Resenha por Eduardo Socha
17 de dezembro de 2002
É terça-feira anônima como tantas outras. Um grupo de sexagenárias aqui, alguns estudantes ali, flâneurs e outros anônimos aguardam a primeira sessão do dia. Trata-se de mais uma projeção do último filme de Eduardo Coutinho, ?Edifício Master?. No folheto distribuído com o ingresso, um subtítulo: "um filme sobre pessoas como você e eu". Observando as fotos da distribuição, nota-se que o público anônimo de terça-feira em muito se assemelha com as "personagens" do filme. Não se vê muita diferença. O subtítulo é bom e perspicaz. A diferença entre público e personagens só aparece mesmo mais tarde, no final da projeção, quando "as pessoas como você e eu" recebem nomes.
Breve corte. A noção de alteridade social, o estudo do outro sob um viés sociológico, surge como tema apenas no século XVIII, com a emergência dos romans philosophiques (filosofia tomando vestes de literatura). É no interior da tradição filosófica francesa que o outro torna-se definitivamente objeto de análise, mais precisamente nas ?Cartas Persas? de Montesquieu, nos contos de Voltaire e nos tratados de Rousseau (o extra-terrestre que vem falar sobre os homens, a pedagogia de Emílio, etc). Pode-se objetar que Montaigne já havia esboçado este conceito nos ?Ensaios?; mesmo assim, as primeiras inquietações político-sociais como tema central de uma obra pertencem mesmo às Luzes. O século vira, e Comte estabelece o termo "sociologia"… na pena de Lévi-Strauss, a antropologia vence fronteiras… fim do corte. A justificativa para o sobrevôo histórico é a seguinte: o documentário, especificamente aquele pós-roteirizado e livre para narrar o imprevisível, situa-se nesta trajetória de análise social, é fruto da inquietação sobre a alteridade. Desde ?Salesman? (de Albert Maysles), marco inaugural do cinema-direto, o documentário vem ganhando espaço neste terreno, talvez por conta do estatuto que a imagem recebe em nossa época, estatuto do qual nem mesmo as ciências (entre elas, as sociais) conseguem se eximir. O fato é que esse tipo de filme desempenha hoje um efetivo papel na compreensão antropológica do mundo contemporâneo. Nesse sentido, vale à pena ousar a inscrição de Eduardo Coutinho, antropólogo de câmera na mão já confirmado em ?Santo Forte? e ?Babilônia 2000?, nesta mesma tradição de pesquisa sobre o outro e, por extensão, sobre nós mesmos. Em ?Edifício Master?, o diretor lança um arguto olhar sobre "pessoas como você e eu".
O objeto de Coutinho agora é a classe média, habitante da urbis brasileira. A equipe de filmagem aluga um apartamento num prédio típico de Copacabana, para gravar depoimentos e histórias de seus moradores. Idéia simples, resultado espantoso. O que se tem é um panorama nítido, através da abordagem individual, do homem na grande cidade. Com efeito, os moradores do Master encenam aquele vasto cardápio da problemática social urbana: depressão, isolamento, suicídio, sociofobia, problemas conjugais, desemprego, prostituição, violência, desigualdade social. Em cada uma das entrevistas, há uma espécie de internalização, de apropriação subjetiva das desordens que a metrópole subdesenvolvida apresenta. O homem projeta-se como vítima de sua própria criação. Não é de se estranhar, portanto, que a idéia de suicídio, solução extremada para fuga deste caos, esteja sempre perambulando no filme. O suicídio vem curiosamente sob a forma do "ia até a janela para me jogar". A costureira, após ter sua aposentadoria roubada, vai até a janela. Não quer mais saber de sofrimento. Finalmente, decide não se atirar porque precisa pagar suas prestações na C&A, e ela não quer deixar dívidas nesse mundo. Aqui, o "ir até a janela" sugere uma vontade de deserção imediata daquela realidade do edifício e não da vida em si (o edifício entendido sempre como metáfora da própria cidade); tanto que o menor pretexto - neste caso, a irônica prestação da C&A - é suficiente para afastar-se da janela. Num dado momento, o espectador indaga-se: ora, se há tanto sofrimento, porque não sair daquele ambiente funesto, fugir daquele prédio? A resposta não demora: e ir para onde?
