Resenha por Samira Marzochi
3 de dezembro de 2005
O livro do israelense Amós Oz, De Amor e Trevas (Companhia das Letras, 2005, 617 p.), não é uma referência à Isabel Allende, De Amor e de Sombra, nem um livro para entender a formação do Estado de Israel. É sobre a condição humana em situações adversas e sobre uma realidade interpretada através de línguas, conflitos pessoais, diversidade cultural e literatura. É de fato uma autobiografia com direito a histórias familiares e repetições propositais que assumem a crueza dos relatos e a pureza das impressões.
O autor quando criança é mesclado ao hebraico de sua época que parecia, ainda mais que hoje, uma língua infantil e simples, apreendendo o mundo onde renascera em meio a objetos estranhos, seres humanos em reconstrução e sentimentos imprevistos. O hebraico, assim como o menino, ainda se habituava a dissociar metáfora de realidade e a incorporar novas palavras.
Mas apesar da forma autobiográfica, as páginas iniciais sugerem que o livro não nasceu da idéia de uma simples história individual, mas de um insight sobre a riqueza de um momento sui generis de confluência de diversas culturas nacionais, ideologias, religiões e línguas no deserto - metáfora de aridez natural contrastada às criações humanas.
Para quem se dedica a pensar sobre “etnia”, “identidade”, “religião”, “nação”, “nacionalismo” e sobre o mundo contemporâneo, o livro é um exercício de desmistificação de clichês. Por exemplo, a idéia de que os judeus são um grupo homogêneo, um povo que se considera “escolhido por Deus” e que estupidamente transfere esta crença bíblica para suas vidas cotidianas e para a política.
Amós Oz deixa transparecer, durante todo o livro, o óbvio quase nunca lembrado, nem mesmo pelos judeus de hoje: que para a imensa maioria, levando-se em conta a expansão do nazismo e fascismo na Europa, as perseguições acentuadas no Leste Europeu e mesmo no Oriente Médio e Norte da África, estar na Palestina não era uma escolha. Foi a última alternativa para pessoas que, apesar de tudo, amavam e respeitavam as línguas e culturas de onde vieram e sentiam saudades da vida que perderam.
O livro nos informa que entre os judeus migrados para a Palestina não havia qualquer consenso sobre a necessidade de ali erigir-se um novo Estado, tampouco “de Israel”. Muitos, fugidos de uma Alemanha ultra-nacionalista que imputava horror a qualquer traço de diferença, defendiam convictamente que os judeus não se transformassem jamais em uma nacionalidade.
A partir do relato de experiências cotidianas, Amós Oz acaba fornecendo uma outra dimensão à história contemporânea que nos faz sentir incomodados ao repetir o senso comum anti-semita disfarçado de visão crítica. Do mesmo modo, seu livro nunca poderia servir para legitimar a violência por parte de governos e grupos de direita israelenses, tampouco as ações sangrentas de qualquer facção extremista. É lúcido e humanista o suficiente para balançar todo o espírito forjado numa cultura autoritária.
Sobretudo, Amós Oz nos dá uma grande lição: ainda que o livro seja extenso, se você não leu, não comente. Tudo o que disser não será mais que a repetição de velhos preconceitos, mesmo que travestidos de sofisticação intelectual. O amor, oposto às trevas, é exatamente aquele que ilumina a razão.
Titulo: DE AMOR E TREVAS
Autor: Samira Marzochi
Gênero: Resenha
Data de publicação: 3 de dezembro de 2005
Resumo: O hebraico, assim como o menino, ainda se habituava a dissociar metáfora de realidade e a incorporar novas palavras
Como nos lembra Junger Moltman, em seus estudos sobre hermenêutica, quanto ao tipo de escatologia que muitos fazem não passa de um misto de alguma ciência misturada com ficção que não difere em nada das produções Hollywoodianas. Assim, esta esclarecedora mensagem de Samira é-nos muito interessante, pois nos direciona e desmistifica realmente o que tem sido colocado fora de lugar no entendimento do que seja o eixo da história e da escatologia da pessoa, do mundo, das nações e particularmente dos judeus. A obra vai somar com grande riqueza aos acervos das literaturas que caminham alinhadas à verdade. Nem por isso desmerecendo um povo, mas ajudando a todos a entender e perceber o lugar que todos tem por direito neste mundo que não pode pertencer a qualquer, mas a todos por direito de vida que todos temos, mas nossa distinção de nacionalidade não nos afasta como humanidade, o que nos deveria despertar o bom senso para estreitarmos nossas relações quanto alargamos nosso amor. Aprendermos como um punhado de pessoas sem rumo se organizou para sua sobrevivência sem dúvida é uma lição evidente para todos e como se identificam ainda com o jovem Daniel ao ser atirado a uma situação de extrema periculosidade ao ficar por um tempo no interior de um cômodo e cercado por famintos leões e alí sobreviveu naquele seu pedaço de terra. Ainda que tenhamos que considerar aqui que na cosmovisão de Daniel a relação com o Eterno lhe era essencial e que este fator o fez passar por esta difícil experiência com vitória. Este povo hoje, que tendo sido totalmente dispersos e por todas as provações que tem passado por toda a história, existindo e subsistindo de forma notável, somente encontrando paralelo em metaraciocínos, sem contudo descanbar em tolices supersticiosas, acrescenta-nos ensinos mais profundos sobre o universo, o Eterno que tem propósitos e nossas vidas que podem conter pensamentos desta natureza. Obrigado Samira por este legado.
”(…) seu livro nunca poderia servir para legitimar a violência por parte de governos e grupos de direita israelenses, tampouco as ações sangrentas de qualquer facção extremista. É lúcido e humanista o suficiente para balançar todo o espírito forjado numa cultura autoritária”.
DEU O RECADO!
יש לי תמיד ספקות
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Acho que Samira quis dizer exatamente que não há leões nem danieis, apenas homens.