A Al-Qaeda e a modernidade

Resenha por Márcio Sampa
30 de julho de 2004

5_sampa_t4iag9co
O professor da London School
of Economics, John Gray.

Instigante, polêmico, controverso. Estes são alguns dos adjetivos que bem podem definir a mais recente obra do articulista do jornal britânico The Guardian e professor universitário, John Gray.

Conhecido no Brasil pelo seu trabalho anterior: "Falso Amanhecer ? Os Equívocos do Capitalismo Global", onde traçava, já em 1999, um quadro sombrio do neoliberalismo econômico associado à globalização, Gray chega novamente às livrarias com outro título igualmente provocante. "Al-Qaeda e o que significa ser moderno". Lançado pela editora Record, é uma metralhadora intelectual que atira para todos os lados. Longe de ser um trabalho panfletário, no melhor estilo Michael Moore, ou uma denúncia contra as elucubrações palacianas, a la Noam Chomsky, “Al-Qaeda” é um trabalho que fica no meio termo entre o acadêmico e o jornalístico. Talvez um reflexo das atividades profissionais de seu autor.

Gray constrói um raciocínio em alguns momentos intrincado e elíptico, o que pode confundir o leitor. Antes de mais nada, porém, a leitura de seu trabalho exige que as paixões sejam deixadas de lado.

Contrapondo-se ao pensamento de Samuel Huntington e à sua idéia de choque das civilizações, Gray parte da premissa de que as ações da Al-Qaeda são fruto de uma psicologia gestada no próprio ocidente: a idéia do bem comum e de um fim único, contra o princípio da diversidade.

Gray argumenta em sua obra que antes do advento do cristinismo medieval as noções de tempo, história e sociedade atinham-se muito mais a uma percepção dos movimentos cíclicos, e portanto sujeitos a alternâncias, do que à idéia de um fim em que todos ganham o paraíso como prêmio ou a danação eterna como castigo. Uma visão de mundo, segundo o autor, tão absoluta que tenderia a se chocar violentamente com pensamentos divergentes.

O articulista do Guardian lembrará que movimentos como o Iluminismo, o Positivismo e o Comunismo, apesar de se posicionarem como seculares, acabariam por se apoiar nas premissas religiosas que eles procuravam combater. Novamente a idéia do bem comum e do fim único para a humanidade. Nesses três casos o bem comum seria o desenvolvimento do racionalismo e da tecnologia, que assumiriam o papel do deus único, da verdade suprema. Já o destino único seria o futuro paradisíaco da humanidade baseado exatamente no equilíbrio entre a razão e o desenvolvimento científico, resultando num mundo de homens e mulheres justos e abastecidos de suas necessidades essenciais.

Novamente, lembra o autor, esses “ismos” seriam excludentes por naturalmente entrarem em choque com pontos de vista divergentes. O mesmo caberia ao fascismo, modelo que sempre se apoiou muito nas realizações técnicas, e no mais novo de todos os “ismos”, o neoliberalismo. Este modelo, ao propor a redução do Estado, o livre comércio e o livre fluxo de capitais, também promete o melhor dos mundos para toda humanidade, classificando seus opositores de atrasados ou incapazes de conviver com a modernidade.

E a Al-Qaeda? Bem, a Al-Qaeda e os movimentos radicais islâmicos entrariam neste processo como um refluxo dessas visões absolutistas de mundo. É preciso lembrar que no próprio Alcorão há um reconhecimento de que a religião muçulmana descende do judaismo (o avô) e do cristianismo (o pai). Além disso, a modernidade, iniciada como os movimentos políticos, ideológicos e expansionistas dos últimos séculos, também foi e continua sendo uma mola para esse refluxo atualmente simbolizado por ações extremistas, como as patrocinadas por Bin Laden e seus asceclas.

Trata-se, sem dúvida, de um raciocínio um tanto quanto complexo para ser desenvolvido somente em 142 páginas. Com certeza um pecado (sem trocadilho) para um assunto tão delicado. Seja como for, é livro para se ler de uma sentada. Ou não se passa do primeiro capítulo, ou se vai até o fim rapidamente.


Titulo: A Al-Qaeda e a modernidade

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Resenha

Data de publicação: 30 de julho de 2004

Resumo:

É livro para se ler de uma sentada. Ou não se passa do primeiro capítulo, ou se vai até o fim rapidamente.

, ,

4 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    ótimas dica e resenha, Sampa, material de primeira para os leitores deste sítio.

  2. Mário disse:

    Para um livro que você considera complexo - não o li -, deu pra ver que conseguiu traçar muito bem os principais pontos. O tema modernidade em si já é realmente instigante. Um abraço.

  3. PH disse:

    boa dica, Sampa. O assunto é quente e o livro parece ser envolvente. Vai ver porque o autor é jornalista e acadêmico…;-)

  4. Leãdro Wojak disse:

    Tentarei ler o livro, com vc disse, parece ser bom.

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.