Resenha por Alexandre Piccolo
9 de março de 2003

Desta vez não foram em dias seguidos, mas nas seqüência do Carnaval: um antes, outro depois. Ambos bons filmes, que merecem algumas palavras.
The hours nos absorve, nos seca. Ouvi que há uma polêmica entre críticos, uns adoram, outros detestam o filme. Se assim, creio que estou no primeiro grupo, porém sem a idolatria, costumeira do típico "aadoooreeeeeeeii!!". O trabalho das três atrizes é excepcional. Nicole Kidman está fisicamente irreconhecível como Virgínia Woolf - a célebre escritora inglesa - e encarna com perfeição a mulher talentosa, complexa, deslocada de seu tempo e espaço, problemática, suicida, capaz de marcar a Literatura com suas idéias e seus escritos. O papel de Julianne Moore tem o gosto de um bolo ruim, algo no mínimo paradoxal. Uma mulher "simples", mãe de uma típica família norte-americana em Los Angeles no pós II Guerra, Laura Brown, cuja tensão se interioriza controlada mas violentamente em seus hábitos comportados, sempre em choque com a leitura insaciável de Mrs. Dalloway (romance, de Virgínia Woolf, marco na ficção moderna, publicado em 1925), mulher que nos faz sofrer com um riso preso, sem graça. Já na NY de hoje, Meryl Streep revela a mulher moderna, Clarissa Vaughn, a editora que passa por cima da hipocrisia do dia-a-dia para tentar esquecer os velhos e bons momentos de uma vida já passada. Ou talvez fingir a beleza do cotidiano metódico, planejado, devoto ao pequeno universo de sua realidade - na qual está o poeta aidético Richard Brown (Ed Harris, que está chocante no papel), fulminante. No mínimo, mesmo para os que não gostaram do filme, é inegável as performances brilhantes de atores e atrizes em papéis sôfregos, que tropeçam em questões desditosas que nos incomodam a todos por horas e horas a fio. Quem sabe, o que melhor fazemos é esquecê-las, afogá-las, enxotá-las porta a fora… (Ah, o roteiro do filme é uma adaptação do livro homônimo, premiado com o Pulitzer, de Michael Cunningham).
Chicago só tem um pecado: estigmatizar uma única visão do jazz. Para o rookie no assunto, o filme deixa um estereótipo perverso, um ângulo fechado, uma má impressão de uma arte sem fronteiras na música do século XX. A faceta abordada pelo filme existe, mas não é a única. No entanto, como o musical não se pretente documento histórico do assunto (talvez uma "ficção musico-fotográfica", sobre uma ótica peculiar), este "deslize" fica exonerado por todas as demais qualidades. E são muitas, do cenário e figurino ao roteiro, câmeras, som (sim, a música é bacaníssima) e atores. O espetáculo é formidável, reluzente. Cenas memoráveis e inesquecíveis, no conjunto desta bela obra, se desenrolam numa batida contagiante, empolgante. A vida como cena de um show, o enforcamento que termina em sorridentes aplausos, a metáfora do mundo como um circo, os desmaios ensaiados no tribunal, os jornais com manchetes diferentes já prontos, em suma, todo o rítmo em sintonia com a expectativa, com suavidade e empolgação. Os atores cantam e dançam como não os imaginávamos. Richard Gere até sapateia, no papel do versátil advogado Billy Flynn. Catherine Zeta-Jones, como sempre uma deusa, faz - com muita voz, pernas e peitos - uma morena tão nervosa e forte, Velma Kelly, que quase ofusca a loira bobinha Roxie Hart, vivida por Renée Zellweger, arquétipo da mulher dissimulada e pronta para cativar o brilho dos flashes. Estão todos muito bem, todos os coadjuvantes, um elenco que se compara aos integrantes de uma boa big band, sincronizados e em perfeita harmonia com filme. Enfim, uma grande apresentação que relembra bons e velhos musicais, com novos ares, ao som de um bom e velho estilo de jazz…

Duas boas sugestões para aguardar a disputada entrega das tão cobiçadas estatuetas.
Titulo: 2 filmes
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Resenha
Data de publicação: 9 de março de 2003
Resumo: Dois candidatos à estatueta, em cartaz.
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