Reportagem por Paulo Henrique
15 de janeiro de 2005
A praia de Pipa, fica no município de Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte (à 85 km de Natal). Um povoado, segundo dados do local, com 1.600 eleitores. E que - também segundo estimativa local - recebe a visita de 400 mil turistas por ano, a maioria "gringos".
Esta convivência lado-a-lado entre o regional e global, torna Pipa um micro reflexo do macro. Tem de tudo lá: belezas descomunais, natureza com golfinhos vistos das falésias, danças locais como o Côco Zambê - divulgada pelo movimento "Mangue Beat", de Chico Science - e muitos habitantes que vieram de fora, de outras cidade e países, em busca de um lugar sossegado.
Entre estes habitantes, não há como não perceber a presença de Cíntia Junqueira. Mulher na casa dos 40 anos, estilão "Cásia Eller", esta gaúcha de Porto Alegre é dona do "Book Shop", um estabelecimento não definido, misto de sebo, biblioteca, centro de convivência e casa de cultura da Praia de Pipa, onde os turistas e moradores do local se reúnem ao som ambiente de Rolling Stones, incenso e milhares de livros.
Livros doados, que Cíntia não vende. Aluga para turistas (R$ 5 por semana). Empresta para os locais. Às vezes, até paga para alguém ler, dependendo da situação. Como ela vive de doações, inclusive de gringos, o local tem algumas boas raridades: Guimarães Rosa em Holandês; Graciliano Ramos, em Francês; Goethe, em Alemão; Neruda, original; obra completa de Alexandre Herculano. Tem livro até em Sânscrito. "Eu ganho raridades de netos. É assim: os avós amam livros, os filhos encaixotam e os netos doam. O caso do Guerra e Paz, de Tolstói, no original, por exemplo, eu ganhei de uma neta", conta.
Estas raridades estão em sintonia com a decoração ultra-alternativa e de muito bom gosto, com prateleiras de livros cobrem as paredes de todo o estabelecimento e expõem os mais de 2 mil exemplares. Tem até livro pendurado no teto: "mas estes são livros ruins, estão de castigo", brinca enquanto olha para um autor "best-seller" muito conhecido no mundo todo - e que lá fica pendurado. Junto com os livros, o ambiente é composto por fotos de bandas, capas de discos, quadros de diversos estilos - incluindo uma coleção de pinturas em preto e brancos de autores consagrados -, tapetes, sofás, mesas, cadeiras e candelabros que fazem do Book Shop um lugar aconchegante, e que também serve de moradia para sua dona.
A própria história de Cíntia, aliás, daria um bom livro para o Book Shop. Vinda de uma família gaúcha, com pai militar que a forçava ler bons livros durante a infância, ela resolveu sair para o mundo, aos 18 anos. Rodou a América Latina e parou no Equador, quando conheceu um homem chileno, com quem não vive mais, e teve uma filha, Pacha. "Que hoje mora em Natal, é igual a mim, uma mulher que se vira muito bem".
Naquela época, deixou a filha com a mãe no Sul e partiu para a Europa. Viveu na Espanha, trabalhou como artesã de âmbar, circulou o continente e se viciou em heroína. Batidão junk, como ela própria define. Em busca de novidades para aplacar a angústia, descobriu um basco que vivia em Pipa. Veio conhecer o local e se encantou. Voltou definitivamente para Pipa em 1994 e trouxe consigo uma singela cartela com 2 mil ácidos lisérgicos para vender. Chegou em agosto e foi presa em novembro. Tráfico internacional. "Alguma coisa tinha que acontecer na minha vida, naquela época eu estava muito perdida", conta.
Dois ano e meio depois, saiu da cadeia, cumpriu a pena em Natal. Mas foi lá dentro que Cintia descobriu que a insistência do pai para as leituras durante a infância tinha valido a pena. Encarcerada, ela virou uma agente cultural dentro da cadeia, uma líder social, justamente por saber ler, ler de fato. Assim, fazia as coisas funcionar por lá, desde a área de assistência social, até a parte burocrática. E, de quebra, se livrou do vício, pela abstinência.
Quando saiu da cadeia, entrou em um dilema que assalta muitos
ex-presidiários: o que eu fazer da vida? Como seu patrimônio se resumia a "10 livros e uma mala de roupa velha", alugou uma casa em Pipa, trabalhou como garçonete e em 98 começou seu negócio cultural. Com seu carisma, capacidade de liderança e comunicação, consquistou a confiança da população e dos líderes locais.
Hoje ela vive com o funcionamento do Book Shop. Com uma dinâmica comercial que quase não envolve dinheiro, ganha livros, empresta, aluga-os. Nunca vende. "Não preciso de dinheiro, de roupa. A casa onde é o Book Shop é emprestada, tenho amigos aqui, não compro nada. Preciso de pouca coisa para viver".
Neste raciocínio, Cíntia enxerga que as letras, que hoje a sustentam, podem ser a alternativa para ajudar aquela comunidade também. Apesar da beleza local, hoje Pipa enfrenta o turismo predatório, com forte expeculação imobiliária; construções civis inadequadas - que não raro destroem o ecossitema local; turismo sexual (e infantil); além da perda da identidade e tradições locais.
Assim como ela considera que a educação salvou sua vida, Cíntia acredita que é a educação que pode desenvolver as pessoas de Pipa, de forma coerente, para transformar a população local em agentes ativos no destino de Pipa.
E parte deste trabalho tem sido feito por ela, pois julga que seu Book Shop é vital para o local: "é aqui que as pessoas se reúnem, aprendem a ler, trocam idéias, fundam projetos. É aqui que as idéias saem, é um serviço para a comunidade". Um serviço que, assim como Pipa e sua comunidade, às vezes enfrenta algumas adversidades, mas sempre procura combater a voracidade dos turistas (e do dinheiro fácil) para preservar a cultura e costumes da região. "Minhas moedas são as letras", conclui.
Para quem quiser conhecer o Book Shop, basta ir para Pipa e perguntar pela Cíntia. Mas quem quiser entrar em contato com ela, mesmo à distância, pode recorrer as maravilhas da internet e mandar um e-mail para cintiabook@yahoo.com.br. Pois é, o Book Shop é realmente conectado ao mundo. Mas não perdeu a ternura.
Titulo: Moeda das letras
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Reportagem
Data de publicação: 15 de janeiro de 2005
Resumo: O peculiar e eficaz Book Shop da Praia de Pipa/RN
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Muito bom. FELIZ ANO NOVO!