Os visigodos

Reportagem por Thiago Mom
14 de fevereiro de 2006

Cansado de acompanhar São Paulo por trás do insulfilme, vou até o editor. Um motorista sem carteira bebeu vinho e cerveja e atropelou 60 pessoas na rua de um trio elétrico em Belém. Um terço delas já foi liberada, dois terços ainda estão no hospital. Peço uma passagem de avião, dinheiro para uma semana e quatro páginas em branco. A pretensão é ir além de algumas aspas e estatísticas; é, a partir de muita pesquisa e conversas, recorrer a tintas literárias como diálogos. narrativa cena a cena, pontos de vista diversos e detalhes que remetam aos trios elétricos do leitor.

Se o ano fosse 1959, a revista “New Yorker” e eu Truman Capote, o editor talvez não tivesse me ignorado. Foi naquele ano e por aquela revista que Capote (1924-1984) viajou até Holcomb, Kansas, para esmiuçar o assassinato de uma família e o perfil dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock. A reportagem se estendeu até 1965, quando Smith e Hickock, condenados à pena de morte, foram executados. O escritor tinha então todo o material de “A sangue frio”. Acrescentou a ele as tais tintas literárias e escreveu o que muitos consideram o marco zero do novo jornalismo, livro que o próprio autor batizou de “romance sem ficção” e “obra-prima”.

A apuração da reportagem é o tema de “Capote”, filme que estreou nos cinemas americanos em outubro e entra em cartaz agora no Brasil. O longa-metragem é apenas um naco de novo jornalismo no mercado em 2006.

Ainda no universo capotiano acontecem as filmagens de “Have you heard?” ? com o mesmo período biográfico mas foco na afeição do jornalista, homossexual, por Hickock ? e o relançamento dos livros “Música para Camaleões”, último do autor, e “Bonequinha de Luxo”, coletânea de textos de ficção escritos nos anos 50 cuja adaptação para o cinema, de 1961, se tornou clássica.

A revista que publicou “A sangue frio” antes que a reportagem virasse livro também tem novidade. Um pacote com oito DVDs contendo as 4.109 edições da New Yorker pode ser encomendado pelo site www.newyorker.com desde dezembro por US$ 100. Criada em 1925, a publicação foi responsável pelo surgimento do jornalismo literário [ver definições e distinções novo jornalismo/jornalismo literário ao final] com a reportagem de John Hersey sobre seis vítimas da bomba de Hiroshima ? publicado em 1946, o texto fez esgotar rapidamente 300 mil exemplares. Anos depois, o aficionado por anônimos Joseph Mitchell mergulhou na vida de um mendigo nova-iorquino que teria cursado Harvard.

Hiroshima” e “O segredo de Joe Gould” descortinaram a série Jornalismo Literário, da Companhia das Letras. Na esteira desses vieram outros sete títulos, e a vendagem, para o gênero, surpreende. Já a Editora Objetiva tem apostado na coleção Jornalismo de Guerra, sendo “Despachos do Front”, de Michael Herr, o mais recente nas prateleiras. Outros lançamentos são as séries Fato e ficção, da Agir (que abriu com “Antônio Callado: repórter”), e Jornalismo Investigativo, da Record (“10 reportagens que abalaram a ditadura”).

NEW NEW JOURNALISM

Esse apego a grandes relatos não tem atravessado o insulfilme. Mesmo no caso das revistas, os textos estão menos revoltos e os repórteres, mais acostumados ao ar-condicionado. Uma situação, contudo, que pode ter novos contornos. “Com a informação ganhando força com a TV e a internet, é possível que a imprensa redescubra um pouco o jornalismo literário”, especula Daniel Piza, jornalista de “O Estado de S.Paulo” que atualmente organizou “Dentro da baleia”, compilação de ensaios, resenhas e ? sim ? reportagens de George Orwell.

