Extra, extra, extra: Piratas invadem as bancas

Resenha por Nelson Valencio
11 de março de 2004

Quando vi o cartaz anunciando o lançamento do “Piratas do Caribe”, em vídeo, já antecipei a pipoca de microondas (horrível, mas super prática) e horas de divertimento. Pobre alma. Primeiro porque apodreci durante semanas na fila de espera da 100% Vídeo (locadora da Província Maldita de Campinas, PMC, daqui pra frente). Segundo, o filme me decepcionou um pouco.

Johnny Depp, um camaleão extraordinário, como sempre estava acima da média. Já o chatíssimo par romântico do filme não combina com a história. A histriônica interpretação de Depp ? que como todo grande ator pode se dar ao luxo de brincar, de improvisar ? destoou completamente da canastrice da dupla principal, o qual levou sua labuta no mesmo tom dos atores (sic) de “Malhação”.

Mas voltemos aos piratas. As semanas de apodrecimento na fila da 100% Vídeo me espantaram. Ingenuamente acreditei que era o único a gostar do assunto. Sempre achei os piratas extremamente fascinantes. Acho que as pessoas da minha faixa etária (mais de 35 e menos de 37) vão se lembrar daqueles filmes B de Hollywood das autênticas “sessões da tarde”. Todo mundo queria ser pirata. Barba Negra era o máximo. Embalado por este ritmo comprei “Piratas ? uma história geral dos roubos e crimes de piratas famosos”, tradução do jornalista brasileiro E. San Martin, radicado em Londres.

Na verdade o livro foi escrito por um tal capitão Charles Johnson e retrata a era de ouro da pirataria (1717-1724). Martin diz no prefácio que é discutível a existência do capitão Johnson e a obra poderia ser, na verdade, do escritor inglês Daniel Defoe.

O calhamaço é caro (R$49) e a capa é um primor de mau gosto. Da mesma forma segue a diagramação. Se somarmos o custo do livro e a falta de estética da produção da editora Artes e Ofícios, do Rio Grande do Sul, não vale a pena comprar o tijolo de 429 páginas. Mas ele é gostoso e diverte. Mostra também que os piratas eram decididamente maus, inclusive as filhas de Eva que se aventuraram naquele mundo. Sempre, obviamente, disfarçadas.

O que irrita no “Piratas…” é a tradução de Martin. Vivendo há anos na Inglaterra e Estados Unidos, ele escorrega feio no português. A nossa querida última flor do Lácio vira um mingau esquisito em passagens que falam de “rechamar”, que desconheço, e irmamente. Neste último caso, acredito que ele quisesse dizer fraternalmente. Bem, para não parecer análise de acadêmicos de curso de letras, vamos parar por aqui. Acho que ainda vale o investimento, caso o ervanário não esteja escasso.

Agora se você for aficionado por piratas compre antes a revista Aventuras na História, de março deste ano. A capa? Piratas, é claro. Nascida da costela de Superinteressante, a matéria de capa vale quanto pesa. Está muito bem escrita e documentada por Bárbara Soalheiro e entre as referências lá está o nosso “Piratas…”.

A reportagem é bem legal e derruba mitos como o mitológico e lendário papagaio de pirata. E não estamos falando de celebridades. Pelo regime de fome digno de spa cinco estrelas, os piratas jamais manteriam vivo uma iguaria como papagaios, quando a necessidade de comer muitas vezes os obrigava a cozinhar o couro velho das botas. Uma iguaria e tanto.

Além dela e antes do nosso “Piratas…”, outro bom investimento é o mergulho no “Utopias piratas”, de Peter Lamborn Wilson, editado pela Conrad. É excelente e faz uma historiografia da república pirata de Rabat-Salé, no Marrocos do século XVII. O lugar foi o paraíso dos piratas, assim como a ilha de Madagascar em outras épocas. O subtítulo do livro - mouros, hereges e renegados ? já antecipa a leitura agradável.

Cada capítulo é aberto por frases deliciosas como “os argelinos são um bando de patifes, e eu sou seu capitão” ou “cristãos viram turcos e os turcos são filhos do demônio”, etc. Na descrição da república moura de Salé a sensação é de que estamos lá ? uma autêntica sessão da tarde. Em resumo, não vou adiantar mais nada. Leiam. No caso de Wilson ainda há uma bibliografia interessante sobre o tema. Já “Piratas…”, apesar de gostoso pelo histórico de nossos colegas dos mares antigos, fica devendo uma tradução mais cuidadosa e um índice de referência. Senhores, realmente estamos ácidos hoje. Todos pra prancha, amarrados e pulando no mar…


Titulo: Extra, extra, extra: Piratas invadem as bancas

Autor: Nelson Valencio

Gênero: Resenha

Data de publicação: 11 de março de 2004

Resumo:

Reflexões sobre os lobos dos mares.

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3 Comentários

  1. Márcio Sampa disse:

    Li e gostei.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Boas dicas, Nelson.

  3. PH disse:

    Grande Nelson! Mais um ótimo texto, com um tema inédito por aqui, rico de informações e igualmente recheado de fina ironia, que torna sua resenha deliciosa de ler. Não sei qual “tirada” eu destaco (se é aquela sobre sua idade - entre 35 e 37; sobre os atores (sic) da Malhação; ou ainda sobre a espera na locadora). Melhor: fico com o comentário sobre papagaios de pirata. Divertido e educativo. Parabéns!

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Quem é Nelson Valencio?

jornalista, editor-chefe da revista Rede@Telecom.

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