A sensação de angústia é sublinhada pela clausura dos apartamentos (o filme se passa todo no interior do edifício) e pela identificação entre espectador e personagem. O síndico dá o tom: "a realidade da vida é sempre o funeral das ilusões". E a solução parece estar longe de ser apontada. Uma das constantes entre os depoimentos é justamente a falta de expectativas, independentemente da idade ou do nicho social (sim, há todo gênero de morador, desde a menina que vem do interior para fazer vestibular de arquitetura até a prostituta com sua filha). Desse modo, muitos recorrem ao passado ou se agarram à figura do pai e da mãe, como aquela declaração do velho ambulante sobre as saudades que, apesar do tempo, ainda sente dos pais. Ou a de um outro senhor que afirma, orgulhoso: "fui um bom filho". Mesmo convivendo lado a lado, as pessoas dos apartamentos não conversam entre si. "É típico da Zona Sul", pensa o contador desempregado. Segundo a moça que foi expulsa da casa dos pais, o túnel de ar interligando as cozinhas é o que permite às vezes saber um pouco mais da vida alheia. Diante das câmeras, no entanto, a situação muda: como observou Coutinho, em poucos minutos, o sujeito relata as intimidades mais dolorosas da sua existência. De repente, um major aposentado se lança em prantos ao cantar "My Way", a música da sua vida, e a câmera naquele instante assume praticamente um caráter redentor. Os moradores parecem ver na câmera uma saída, uma janela. Ciente desta importância, a intervenção fria de Coutinho reduz-se ao mínimo, deixando os pernosagens livres para veicular lembranças e frustrações. O jogo catártico então avança com facilidade e a identificação entre espectador e personagem torna-se ainda maior. No fim, temos a impressão de compartilhar todos aquele mesmo cenário.
Embora o cenário seja angustiante, Coutinho preocupa-se em não dar um teor pessimista ao filme. O cuidado com a montagem, evitando aquela "chatagem emocional" de conduzir às lágrimas fáceis, mostra uma realidade despojada de ornamentos dramáticos. Não é necessário o artifício. O filme, na breve exposição da riqueza desses universos individuais, nos faz lembrar o paradoxo de aproximação e distância que a metrópole constrói, onde uns empilhados sobre os outros mal sabem o nome do próprio vizinho. Distância cujo extremo pode levar a sociofobias como aquela da professora de inglês, uma jovem incapaz de olhar para a câmara e que sempre torce para não encontrar ninguém no elevador. "A aglomeração típica do vai-e-vem em Copacabana faz com que eu chegue em casa muito estressada", revela a moça numa voz deprimente, melancólica. Dizia Rousseau no século XVIII: "Por mais que se admire a sociedade humana, não será menos verdadeiro que ela necessariamente leva os homens a se odiarem". A imagem da moça parece dizer o mesmo hoje. O público sai do cinema perplexo com aquela honestidade, mas logo se dispersa ao invadir as ruas. Fica a imagem da moça, vítima das neuroses da grande cidade. A propósito, ela tem um nome. A moça chama-se Daniela.
Titulo: As pessoas como você, o outro e eu.
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Resenha
Data de publicação: 17 de dezembro de 2002
Resumo: Algumas considerações sobre uma sessão anônima de Edifício Master.
@Katerina Como ela havia perdido o “grande amor” se diz que o namorado a visita metade da semana?
Esta mulher é excentrica e louca assim mesmo, ela está do mesmo jeito (ou até mais agressiva) no dia da pré entrevista, semanas antes do dia marcado para a gravação; este conteúdo “extra” foi disponibilizado no DVD do filme.
Daniela nao é assim sempre,apenas nao se sentia bem naquele dia específico pois havia perdido seu grande amor.
daniela tem socio/agora/claustrofobia seletiva, pois eh habituee de bailes funk no morro e inferninhos em copacabana, inclusive trabalhando como auxiliar de bar em uma casa de prostituiçao, o unico emprego q teve na cidade maravilhosa, mais do que o ódio de Russeau é a questao da construçao da personagem diante das câmeras.
adorei esse texto, e acho q todos deveriam comentar, acho q só ñ comentarao ainda pq as pessoas tem mta preguiça de ler.. o texto é bom, e os minutos q perdi lendo esse texto valeu a pena, e achei otimo por ser a primeira pessoa a comentar esse estraordinario texto ou historia……….. bjs e por favor comentem + e +++++….
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isso naun é bosta nenhuma vai dormir