Resenha por Leonardo Augusto
2 de agosto de 2003
Vou me atrever a escrever sobre cinema também. Ou melhor, sobre a impressão que tive de dois filmes a que assisti essa semana que passou. “A Viagem de Chihiro” e “Longe do Paraíso” têm em comum o fato de seres belos, plasticamente. Este pelas locações boreais, supostamente Connecticut, EUA, de vegetação multicolor, e pela estética da década de cinqüenta. Aquele pela qualidade dos desenhos ? trata-se de uma animação ? a riqueza de detalhes e cores, e pela estética da terra do sol nascente. Mas divergem radicalmente no conteúdo, um se atendo às mazelas do mundo real e à hipocrisia da sociedade “certinha” norte-americana, enquanto o outro nos transporta a um novo mundo, acompanhando uma garotinha até a casa de banho dos deuses mais malucos que se pode imaginar.
Em “Longe do Paraíso”, a protagonista vivida por Julianne Moore (Magnólia, Boogie Nights), é esposa dedicada a um executivo sempre ocupado e um pouco beberrão, mãe de um casal de fedelhos e membro ativo da boa sociedade da cidadezinha em que vivem. Mas um dia surpreende o maridão Dennis Quaid atracado com outro macho, e seu mundo vem abaixo. Paralelamente, descobre em seu novo jardineiro uma pessoa culta e sensível, cultivando uma amizade mal vista por todos, por se tratar de um “coloured”. Note-se que no fim da década de cinqüenta os EUA ainda viviam a segregação, e há menção aos incidentes de Little Rock, e ao prefeito Faubus, “homenageado” por Charles Mingus em “Fables of Faubus”. Seu drama se aprofunda à medida que a ligação entre eles causa repercussão e intolerância, e que seu marido procura se “curar” e não consegue. O resumo da ópera são duas histórias de amor: uma falsa mas respeitável e uma real mas execrada. Em verdade há uma terceira, que não devo revelar para não estragar sua diversão.
“A Viagem de Chihiro” foi classificado por alguns como a versão oriental de “Alice no País das Maravilhas”. Tudo bem, há certas semelhanças: uma garotinha se vê de repente em uma realidade absurda, cheia de criaturas improváveis. Mas enquanto o clássico de Lewis Carrol é bretão até a medula, cheio de puns (trocadilhos) intraduzíveis e situações nonsense (sem sentido) desconexas, “Chihiro” é nipônico até a medula, recheado de poderes mágicos e monstros esquisitos, além de seguir uma linha mais coerente e cativante. Tudo começa com um erro de seu pai ao tentar achar a casa para que vão se mudar. Entrando por uma estrada, se deparam com um túnel, pelo qual seguem a pé, atingindo uma cidade deserta. Chihiro reluta o tempo todo, mas a bravura de seus pais os leva além, até encontrarem uma quantidade enorme de comida, que o casal devora até serem transformados… em porcos! Sozinha, ela vai acabar numa casa de banho para deuses ? leia-se monstros. Os pontos altos ficam para os aposentos da bruxa Yebaba (acho que é isso), ricamente ornamentados, e para as cenas de Chihiro e Haku correndo entre as flores. Grande filme, vem provar que nem só de Pokemon e Dragon Ball vive a animação japonesa.
Titulo: EUA real e Japão surreal
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Resenha
Data de publicação: 2 de agosto de 2003
Resumo: Dois bons filmes: Longe do Paraíso e A Viagem de Chihiro
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.
Boa resenha, instigante.