versos de Curitiba

Poema por Alexandre Piccolo
28 de maio de 2003

Os poemas escolhidos abaixo pertencem ao livro "distraídos venceremos", do curitibano Paulo Leminski (1944-1989), artista e estudioso da palavra, tradutor e poeta irreverente, que veio "pelo caminho difícil,/a linha que nunca termina,/a linha bate na pedra,/a palavra quebra uma esquina,/mínima linha vazia,/a linha, uma vida inteira,/palavra, palavra minha". Sem dúvida, um importante marco para toda a poesia moderna brasileira nas últimas décadas.

SUJEITO INDIRETO

Quem dera eu achasse um jeito

de fazer tudo perfeito,

feito a coisa fosse o projeto

e tudo já nascesse satisfeito.

Quem dera eu visse o outro lado,

o lado de lá, lado meio,

onde o triângulo é quadrado

e o torto parece direito.

Quem dera um ângulo reto.

Já começo a ficar cheio

de não saber quando eu falto,

de ser, mim, indireto sujeito.

_______

A LUA NO CINEMA

A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava pra ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia num janela.

A lua ficou tão triste,

com aquela história de amor,

que até hoje a lua insiste:

- Amanheça, por favor!

_______

PAREÇA E DESAPAREÇA

Parece que foi ontem.

Tudo parecia alguma coisa.

O dia parecia noite.

E o vinho parecia rosas.

Até parece mentira,

tudo parecia alguma coisa.

O tempo parecia pouco,

e a gente se parecia muito.

A dor, sobretudo,

parecia prazer.

Parecer era tudo

que as coisas sabiam fazer.

O próximo, eu mesmo.

Tão fácil ser semelhante,

quando eu tinha um espelho

pra me servir de exemplo.

Mas vice versa e vide a vida.

Nada se parece com nada.

A fita não coincide

Com a tragédia encenada.

Parece que foi ontem.

O resto, as próprias coisas contem.

_______

MERDA E OURO

Merda é veneno.

No entanto, não há nada

que seja mais bonito

que uma bela cagada.

Cagam ricos, cagam padres,

cagam reis e cagam fadas.

Não há merda que se compare

à bosta da pessoa amada.

_______

POR UM LINDÉSIMO DE SEGUNDO

tudo em mim

anda a mil

tudo assim

tudo por um fio

tudo feito

tudo estivesse no cio

tudo pisando macio

tudo psiu

tudo em minha volta

anda às tontas

como se as coisas

fossem todas

afinal de contas

_______

RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso,

preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece,

e as estrelas lá no céu

lembram letras no papel,

quando o poema anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê?


Titulo: versos de Curitiba

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Poema

Data de publicação: 28 de maio de 2003

Resumo:

poemas: distraídos venceremos

2 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Alê, Leminski é um dos meus poetas prediletos. Aprendi a amar e até a traçar alguns hai-kais com ele. Por incrível q pareça eu o conheci pessoalmente, e tbem a Alice Rios (é este o nome, se não me engano) sua esposa (hoje, viúva) q tbem é uma excelente poeta. Parabéns pela escolha. um beijo, Tia Marilda

  2. Mário disse:

    Uma palavra: ótimos!

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