Guerra nuclear no Iraque?

Resenha por Nelson Valencio
11 de março de 2004

Acabei de ler “Os senhores do Mundo”, do jornalista australiano John Pilger. São quatro ensaios bem escritos e que deprimem profundamente. Deprimem porque dissecam as engrenagens do poder. Pilger mostra como um quarto componente se juntou a um trio nefasto, formado pelo Banco Mundial, FMI e Tesouro Americano: a mídia. Ela funciona como um poderoso filtro, inclusive na fabricação de golpes como que vem sendo seguidamente dados na Venezuela.

Esta filtragem seletiva é observada em fatos como o quase esquecimento de como o governo Clinton bombardeou a única indústria farmacêutica no Sudão, em 1988, alegando que era uma instalação militar, até os dez anos de bloqueio do Iraque no pós Guerra do Golfo (versão 1.0 e não turbinada). Bloqueio que fez com que aquele país retroagisse anos quando o assunto é saúde pública.

Aliás, segundo Pilger, a era nuclear já chegou ao Iraque. Não pelas mãos maléficas de Saddan Hussein (ex-aliado dos americanos, assim como Noriega e tantos outros). Chegou com o urânio sem radiação usado pelos “aliados” no sul do país durante a Guerra do Golfo. Médicos em Basra avaliam que a incidência de câncer infantil tenha aumentado 12 vezes desde então, segundo “Os novos senhores do mundo”.

O professor Douglas Rokke, citado por Pilger, afirma que mais de 300 toneladas de urânio não-irradiado foram jogadas no Iraque. “Um dos aviões de ataque A-10 Warthog disparou mais de 900 mil tiros. Cada tiro continha mais de 300 gramas de urânio 238 sólido. Estas bombas não são cobertas, nem nas extremidades; são simplesmente urânio sólido. Além disso, temos indícios de que eram misturadas a plutônio. O que aconteceu no Golfo foi uma forma de guerra nuclear”, afirma o professor no livro do jornalista australiano.

E o que é pior: durante anos os remédios necessários ao tratamento do câncer foram bloqueados com a desculpa de que poderiam ser usados como armas químicas. Este embargo kafkiano levou à renúncia de vários diplomatas da ONU, entre eles o irlandês Denis Haliday, coordenador das Nações Unidas para a ajuda ao Iraque, em 1989. Ele chegou a traficar remédios usados em quimioterapia para salvar crianças iraquianas. Bem, a questão é: onde foram publicadas estas informações? Não esperem publicidade num universo onde o “eixo do mal” é quase uma religião.

Além do Iraque, Pilger dá uma lição de como a Indonésia foi um aluno modelo do FMI e explica porque ela deu frutos tão maravilhosos como o massacre perpetrado contra o Timor Leste, para ficar num só exemplo. A jornalista americana Kathy Kadane, de acordo com Pilger, desvelou a forte participação americana na repressão levada a cabo pelo sanguinário Soharto.

A CIA teria preparada uma lista de 5 mil nomes prioritários, algo como os “dez mais” que precisariam ser eliminados pelo trainee de Drácula. Logo após o golpe, a Indonésia (riquíssima em recursos minerais, entre outros bens) teria sido dividida descaradamente entre os tubarões ocidentais, numa orgia patrocinada pelo Banco Mundial.

E mais: o golpe literalmente mortal de Suharto (estima-se que suas vítimas oscilem entre 500 mil a um milhão) foi uma espécie de aprendizado para o que seria depois aplicado no Chile de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973.

E mais ainda: o golpe de Suharto foi eficiente por jogar a culpa no partido comunista daquele país, uma conversa fiada que o cinema pavimentou num filme chamado “O ano em que vivemos perigosamente”. Pensem bem da próxima vez que forem à locadora. E coloquem no index outra pérola da inversão dos fatos - “Falcão negro em perigo”. Invasores da Somália, os soldados americanos são vistos na película como heróis.

Pilger não fala só do país dos outros, mas descasca a pele dourada de sol de seus conterrâneos australianos. Aficionados por esportes, seus compatriotas praticamente ignoram os primeiros habitantes da ilha-continente. Sim, os aborígenes são tratados como cidadãos de segunda categoria, na avaliação de Pilger, o que se reflete na qualidade de vida muito abaixo da população branca. Como sempre, é claro, a “culpa” é deles mesmos.

As taxas de suicídios (maior) e a expectativa de vida (menor) são igualmente diferentes da população branca. Em função disso, os australianos carregam um grande sentimento de culpa, como se não fossem donos de sua terra. A frase final do livro, dita por um aborígene amigo de Pilger, resume o problema: “a menos que vocês nos devolvam a nossa nacionalidade, nunca poderão ter a de vocês próprios”. Reconheçamos: é uma imagem bem diferente da Austrália folclórica do Crocodilo Dundee e Outback. Um quarto ensaio é sobre o Oriente Médio, mas isso é assunto para outra conversa, porque o jogo, neste caso, é ainda mais pesado.


Titulo: Guerra nuclear no Iraque?

Autor: Nelson Valencio

Gênero: Resenha

Data de publicação: 11 de março de 2004

Resumo:

?Os novos senhores do mundo?,
de John Pilger, editora Record, 2004

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2 Comentários

  1. PH disse:

    Ótima reflexão, Nelson. Grave, ponderada e reveladora. Se puder continuar com o tópico sobre o Oriente Médio, vai ser ótimo refletir sobre este aspecto tb.

  2. Mário disse:

    Outra excelente resenha em forma de artigo. As influências da mídia - especialmente a TV - estão cada vez mais enraizando-se no comportamento e na visão que as pessoas têm do mundo. Aguardo a “novidade / verdade” sobre o Oriente Médio versão “Pilger”.

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Quem é Nelson Valencio?

jornalista, editor-chefe da revista Rede@Telecom.

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