Para Piza, a escassez de grandes reportagens na imprensa se deve mais a uma questão de contexto que de limitações financeiras e editoriais. “É claro que demanda 20 páginas, um mês, grana. Mas os jornais mantêm cadernos dominicais caros, o que mostra que é possível investir”, argumenta. Organizador da série da Companhia das Letras, o também jornalista Matinas Suzuki Jr. pensa que jornais nunca foram o lugar ideal para grandes reportagens, mas revistas “são e têm dinheiro para isso, sim.”

No caso brasileiro, independentemente da publicação faltaria uma cultura apropriada. “As revistas de moda francesas e americanas tinham, têm bastante jornalismo literário, mas isso nunca pegou nas revistas de moda daqui”, exemplifica Piza, lembrando: “O Fernando Morais fez grandes coisas na “Playboy”. Mas hoje os materiais mais alentados vão parar em livro, como acontece com as reportagens do Caco Barcellos.”

Na década de 60, o Brasil também viu marolas de novo jornalismo em revistas como “Cruzeiro”, “Senhor” e “Realidade”. A última costuma ser apontada como a de melhores reportagens das três, mas, ainda assim, não é uma produção tão cultuada quanto a norte-americana daquele tempo.

O exemplo nacional mais interessante de jornalismo ligado à literatura seria, defende Matinas, a crônica, gênero tipicamente daqui. Ponto de vista semelhante tem o professor de jornalismo literário da Universidade de La Coruña, José Francisco Sanchez: “Nelson Rodrigues, enquanto cronista, é um exemplo fantástico de novo jornalismo. Só teve a desgraça de nascer brasileiro”, brinca.

Assim como a crônica permanece nos cadernos de cultura brasileiros, o novo jornalismo resiste nos Estados Unidos em reportagens de revistas como (as agora bastante amansadas) “Rolling Stone” e “Esquire”, congressos sobre o assunto e páginas na internet. O site newnewjournalism.com traz links, biografia e bibliografia de vinte nomes em atividade ? entre eles Gay Talese, sumidade da leva dos anos 60 ? que mantêm apurações e textos mais arejados. Na apresentação do site os integrantes citam o manifesto “O novo jornalismo” que Tom Wolfe publicou em 1965 e consta no livro “Radical chique & novo jornalismo”, relançado aqui em 2005.

DIÁRIO DE INFÂNCIA

Os leitores e os editores esperavam, praticamente choravam pelos grandes romances da vida hippie e da vida no campus, dos movimentos radicais ou da Guerra no Vietnã, da maconha ou do sexo, da militância negra ou dos grupos de encontro, ou do torvelinho todo ao mesmo tempo. Eles esperaram, e tudo que conseguiram foi o Príncipe da Alienação… navegando para alguma Ilha Solitária com seu barco do Tarô, de costas para tudo com sua capa Intemporal recendendo a naftalina.

É o que escreve Tom Wolfe no manifesto.

Criticando a desconexão da literatura da época à realidade, o escritor achincalha autores como o Nobel de 1976 Saul Bellow ? para que os leitores evoquem algo insuportável, pede que imaginem “ler o “Planeta do Sr. Sammler” de uma sentada, ou apenas ler esse livro, ou ficar trancado dentro de uma cabine de trem pela Flórida (…) sem água, com o aquecedor ficando vermelho de tão loucamente superaquecido e George McGovern sentado ao seu lado, falando de sua filosofia de governo”. E tenta um napalm: “A literatura mais importante escrita hoje na América é a de não-ficção, com a forma que foi, embora sem elegância, rotulada de novo jornalismo.”

Em “Radical Chique…” o leitor pode ler reportagens tão petulantes quanto as afirmações acima. Além da informalidade inusitada, os textos continham onomatopéias, pontuação exótica e mudança constante de pontos de vista. Um crítico avaliou que aquilo “parecia uma coisa saída do diário de infância da rainha Vitória.”. Wolfe respondeu: “Os diários da rainha são, de fato, bastante legíveis, encantadores até.”

