Reportagem por Paulo Henrique
30 de março de 2004
No Brasil, o setor de construção civil - como todos os demais - peca pela falta de planejamento. Por exemplo: o desperdício médio de cimento nas obras brasileiras é de 150% acima do utilizado (cimento que poderia ser aproveitado em outras obras, como na construção de casas populares. Mas não é assim). Falta orientação, planejamento logístico, cuidado e cumprimento de prazos. A Unicamp - nosso caso analisado - mesmo sendo símbolo legítimo de excelência, não foge à risca. E ainda carrega um agravante: gasta o dinheiro público.
Para o ano 2003, a Unicamp planejou um gasto em torno de R$ 1.3 milhão destinado para a ESTEC (Escritório Técnico de Construções), órgão responsável pelas construções e obras da universidade. Se o orçamento real ficou acima do valor alocado, não sabemos. Mas, dando uma espiada na obra do novo prédio do Instituto de Geociências (IG), dá para arriscar um palpite - e o leitor poderá chegar a sua própria conclusão ao ler esta reportagem.
Qualquer pessoa que for no canteiro de obra do IG, pode presenciar um pequeno caos: não há nenhum planejamento em nenhuma esfera da obra citada. A começar pela elaboração do lay-out da obra, que não tem nenhuma ordem, separando os materiais de suas respectivas frentes de trabalho. Com isto, o transporte dos materais de construção (cimento, aço, areia, blocos, etc) fica comprometido, bem como a produtividade das equipes, o que gera desperdício de material e mão de obra.
Sem contar o modo como estes materias são estocados: a areia e o cimento não são adequadamente colocados em baias para a conservação do material; os aglomerantes (material que melhora a resistência do cimento) são guardados em locais úmidos, provocando a perda do produto; a própria estocagem é feita sem planejamento, fazendo com que os materiais mais recentes sejam usados antes mesmo dos materias mais antigos (que têm prazo de validade), pela simples falta de planejamento na hora de estocar novos materiais.
Toda esta falta de cuidado, é claro, resulta em sobra (ou falta) de produtos; empedramento de sacos de cimentos; enferrujamento de barras de ferro; entre outros desbarates que são vistos a olho nu. Até a areia reservada para a construção tem sua qualidade comprometida por causa das plantas que ali nascem, por ficar exposta ao tempo e pela demora do cumprimento dos prazos.
Licitações
A demora de cumprimento dos prazos, aliás, não pode ser atribuída à má fama que o trabalho dos "peões" carrega. O problema desta vez é administrativo. Com um processo de licitação baseado no preço mais baixo, pequenas (e despreparadas) construtoras ganham os contratos e, geralmente, vão à falência no meio do projeto, fato que estaciona a obra para a realização de uma nova licitação.
E, tudo indica, este é um ciclo vicioso. Segundo um dos pedreiros da obra (que não terá seu nome publicado, para proteção da fonte), "é fria entrar na Unicamp, pois a construtora sempre quebra". E ele fez esta afirmação por experiência própria, pois a citada obra do IG atualmente utiliza os serviços de uma terceira construtora, desde que o projeto começou. As duas anteriores faliram.
Mas, é claro, estes detalhes não podem ser revelados na íntegra para o público. As informações que originaram esta matéria foram tiradas de um trabalho acadêmico, realizado pelos alunos do 5o. ano do curso de Engenharia Civil da própria universidade.
Para conseguir outros dados sobre o projeto (de natureza técnica e financeira), o engenheiro responsável pela obra exige um processo de aprovação assaz burocrático para tornar inviável a execução desta pesquisa.
Mas este impedimento só piora a situação: direto no canteiros da obra, os futuros engenheiros constataram a falta de supervisão administrativa e o desperdício sistemático de dinheiro público.
É claro que, por enquanto, pouca coisa se pode fazer diante deste processo à la kafka. Mas, além de lamentar a perda do nosso dinheiro, devemos torcer para que estes mesmo alunos - quando ingressarem no mercado de construção civil - consigam otimizar um pouco mais os processos e, com isto, ajudar resolver parte dos problemas sociais do país, principalmente na área de habitação.
Titulo: Um dia a casa cai
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Reportagem
Data de publicação: 30 de março de 2004
Resumo: Análise de um caso sobre o desperdício (de tempo e dinheiro) na construção civil brasileira.
Bad Behavior has blocked 5 access attempts in the last 7 days.
Maravilha de reportagem! APATADA se orgulha de apresentá-la, consistente e palatável, e de contar com repórteres tão engajados e tão profissionais. Exemplo de competência, ao público e ao privado. Parabéns aos dois.