Alpargatas e salto agulha

Resenha por Thiago Mom
24 de maio de 2005

Encerrada domingo passado, a Bienal do Livro no Rio teve na sua programação tanto eventos com várias capas de “Caras” como, dizem, cafés literários com alguns escritores. Dois desses escritores teriam sido os franceses Martin Page e Lolita Pille, de 30 e 23 anos. Page é autor de “Como me tornei estúpido”, recebido com pirotecnia de reveillon pela crítica do mundo inteiro. Pille, autora de livros um pouco mais controversos, publicou “Hell Paris ? 75016” e, mais recentemente, “Bubble Gum”.

Os romances se completam: os de Pille falam de supostos vencedores; o de Page, de supostos perdedores. Manon e Derek, protagonistas de “Bubble Gum”, transitam de jatinho entre Roma, Nova York, Saint Tropez. Antoine, o protagonista de “Como me tornei estúpido”, traduziu Proust pro aramaico, dá aulas como professor universitário substituto, entende do cinema de Sam Peckinpah e Frank Capra e pensa em apelar pro Alzheimer do dono do seu apartamento pra não pagar o próximo aluguel.

Manon e Derek acompanham as próprias vidas pelas capas de revistas. Ela (1,72m e sempre menos de 48kg) sai do interior da França pra se tornar atriz, enquanto ele é um entediado e entorpecido herdeiro de bilionário, amigo de celebridades como George Clooney. Até aí, tudo meio Maria do Bairro, mas superficial é o tema, não a abordagem, e a narrativa das primeiras cenas do livro ? em que Derek maldiz a suruba do dia anterior e Manon, o provincianismo da cidade em que vive ? já são provas suficientes de que nem todo best-seller é palavrão.

No outro livro, Antoine não é amigo de George Clooney, mas de Aslee, que brilha de noite e só consegue falar em versos (mais ou menos o que enxerga um mauricinho quando vê um alternativo de alpargatas tocando bongô). Antoine leva uma vida frustrante, de pouca grana, sociabilidade e auto-estima. Pra dar um jeito nisso, resolve que nunca mais quer ter qualquer raciocínio complexo ou minimamente contestador. O seu primeiro plano é se tornar alcoólatra, “ou seja, alguém que tem uma doença socialmente reconhecida. Os alcoólatras são compreendidos, são cuidados, têm uma consideração médica, humana. Ao passo que ninguém pensa em compadecer-se das pessoas inteligentes. A inteligência faz sofrer, e ninguém se dá ao trabalho de considerá-la uma doença”. Fracassada a tentativa do alcoolismo, o personagem se matricula num curso de suicidas mas não consegue se matar. Etc.

Já o problema dos protagonistas de “Bubble Gum” não é a falta de sociabilidade, mas o excesso: Manon e Derek vivem tão sujeitos à lógica de uma vida fantasiosa que vão se engarrafando nos padrões e perdendo qualquer identidade possível. Está em questão, aqui, o velho tema preço da fama, mas atualizado com uma visão contemporânea de bestialidades da cultura, publicidade, mercado financeiro, jornalismo de celebridades. Críticas tão pertinentes só foram possíveis pelo fato de a própria escritora ser meio afetada ? metida a fashion, famosinha e fogueteira de luxo, essas coisas todas. Não importa. "Arte e caráter não tem nada a ver um com o outro, infelizmente. Ou felizmente", como disse Henfil, por isso não acho que a afetação de Pille anule o valor dos seus livros, como sugerem os mais revoltados (uma resenha na Internet, por exemplo, fala de "Hell…" com o título “A entediante literatura de uma putinha”).

Todo caso, Martin Page é mais discreto. Antropólogo, estrábico e com sete romances recusados antes da publicação de “Como me tornei estúpido”, é o anti-herói enfim reconhecido pelo seu desabafo sobre o anti-heroísmo. Mas a sensação que o seu livro me deu foi a mesma que os de Pille: somos a maior geração de mimados imbecis que já existiu, no entanto ainda com exceções suficientemente competentes pra flagrar e narrar o apocalipse.


Titulo: Alpargatas e salto agulha

Autor: Thiago Mom

Gênero: Resenha

Data de publicação: 24 de maio de 2005

Resumo:

Romances dos franceses Martin Page e Lolita Pille se completam: ele fala dos supostos fracassados; ela, dos supostos vencedores.

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1 Comentário

  1. Pitadas de Lima Barreto disse:

    é, nesse caso, bom seria ter um fim à altura dum Policarpo Quaresma - e tudo nem seria tão triste assim.

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