O autor do diário ganhou notoriedade com ficções como “Os eleitos” e “Fogueira das vaidades”, de 1979 e 1987, recorrendo, mais no primeiro mas também no segundo, ao seu repertório jornalístico. Hoje, ainda que os campi norte-americanos não sejam os mesmos da contracultura, Wolfe os contemplou em “Eu sou Charlotte Simmons”, romance em que revela capacidade de zoom impressionante na vida universitária - zoom de quem, mais uma vez, esteve jornalisticamente no lugar e com as pessoas que pretendia descrever.

OS VISIGODOS

Naquele 1965 em Tom Wolfe se manifestava e Truman Capote maturava “A Sangue Frio”, Gay Talese tentava entrevistar um resfriado Frank Sinatra. Talese já tinha no currículo “Joe Louis: o Rei na meia-idade”, reportagem consagrada de 1962 sobre o grande lutador de boxe envelhecendo, entristecendo e perdendo cabelos.

Agora, no entanto, tinha dificuldades. Seu novo perfilado estava de mau humor e cancelou a entrevista. O jeito foi acompanhá-lo à distância e conversar com pessoas do seu convívio. Dessa limitação nasceu “Sinatra has a cold”, perfil clássico do jornalismo: “Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível ? só que pior. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento.”

No ano seguinte, Hunter S. Thompson, porra-louca confesso, publicava “Hell's Angels”. A reportagem narrava com gírias, humor e palavrões seu convívio com o grupo de motoqueiros chapados e arredios. “Thompson eleva o insulto a uma forma de arte”, consentiu um crítico do “New York Times”. Comentário menos erudito fez um amigo ao ler um manuscrito seu: “Cacete! Isso está completamente… gonzo!”. Nascia aí um subgênero de novo jornalismo: jornalismo gonzo.

Outra grande reportagem de Thompson, “Medo e delírio em Las Vegas”, publicada na “Rolling Stone” em 1971, virou um longa-metragem com Johnny Depp em 1998. Recentemente, fevereiro de 2005, depois de anos vivendo recluso, o jornalista se matou com um tiro na boca. Estava com 67 anos.

Em 1974, o romancista-convertido-sazonalmente-em-repórter Norman Mailer cobriu uma das maiores lutas do século: George Foreman e Muhammad Ali, no Zaire. Mais que um simples combate, estavam no ringue questões políticas ? o establishment branco de George Foreman, vestido com as cores norte-americanas, e a autonomia negra na figura de Ali, que acabara de ter o cinturão de pesos pesados confiscado por recusa ao alistamento para a guerra do Vietnã.

Mailer já havia ganhado um Pulitzer seis anos antes e ganharia outro seis anos depois. Contracorrente autêntico, colaborou recentemente com vários depoimentos para o documentário “Por dentro da Garganta Profunda”, que conta a saga do filme pornô mais rentável da história e ironiza a barricada antimoralista nos Estados Unidos dos anos 70 contra a sua exibição.

Aos cinco citados se juntavam Lester Bag, George Plimpton, E.B White, Lillian Ross e uma infinidade de outros. Jornais e revistas abrigavam a todos ? desde que afastados da redação. Despontava o novo jornalismo e sua cruzada antibocejos. A velha guarda ficou intimidada. Já era hora de violar aquilo que Orwell chamava de “Convenção de Genebra da mente”, escreveu Tom Wolfe. Os visigodos, como ele gostava de repetir, estavam chegando.

*

JORNALISMO LITERÁRIO, NOVO JORNALISMO

Todo novo jornalismo é jornalismo literário, mas nem todo jornalismo literário é novo jornalismo. Uma fórmula típica que ajuda a entender os termos.

