Resenha por Fernando Carandiru
20 de abril de 2003

Fui ao cinema assistir o tão comentado "Carandiru", última obra de Hector Babenco. Fui com um antigo caso meu e, sinceramente, espero nunca mais vê-la de novo. Motivo: Na última parte do filme onde é reconstituído o massacre de 92, eu estava agonizante na cadeira e respirando forte, inimaginável alguém ficar indiferente a tudo aquilo que estava sendo mostrado eu pensava. Nessa hora algumas patricinhas saiam da sala pra comprar pipoca, foi aí que a mina me vira e fala "Tá errado isso que fizeram? Me diz se tá errado?" Fiquei quieto e não fiz nenhum comentário, pra mim aquela hora ela era um dos soldados do CHOQUE sentada ali bem do meu lado e justificando a chacina.
Sei que a maioria das pessoas pensam assim, até consigo entender as razões que levam a esse tipo de pensamento. O principal motivo seria o raciocínio maniqueísta, percebido, inclusive, nos discursos do presidente americano, do bem contra o mal. Nesse contexto os mocinhos (polícia) estariam agindo contra os bandidos (os presos), em virtude das vítimas que somos nós. A ânsia em ter uma sociedade livre do inferno da violência leva a esse tipo de pensamento. Eu já fui vítima de bandido e também já fui vítima da polícia então esse papo não cola pra mim.
No filme o que me deixou mal foi que eu me senti como se estivesse com uma metralhadora dando rajadas pra dentro das celas. É claro que quando a polícia mata faz isso em nome de toda a sociedade, pois é com dinheiro público que sobrevive essa instituição, portanto foi por nós que eles invadiram o presídio e acabaram com mais de 111 pessoas.
Saí com essa sensação da sala, quase indo me entregar numa delegacia, e notei que assim como minha companhia a maioria dos presentes não sentiam muita compaixão pelos que morreram.
Não esperava muita reação mesmo, ninguém ali tinha nenhum parente guardado no Casarão, não havia razão para ter pena. Assim como um assalto aquela foi apenas mais uma injustiça cometida todos os dias. Eu só pensava uma coisa: Que interese há em mudar esse sistema de repressão que é praticado hoje pela polícia dos estados? Nenhum. Respondi a mim mesmo. Isso funciona muito bem no Brasil, mantém os miseráveis sob controle, exatamente como é feito nos morros do Rio.
Lembrei do vagabundo que roubou o som do meu carro e lamentei que ele não estivesse cumprindo pena no pavilhão 9 no Carandirú em 92. Lembrei do que senti em ser roubado e me deu raiva, respirei fundo e pensei que se a nossa história faz parte de um plano divino acho que alguma coisa deu errado nisso tudo. Tem alguma coisa fedendo, mas ninguém sabe dizer o que é, corroendo já há algum tempo como um câncer que mata devagar. A pior barbárie de todos os tempos, injustiças cometidas sob o manto de uma moralidade criada.
Fui dormir com isso na cabeça e acho que meu feriado não foi dos melhores… muita BAD.
Titulo: Feriado Carandiru
Autor: Fernando Carandiru
Gênero: Resenha
Data de publicação: 20 de abril de 2003
Resumo: resenha sobre o filme
Quero dizer que neste feriado também assistir ao filme, mas diferente de você, meu feriado foi excelente pois estava perto de pessoas especiais, o filme somou muitas coisas, e me fez pensar em vários conceitos, já fui roubado várias vezes aqui em São Paulo e já visitei o carandiru uma vez, a situação dos presos ali era exatamente aquela que foi mostrada, terrivel, de dar dó, por mais que eles tenham errado, todos nós merecemos uma segunda chance, nem isso alguns ali tiveram… chance de viver, quanto ao que questionou sobre se fazemos parte de um plano divino ou não, amigo, não tenha dúvidas fazemos parte de um plano divino, e ele é perfeito, não existe falhas, lembre-se nada foge ao controle de Deus. Muito bom o seu texto, mas esse “se”me incomodou por isso tive que falar dele. Valeu.
Olá Fernando, bela estréia. Humana, sensível. Palavras de alguém que está ligado na realidade. O que não parece ser o caso da maioria. Na divisão que se plasma cada vez mais no mundo, chega a chocar a indiferença de muitas pessoas para com o sofrimento humano, ainda que seja o sofrimento de criaturas que o próprio sistema chama de marginais, ou seja, indivíduos que o próprio sistema não quer…
E aí Feto! Mandaste bem com suas idéias sobre o filme. Bem vindo ao time da aPatada!
Bad Behavior has blocked 25 access attempts in the last 7 days.
Finalmente vi o filme pra poder comentar seu texto, Feto. Sua análise não é barata, muito ao contrário, vê o filme pelo ângulo de onde estamos, queiramos ou não admiti-lo - do lado dos policiais que ajudamos a sustentar. E esta mesma indagação final também surgiu: “Que interese há em mudar esse sistema de repressão que é praticado hoje pela polícia dos estados?” Percebi uma certa complacência cinematográfica com a marginalidade carcerária, afinal os criminosos presos seriam os massacrados ao final da obra, o choque seria necessário na Arte da História - melhor que o fosse com mais furor e dramaticidade. No entanto, o questionamento e a indigestão das cruezas da indiferença social permancem. Boa reflexão.