
algo novo
I
Tente um novo Estilo
Uma nova Escola
Um Movimento
Único e multidirecional
A cada reação
Uma noção contrária
Uma visão sarcástica
E solidária
Só
& com tudo
Simultâneo
Saber
Viver
Fundo
Profano e
Scudo
II
Não seja a tua mão de dor
Nem tua respiração com medo
Tuas ações sejam no ritmo fluente do jazz
Seja teu verso o teu testamento
Que escreve com mão livre e leve (e sem dor)
Calça os pés com o chão
E procura o centro da cadeira
De onde ergue tua espinha
Retilínea até os sentidos
Visão, narinas e ouvidos
Apoiados sobre tua língua-mãe
Súbito,
numa fria manhã:
Torvelinho
Novelinho de hortelã
_____
Sinestesia
O corpo da fala se escuta
Vendo a letra se absorve
O tato é a mente que escreve
O dedo é um verso que explode
O nada e o escuro se fundem
Palavras problemas resolvem
Disso tudo o que conta é a vida
Contam que a vida NÃO PODE
_____
O sol das três
Do alto do morro
vôo
e aterrisso sobre os biquínis lá na praia
Tosto o olhar rápido
na areia quente do sol das três
As três não se importam
fingem que dormem de bruços
até o sol quase se pôr
Até que a tardinha enfadonha
traga sob o céu em brasa
para passearem de mãozinhas
os maridos que deixaram em casa
Titulo: Um voyeur no deserto
Autor: Juli Manzi
Gênero: Poema
Data de publicação: 4 de junho de 2003
Resumo: Uma primeira seleção para estréia na Patada.
A narrativa poética de “O sol das três” ficou muito boa. Bela estréia.
Muito bons os poemas.”Calça os pés com o chãoE procura o centro da cadeiraDe onde ergue tua espinhaRetilínea até os sentidosVisão, narinas e ouvidosApoiados sobre tua língua-mãe”Isso foi show! E “O sol das três” também. Pega muito bem pela surpresa…parabéns.
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Texto maduro, de um verdadeiro poeta. Se é que existe “verdade” em poesia. Não importa, é o que parece. Além de grande músico, grande poeta.