O jornalismo literário, anterior, recorre a técnicas de romances, contos, crônicas. As versões sobre seu início são muitas. A mais comum é a que cita como primeira reportagem “Hiroshima” (1946), de John Hersey. Mas não é raro encontrar, nas listas do gênero, livros como “Dez dias que abalaram o mundo” (1919), de John Reed, sobre a revolução russa, e “Os sertões” (1902), de Euclides da Cunha, sobre a Guerra de Canudos - amobos calcados em trabalhos de campo.

Há também quem diga que o jornalismo literário é todo o jornalismo pré-industrial. Já nos séculos 18 e 19, nas Inglaterras de Daniel Defoe e Charles Dickens, há rudimentos de reportagem ligada à literatura. E outros grandes romancistas, como Balzac e Dostoievski, se apegariam à descrição de costumes. Todos esses escritores influenciaram os ícones do novo jornalismo.

O termo surge na década de 60, quando o jornalismo literário vive intensidade e experimentalismo ? “além de marketing, mais tarde”, estilinga o jornalista espanhol José Francisco Sanchez ? inéditos. O novo jornalismo não foi um movimento propriamente dito, já que aconteceu espontaneamente. Revistas como “Harper?s”, “New Yorker” e “Esquire" e jornais como “Herald Tribune” se multiplicavam; nomes como Tom Wolfe, Truman Capote e Gay Talese também.

Mas houve, claro, polêmica. Não apenas pelas técnicas de texto incomuns, mas porque, depois de várias entrevistas e semanas de pesquisa, os repórteres se davam o direito de entrar na cabeça dos perfilados e narrar seus pensamentos. Isso fez com que fossem resumidos, por parte da crítica, como “impressionistas”.

Justificou Talese: “Tento absorver todo o cenário, o diálogo, a atmosfera, a tensão, o drama, o conflito e então escrevo tudo do ponto de vista de quem estou focalizando, revelando inclusive, sempre que possível, o que os indivíduos pensam no momento que descrevo.”

E constatou Wolfe: “Minha reação instintiva, defensiva [ao ler uma matéria de novo jornalismo], foi achar que o sujeito tinha viajado, como se diz… improvisado, inventado o diálogo… nossa, ele talvez tenha inventado cenas inteiras, o nojento inescrupuloso… o engraçado é que essa foi precisamente a reação que incontáveis jornalistas e intelectuais teriam ao longo dos nove anos seguintes.”


Titulo: Os visigodos

Autor: Thiago Mom

Gênero: Reportagem

Data de publicação: 14 de fevereiro de 2006

Resumo:

Novo jornalismo tem lançamentos e relançamentos diversos em 2006

2 Comentários

  1. débora disse:

    é, googlei você, numa investigação meramante profissional. bom o texto. pelo visto, temos mais em comum que o gosto pela dance music.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Thiago, parabéns pelo texto, uma boa aula sobre assunto. Confesso que acho o termo, “jornalismo literário”, realmente capicioso, quase uma antístrofe - ao menos segundo o conceito aristotélico de arte. O que, pensando bem, parece natural, uma vez que a fronteira entre os dois ofícios se atenua ao tratar certos temas. O tema das biografias costuma sucitar boas dúvidas à fogueira em questão e um bom exemplo é “A vida de Lima Barreto”, texto virtuoso, repleto de fatos e entretecido com a obra do biografado, publicado em 1952 por Francisco de Assis Barbosa e reeditado em 2002 novamente sob o selo da José Olympio. Vale notar que o autor, acadêmico cuja “carreira literária” se inicia nos meandros do direito e do jornalismo, contentava-se em ser um repórter que fazia do texto diário nos jornais seu ganha-pão, sem se propor às grandes análises ou se deixar levar pela descrição arrebatada da máquina do mundo, e que fez de seu texto simples, direto e sem afetação um modelo para a matéria “biografia literária”. Fechado o parêntese, fica mais essa sugestão de leitura, entre as boas dicas oferecidas em seu texto. Um abraço.

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Thiago Mom?

Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.