Bláblásenha

Resenha por Alexandre Piccolo
3 de agosto de 2004

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Cartaz de
Fahrenheit 9/11

Resenha soa melhor para quem viu o filme, ouviu o espetáculo ou leu o livro do que para quem não os fez. Digo “soa melhor” porque o texto da resenha conversa com detalhes e reflexões na mente de quem já “experimentou” o assunto em pauta. Entretanto, não quer dizer que não serve para o inexperiente ou desavisado. Ao contrário, pode funcionar como gatilho para uma boa (ou má) indicação. O gosto e a certeza são sempre do freguês.

Fahrenheit 9/11 parece um tapa na cara. Ao mesmo tempo ofende e acorda, com a boa sacodida de ambos. Centrado na tão polêmica gestão Bush, seus “escorregões” e falcatruas, o documentário destila uma ironia que decai do fino questionamento das férias do presidente ao sensacionalismo panfletário das cenas desagradáveis da guerra no Iraque. As imagens da família Bush em negociata com os árabes são revoltantes e hilárias, os documentos fraudados e a manipulação do medo da população revelam o nefasto meandro do poder. Sem contar o depoimento de um parlamentar confessando o descaso coletivo e a desatenção legislativa na aprovação de ementas que dão rumo ao país: "nós não lemos tudo aquilo que aprovamos". De tudo já se suspeitava, mas é melhor que se conte, se filme, se divulgue. Pena o jogo ficar neste simplório cara-e-coroa. Melhor se a moeda caísse em pé.

Diz um adágio que, em terra de cego, quem tem um olho é rei. Nos Estados Unidos da América, todos parecem ser caolhos, do rei aos súditos: republicanos esquerdosos ou democratas direitortos. Ou vice-versa. Os que apóiam os governos Bush-pai e Bush-filho, ou são insanos mal informados ou loucos amedrontados e fanáticos por armas. Os que compactuam com Clinton, Kerry, Moore e companhia se rendem ao mesmo extremismo de pretensa opinião formada que condena seus opositores. Não há meio termo no binarismo político yankee, não há quem enxergue com os dois olhos abertos ao mesmo tempo ? a edição publicitária do documentário de Moore deixa isto explícito ? parece lhes faltar a serenidade da boa medida, o equilíbrio de um bom senso crítico. Tirando o “crítico”, não há bom senso sequer pois não há mais escolhas neste pseudo mundo bipartido: a fuga e a informação são escape e prisão no teatro de fantoches do sistema.

Justiça, ainda que o substantivo sugira sentidos abstratos e interpretações múltiplas, não tenta abraçar o mundo em seus 100 minutos de filme. Ao contrário, evita diagnósticos e julgamentos no silêncio cru de sua filmagem e edição. Primordialmente situado no prédio do tribunal de justiça do Rio de Janeiro durante o ano de 2002, o documentário nos escolta pelos corredores estreitos e salas apertadas de um ambiente simples e sufocante: as sessões de inquérito no tribunal, protagonizadas pelo juiz, a defensora pública, a promotora e/ou o escrivão e ? é claro ? o réu. E réu soa deveras pesado, como quer sugerir o filme, ao retratar a teatralidade rígida do sistema em sua toga preta frente a pequenos pobres condenados, inermes delinqüentes que parecem nascer para apodrecer no sistema carcerário.

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Cartaz de
Justiça

A cena inaugural tem a força condensada de um trailer: após um curto relato, o juiz nega ao réu ? cuja paralisia física é patente e que alega dificuldades para defecar ? seu pedido de melhores condições na prisão. Detalhe, a autoridade de justiça o faz sem se dignar olhá-lo, impotente, na cadeira de rodas no tribunal. Como bem resume e desabafa uma advogada, “preso, preso mesmo, só ladrão de galinha”. Fora do ambiente burocrático opressor, o cotidiano se anula entre a sujeira das celas superlotadas e o ambiente familiar dos advogados. Um “basta” é colocado lado a lado: a celebração exaltada no culto da igreja e o discurso afetado na posse da promotora esvaziam cuidam de esvaziá-lo por completo. Além de promover o debate no cenário acadêmico em prol do próprio Direito, o documentário de Maria Augusta Ramos tem o mérito de recuperar a dimensão individual de uma engrenagem essencialmente desumana e irracional, como já disse um crítico.

A escolha entre “irracionalidade e desumanidade” e “fuga e informação” fica no espaço cultural do Unibanco, na Augusta (bem próximo à Paulista). As escolhas se dão pelas opções e as resenhas não valem os filmes.


Titulo: Bláblásenha

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Resenha

Data de publicação: 3 de agosto de 2004

Resumo:

A resenha não vale o filme. Ponto.

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2 Comentários

  1. MSC disse:

    Como as resenhas nâo valem os filmes (interrogaçâo). Vou ver Justiça o mais raapido possiivel.

  2. PH disse:

    boas blablasenhas… e dicas tb.

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