Lanchonete do Frank

Resenha por Leonardo Augusto
7 de agosto de 2004

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Prato cheio para o ouvido.

Olá freguesia, vamos chegando. Não se assustem de ver esta venda novamente rebatizada. Sou eu ainda, mas como fiz uma cirurgia para remover um caroço da testa, num procedimento cujo termo técnico, nada eufemístico, é “retalho” (não se fazem mais temos técnicos como antigamente), o palhaço do Lafaiete me apelidou de Frankenstein ? que, aliás, não era o nome do monstro, mas do… ah, deixa pra lá. Oferecemos esta semana um menu especial, para satisfazer seu estômago e seus ouvidos, bom apetite!

Entrada: Ostras na Cabeça

Vocês já viram o episódio dos Simpsons em que o Homer fuma maconha medicinal? A banda que participa dele, o Phish, aposto que você não conhece, tampouco o guitarrista/ vocalista Trey Anastasio. Se conhece, perdão; de qualquer sorte, reserve esse nome.

Outro desenho animado, South Park, tem música-tema do baixista/ vocalista (?) Les Claypool; cuja banda teve uma repercussão bem maior, o Primus. Acrescente-o à tigela.

Por fim, adicione um tal Stewart Copeland, baterista e compositor de trilhas para cinema ? trabalhou até em “O que é isso companheiro?” ? que fazia parte da banda de progressivo Curved Air, antes de formar um certo The Police ao lado de um determinado Sting.

Reunidos fortuitamente no New Orleans Jazz and Heritage Festival, o trio acabou se levando a sério e lançou em 2001 o álbum “The Grand Pecking Order”, prova cabal de que ainda é possível fazer bom Rock?n?Roll e mostrar algo novo. A faixa-título é uma piração à la Primus, “Little Faces” tem o bumbo ?no chão? do Police, “Birthday Boys” é um folk bem humorado e “Rubberneck Lions”, que tem os vocais de ambos Trey e Les, é um som diretão que remete ao Phish. Em suma, o disco é variado, contendo elementos das bandas de origem, tão diferentes entre si, e vários novos.

Copeland ? que andou envolvido com uma suspeita volta do The Doors, tendo processado os caras depois de ter sido ?demitido? ? já adiantou que pretende dar seguimento à banda dos cabeças-de-ostra. Tomara!

Prato principal: Pato Constipado

Jeff Beck foi um sujeito que fez várias coisas diferentes ao longo de sua carreira. Participou dos Yardbirds, um grupo mutante por natureza, pelo qual passaram também Eric Clapton e Jimmy Page, que a viria a transformar no Led Zeppelin (os New Yardbirds, na primeira turnê-tampão). Teve um grupo com Rod Stewart no vocal; quando veio ao Brasil em 98, tava pirando em eletrônica, e por aí vai.

Mas a maior contribuição desse camaleão da guitarra, a meu ver, foram dois discos do mais refinado jazz-rock: ?Wired? e ?Blow by Blow?. Bem, na verdade, três, se considerarmos o “Jeff Beck with Jan Hammer Band”. Não entenda refinado como delicado, trata-se de dois (três) petardos contagiantes, permeados de brilhantismo técnico e criativo. Com bandas diferentes, mas o mesmo espírito.

?Blow by Blow? veio primeiro, em 75, com produção de George Martin, tem um som dos Beatles: “She?s a Woman”, e duas composições de Stevie Wonder, uma delas “Thelonius” (referência a Monk?). O teclado de Max Middleton (o único remanescente de trabalhos anteriores) dialogava com as palhetadas de Beck, enquanto Richard Bailey (bateria) e Phil Chenn (baixo) ?gruveavam? na cozinha. Lá prepararam “Constipated Duck” e outras iguarias da culinária fusion.

?Wired? (76) conta com participações menos célebres mas igualmente enriquecedoras: o tecladista Jan Hammer ? membro fundador da Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin ? compondo “Blue Wind” e Micheal Walden ? que recebeu o nome Narada do mesmo guru que batizara McLaughlin como Mahavishnu, e que se juntaria à M.Orchestra ? com “Come Dancing”. A releitura desta vez é de Charles Mingus, com “Good Bye Pork Pie Hat”.

?Jeff Beck w/ the Jan Hammer Band” (77) tem faixas extraídas desses dois discos, mais outras acredito que da própria JHB, e é outro discaço.

Sobremesa: Melancia na Páscoa

O último som sério do vinil triplo ?Joe?s Garage? do Frank Zappa, um belíssimo instrumental num 9 por 4 bem lento, representando o último solo imaginário de guitarra do pobre Joe, chama-se “Watermelon in Easter”, sem razão aparente. Mas para que buscar explicações para a arte deste denso personagem que foi FZ?

Quem por acaso viu o filme “E Sua Mãe Também”, do mexicano Alfonso Cuarón - que fez o último do Harry… Porter, Pothead, como era mesmo? ? teve talvez, como eu tive, uma desagradável surpresa no fim da trama, só remediada com outra surpresa: durante os créditos rola “Watermelon in Easter”.

Bem, falando em discos obrigatórios, ?Joe?s Garage? é sem dúvida um deles. É recomendável alguma experiência prévia em Zappa, ou um pouco de paciência, pois algumas passagens assustam um pouco. Ele narra a epopéia de um rapaz do interior com uma Stratocaster usada e uma garagem onde ensaiava com amigos uma única música. Fazendo sucesso local e atraindo a atenção de empresários, a banda se rompe e Joe começa a ter problemas com as garotas, com as doenças venéreas, com ciborgues, com a lei, com a cadeia, e com sua própria imaginação, que substitui sua Strato quando a música é proibida. Pode-se classificar o disco como um libelo pela liberdade de fazer música, no qual Zappa aproveita para disparar sua metralhadora giratória aqui e ali, com muito humor como sempre.


Titulo: Lanchonete do Frank

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Resenha

Data de publicação: 7 de agosto de 2004

Resumo:

Plat du Jour: Rock’n’Roll

2 Comentários

  1. PH disse:

    demais Leo - aliás - Frank! Gosto do seus pratos de rock’n roll pois vc faz muitas referências, desde ao “lado B” deste universo (quem estava tomando milkshake na cozinha, enquanto fulano gravava tal música), até referências pop-lisérgicas (Homer + Pothead). Fica bom de ler. Além de instigar: as três pedidas deixaram com água na boca. E continuo com a pulga atrás da orelha: preciso conhecer este tal FZ… Esta lanchonete um dia vai virar uma grande cadeia de good-food.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Wired é mesmo um discão do Jeff… - boas dicas.

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