Reportagem por Claudia Lins
10 de abril de 2004

Sob o sol escaldante das tardes de abril em Alagoas, um endereço ilustre luta contra o próprio tempo para continuar existindo. Depredado, quase em ruínas, entregue ao mais completo abandono e esquecido num recanto da rua do Imperador, ainda insiste em permanecer de pé. De sua varanda de pedras desgastadas, uma faixa instalada por admiradores rende homenagens a seu mais importante morador: Jorge de Lima, “o acendedor de estrelas”.
Quem passa apressado pelo centro de Maceió, talvez não perceba, tampouco saiba reconhecer o valor histórico do casarão em ruínas. Apenas um antigo painel de azulejos multicoloridos, situado na pracinha em frente ao sobrado fantasma, indica que a casa, prestes a desabar, pertenceu ao poeta alagoano.
“Lá vem o acendedor de Lampiões”, diz o mural.
Construído no século passado, o casarão da praça Sinimbu serviu de residência para o poeta Jorge de Lima durante a década de 30, período que antecedeu sua mudança para o Rio de Janeiro. “Outros tempos”, diria o poeta se pudesse rever a velha casa. Época em que bonde era sinônimo de progresso e o Riacho Salgadinho, hoje poluído, passava pelo oitão da casa, ainda distante de se transformar na incômoda mancha que atualmente paira sobre o belo cartão postal da praia da Avenida.
Sem telhados ou janelas, o sobrevivente imóvel serve hoje de abrigo para mendigos e sem teto. Anônimos que, como a maioria dos passantes da praça Sinimbu desconhecem a rica história da edificação com colunas de espira e detalhes em azulejos português. Herança de uma época em que morar naquela região do centro era ser nobre e chique.
A cidade passava por um período de investimentos urbanos e os sobrados de dois ou três pavimentos surgiam com fachadas rebuscadas, jarros, estatuetas, janelas rasgadas e balaustradas de ferro ou pedra. Edificações neoclássicas, passando por emolduramentos neobarrocos.
E o que diriam os excluídos que hoje habitam a casa do médico e poeta Jorge de Lima, se soubessem que o sobrado sujo e em ruínas já foi cenário do filme “Casamento é negócio?”, rodado em 1933 pela Gáudio Film e dirigido pelo fotógrafo ítalo-alagoano Guilherme Rogato?
Na fotografia antiga, a casa imponente, onde morava o personagem de Morena Mendonça, compõe a cena em que Moacyr Miranda, o mocinho do drama do petróleo vinha correndo avisar a amada que o ouro negro jorrava em solo alagoano, mas a encontrava nos braços do vilão.
Parado em frente ao casarão está o Cadilac do galã Luís Girard, carro que também pertenceu ao poeta Jorge de Lima, emprestado para compor o filme.
O cenário que avistamos hoje é desolador. Manchas de umidade, proliferação de microorganismos e vegetais, caminhos de insetos, desgaste das colunas e paredes, perda de reboco e muito lixo. A ausência de um sistema de escoamento pluvial, a falta de janelas, esquadrias, pisos e forros nos dois pavimentos indicam que o prédio não tem muito mais tempo de vida.
Tantas histórias pairando sobre as paredes da velha casa, nas últimas décadas entregue aos mais diversos inquilinos. Moradores de famílias importantes, comerciantes, até tornar-se propriedade de um empresário do ramo de cursos pré-vestibulares, em 1997, e entrar para a lista de imóveis prestes a serem tombados pela Prefeitura de Maceió. Tombamento que, aliás, nunca saiu do campo das possibilidades, nem mesmo chegando a ser oficializado.

Em maio de 2002, a reportagem “Lutando contra o tempo”, que escrevi para o Jornal Tribuna de Alagoas, denunciando o descaso com o patrimônio público, lembrava a trajetória do processo pedindo o tombamento da casa de Jorge de Lima, ingressado pela conselheira estadual Tânia Maya Pedrosa, considerada a “dama de ferro” da cultura alagoana.
O documento, na época já tramitando há dois anos, apesar de ingressado em caráter de urgência, cumpriu uma verdadeira peregrinação burocrática, resistindo inclusive, as constantes oscilações administrativas. No diagnóstico físico e histórico do prédio, concluído pela Prefeitura de Maceió, em 2002 – uma das etapas para o tombamento estadual -, a arquiteta Gardênia Caetano já advertia: “Não é possível prever quanto tempo a casa pode agüentar”.
O casarão abandonado do homem que extrapolou fronteiras não é o único monumento relegado ao descaso em Alagoas, mas reflete a omissão de organismos culturais do Estado com um dos maiores poetas brasileiros. Foi o escritor alagoano e imortal da ABL, Lêdo Ivo, que lembrou certa vez ao prefaciar o livro “Arte Alagoas”, em texto comemorativo do centenário de Jorge de Lima, uma frase oportuna do poeta, dita antes de sua morte.
“Estou preparado para a eternidade”.
A transcrição lacônica, feita pelo acadêmico, refere-se ao tempo que está aquém e além, à própria duração infinita.
Considerando que Maceió, ao contrário de Marechal Deodoro e Penedo, possui um restrito patrimônio cultural tombado, permitir que o sobrado de Jorge de Lima ceda à ação do tempo, é o mesmo que ignorar a própria história.
“Nossa cultura está morrendo, não temos referencial nenhum de cultura popular, só faltava agora deixarem demolir a casa de Jorge de Lima”, revolta-se Tânia Maya Pedrosa.
“Já demoliram a casa de Ledo Ivo para fazer um estacionamento, a de Graciliano Ramos, na Ponta Verde, onde ele escreveu Angústia, hoje é um prédio e ninguém sabe de sua importância. Quem nos visita deseja saber onde morou Aurélio Buarque de Holanda. Esse patrimônio precisa ser preservado, para que todos conheçam e repitam: aqui morou o poeta Jorge de Lima”, conclui emocionada.
O desabafo da artista plástica já dura dois anos e mesmo assim, o sobrado do poeta não conquistou a eternidade, nem ao menos no papel.
Titulo: Sobrevivendo ao abandono
Autor: Claudia Lins
Gênero: Reportagem
Data de publicação: 10 de abril de 2004
Resumo: Prestes a desabar, casarão do poeta Jorge de Lima padece ao descaso.
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Ótima reportagem! Aliás, uma bela história, prefiro analisar este texto romântico desta forma.