A corporação no divã

Resenha por Eduardo Socha
10 de janeiro de 2005

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The Corporation (2003)

Assim que a primeira das torres gêmeas foi atingida no 11 de setembro, o mercado norte-americano, contemporâneo titã sem rosto, reagiu de imediato. Carlton Brown, operador de commodities, lembra a primeira coisa que lhe veio à cabeça, antes que o segundo avião explodisse: “Meu Deus, quanto está a cotação do ouro?!” E, no ato, saiu à compra de ouro para sua extensa carteira de clientes. Com uma honestidade apavorante, ele declara sorrindo “O resultado foi ótimo! Na devastação, há muitas oportunidades”.

O testemunho surge no meio do documentário canadense “The Corporation”, realizado em 2003, e que escolheu um tema complexo e até mesmo gasto no horizonte das grandes discussões globais hoje em dia: a corporação, não apenas como modelo institucional econômico, mas como entidade padronizadora de comportamentos. Tema tão batido, a ponto de transformar hoje a expressão “capitalismo selvagem” em chavão de uma retórica quase infantil.

A diferença é que, para não virar mais um grito panfletário dos alarmistas de plantão, o filme traz entrevistas com presidentes e dirigentes de grandes empresas, entre elas, Shell, Goodyear, IBM - pessoas que condicionariam esse “capitalismo selvagem”. E, claro, também mostra análises de acadêmicos reconhecidos na área, como Noam Chomsky e Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia.

Hoje, vivemos a certeza de que o sistema tradicional de representação política, ou seja, governo e governantes, perde seu controle de decisões para as grandes empresas, potências de alcance global. Privatizações e a importância crescente dos Serviços de Atendimento ao Consumidor (SAC) seriam pequenos exemplos visíveis do processo; delegamos cada vez mais às empresas o papel mediador que antes era do Estado.

Até aí, só blá-blá-blá, pois desde a queda do Muro de Berlim, definiu-se este como único caminho a ser seguido ? produtividade e acumulação estão na ordem do dia. Mas o problema é a existência de uma fé excessiva no mundo corporativo, ocupando até mesmo o lugar do interesse público. Pois, afinal, sempre chega um momento em que surge conflito entre o interesse público e a busca quase patológica pelo lucro (a reação do operador talvez ilustre essa patologia, na qual a necessidade do lucro se sobrepõe a qualquer outro princípio). Numa analogia divertida, a corporação (ou melhor, seu modelo) é submetida a um teste psiquiátrico, e o resultado não é de animar nossa cachaça.

Sem contar futuros impactos ecológicos, as coisas já afetam nosso dia-a-dia e, inclusive, nossa saúde. Exemplo banal, uma reportagem nos EUA sobre o hormônio sintético rBGH, usado em alguns países (não sei se no Brasil também) para ampliação da produção de leite de vaca, revelou que se adicionam antibióticos que acabam diminuindo a resistência do organismo humano. A reportagem foi proibida de ir ao ar pela própria emissora, sob alegação de perda de anunciantes.

Não caberia detalhar aqui, mas tudo é esmiuçado no documentário, que, além de exibir outros casos e a capacidade do marketing de modelar nossas vidas, tem a virtude de assinalar também a diferença entre corporação e os trabalhadores e dirigentes dela. A complexidade é tal que, mesmo conscientes das gravidades que suas empresas podem ocasionar, a ação destes dirigentes é limitada muitas vezes por fatores externos a eles. Ainda assim, o filme aponta soluções possíveis, encontradas nas “fissuras” do sistema, para o estabelecimento de uma verdadeira democracia.

PS: peço desculpa pela mudança do tom habitual deste espaço, mas acredito que o desvio vale a pena. O filme será exibido no canal HBO, dias 15 e 16 deste mês. Se não tiver TV a cabo, peça para alguém gravar. São raros os documentários que expõem a questão de maneira clara, impactante e até mesmo divertida. Coisa que não consegui neste artigo.

Link para filme: http://www.thecorporation.tv/


Titulo: A corporação no divã

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Resenha

Data de publicação: 10 de janeiro de 2005

Resumo:

O documentário “The Corporation” vai além do esquematismo fácil e explicita o funcionamento da grande empresa como agente de poder político

4 Comentários

  1. carla santana disse:

    ADOREI A SUA ANÁLISE DO FILME, REALMENTE MUITO ESCLARECEDOR, UM ABRAÇO.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Prosa bem tecida, Socha, além da boa dica televisiva.

  3. Thiago Momm Pereira disse:

    Opinião suspeita de amigo mas, muito bem talhada e fluente, tua resenha me lembrou aquela cena do Fahrenheit 9/11 em que os engravatados decidem, entre uma bolinha de queijo e outra, como ganhar dinheiro com um país recém-bombardeado. Quem não é arrivista é hippie, nos ensina o mercado, com toda sua sutileza pedagógica.

  4. Samira disse:

    O Estado é um comitê para gerir negócios da burguesia” - Karl Marx, O Manifesto, ainda no século XIX. Pode gravar pra mim? Obrigada! Abraços, Samira.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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