Resenha por Alexandre Piccolo
15 de fevereiro de 2003

Há um bom tempo não fazia isso: 3 dias seguidos, 3 filmes no cinema. O "descanso excêntrico" destes dias me lembrou os tempos de adolescente completamente de papo pro ar, sem nada pra fazer ou com que se preocupar, gastando um precioso tempo em contato com as novidades da sétima arte. Assisti Gangs of New York na quinta, Deus é Brasileiro na sexta e Femme Fatale no sábado - uma seqüência tão incomum e atordoante que mereceu algumas observações a posteriori.
Gangues de NY deixou algo de incômodo para mim. Mas comecemos fazendo justiça ao filme. Daniel Day-Lewis, perfeito. Di Caprio e Cameron Diaz formam a dupla que traz o amor, o perigo e a redenção à tela, casal que, no mínimo, instiga. Cenário colossal bem como figurino e maquiagem grandiosos constroem um clima admirável. Em suma, a ambientação do filme se instaura imponente mas naturalmente, pois tudo parece arranjar-se com perfeição. Mas o roteiro… Bem, já vi melhores conduções da trama e da história por Scorsese. Talvez aí esteja o que chamo de incômodo. Recordo-me da extensa e bem sucedida filmografia do diretor (Taxi Driver, Raging Bull, GoodFellas, Cape Fear, Cassino, etc.) e não consegui encaixar este novo "épico" nesta lista, variada, mas "despretensiosa". Explico-me. Pela primeira vez vi um filme de Scorsese em que a grandiosidade e imponência da obra superam as relações que sustentam-na, sobrepujam o roteiro que conduz a narrativa. Sem dúvida, há no filme um precioso retrato dos primórdios de violência e criminalidade em Nova Iorque. Entretanto, este retrato parece ser menor do que o ímpeto por um grande épico histórico da cidade. Em seus clássicos não há combinações clichês de sons e imagens com pretensões eternas e as histórias nos chegam entrelaçadas, atribuladas, quase imperceptível, e, enfim, terminamos por não esquecê-las - características dúbias neste filme. Ainda assim, um Scorsese, vigoroso, forte.

Deus é Brasileiro é um filme leve, engraçado. O enredo construído por Cacá Diegues e João Ubaldo Ribeiro é simples o suficiente para ser preenchido com situações cômicas, temperadas com sabor picante e pitadas contraditórias da boa cultura de nosso país, em especial do norte e nordeste. O conto (O santo que não acreditava em Deus, escrito por João Ubaldo em 1981), cuja essência inspira o filme, guarda mais embriaguês e valor artístico-literário - um tesouro de nossa Literatura ainda viva. O filme nos traz um sorriso, nos reserva alguns risos e deixa um agradável aroma feliz e bem brasileiro, em que tudo termina bem, mesmo que "mais ou menos". Não há profundidade filosófica na abordagem do tema ou compromisso histórico-social no retrato do Brasil, como querem ver alguns críticos sedentos por "maionese". Há uma leveza salpicada com comicidade. E, apesar das dissonâncias nas inúmeras concepções de um "deus brasileiro" (na pele do versátil e rabugento Antônio Fagundes), há também acertos (e certeiros) - para espectadores de qualquer religião (ateus inclusive). Como diz o deus brasileiro (na vertente literária), "eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança", tudo com o bom tempero do Brasil, que quando passado para a tela parece ficar mais sóbrio, suave e leve. Ah, vale conferir a projeção digital do filme, qualidade incomparável.
"Nothing is more desireable or more deadly than a woman with a secret" - rodapé no cartaz de Femme Fatale, por Brian De Palma - é a simples linha mestra na condução de mais um thriller surpreendente do diretor. Fina arte que explora a vingança e a reinvenção, tensiona a ambigüidade dos valores morais num jogo de corrupção sem fim, trazendo de volta um gênero em que Brian De Palma é incomparável e inconfundível. Ângulos inusuais, dois planos simultâneos dividindo a tela, a preciosa metalinguagem cinematográfica, cores e lentes arranjados com uma requintada e eclética trilha sonora - além de um roteiro ousado e "inovador" - compõem a moderna arte do diretor.

De Palma, como Scorsese, também reserva uma filmografia invejável (The Untouchable, Scarface, Carlito's Way, Mission: Impossible, dentre outros) e acaba de colocar na estante de sucessos mais uma obra prima, um filme noir contemporâneo, de uma narrativa cativante e licenciosa. A sexy, misteriosa e cruel Rebecca Romijn-Stamos - tentadora loira arquétipo de filmes das décadas de 40 e 50 - faz qualquer paparazzo Antonio Banderas perder a cabeça, colocando-o num jogo desregrado e sedutor. Surge mais que uma simples cilada: uma perigosa, cativante e imprevisível trama. "Meu objetivo como escritor é construir a intriga do roteiro e, como diretor, filmar a história de tal maneira que fique impossível, para o espectador, antecipar o que acontecerá"*, revela De Palma. Certamente, objetivo primorosamente bem alcançado em Femme Fatale.
Sem maiores delongas, 3 boas sugestões para 3 dias quaisquer, em que se queira passar bem o tempo, em contato com a boa, nova e velha sétima arte.
Titulo: 3 dias, 3 filmes
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Resenha
Data de publicação: 15 de fevereiro de 2003
Resumo: Algumas palavras sobre 3 filmes (e um pouco de cinema) em cartaz neste começo de 2003.
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