Resenha por Márcio Sampa
3 de janeiro de 2004

Apesar do título, não se trata de um manifesto pós-adolescente, inspirado naqueles garotos que vestem camisetas com escritos como: 100% Vagabundo, ou coisas do gênero. Nosso esforço nesse texto será por conduzir uma análise sobre um interessante trabalho produzido pela Revista Krisis, cujo título inspirou e é homônimo ao desta resenha.
A revista Krisis é editada por um grupo de intelectuais alemães liderado por Robert Kurz. Em alguns meios o sociólogo Kurz dispensa apresentações e aqueles que o conhecem lhe devotam os mesmos sentimentos inspirados pelo norte-americano Noam Chomsky. É amor ou ódio. Não existe espaço para meio-termo. Kurz e sua equipe analisam questões que vão desde a macro-economia, em escala planetária, a temas relacionados ao meio-ambiente. Sempre contundente, não tem papas na língua. Daí o encanto ou desencanto que pode causar aos leitores mais desavisados, logo de saída.
Especificamente neste trabalho – publicado em língua portuguesa na Europa e em terras brasileiras infelizmente só na Revista Labur (2ª Ed.) do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo – o grupo Krisis faz uma análise bastante coerente sobre a sociedade do trabalho erigida a partir das revoluções industrial e burguesa (ambas se confundindo no tempo e no espaço). Pois bem, a análise mostra como o ethos do trabalho foi fabricado, principalmente ao longo dos últimos 250 anos e como se incorporou profundamente no imaginário coletivo. Para que se tenha uma idéia, antes deste período, a palavra trabalho estava associada em sua origem etmológica e no uso cotidiano com noções de castigo, humilhação e servidão. Vejamos alguns exemplos:
Tripalium (latim) – Canga utilizada para tortura
Arbeit (alemão) – Atividade dos servos
O “Manifesto” ainda retoma historicamente a transição das sociedades agrárias e campestres para as urbanas e manufatureiras, e como isso se deu de maneira turbulenta, a partir de conflitos dos quais as elites capitalistas emergiram vitoriosas.
Mas, apesar de criticar e indicar claramente o modelo burguês/capitalista como responsável por esta nova ordem, a análise não poupa críticas também para as esquerdas, que segundo o “Manifesto” sempre brigaram por questões como melhores condições, mais empregos, melhores salários e coisas do tipo. Reivindicações que na verdade atestariam a captulação dos chamados movimentos progressistas ao modelo imposto pelas elites.
Ao classificar este modelo de relações sociais como coercitivo, o texto se permite momentos hilariantes, como quando evoca o exemplo do filósofo alemão Immanuel Kant que chegou a afirmar que o babuíno saberia falar se quisesse, só não o fazia porque temia ser recrutado para o trabalho.
Evocando outro filósofo, Nietzsche, os autores do ensaio lembram que o trabalho é a melhor maneira de impedir o desenvolvimento da razão, pois aquele que está entretido em atividades impostas por outros não tem tempo de alimentar a reflexão, o sonho ou o desejo de independência.
Mas o mais estarrecedor se resume a duas conclusões, em princípio óbvias, mas mesmo assim perturbadoras. A primeira dá conta dos termos que usamos cotidianamente em função do trabalho. Coisas como perguntar a alguém o que ele/a fará com seu tempo livre. Ora, lembra o texto, “tempo livre” é uma expressão prisional, nos recorda coisas como banho de sol ou liberdade condicional.
A segunda conclusão é mais grave. O sistema de coerção atingiu tal grau de perfeição que, mesmo com o sistema econômico mundial dando claros sinais de que cada vez mais absorverá menos mão de obra, todos lutam pelo emprego, e a falta dele e das possibilidades de consumo que ele traz causam frustração aos indivíduos que não querem se equiparar às crescentes hordas de deserdados que lotam as cadeias do mundo inteiro ou que figuram entre os numerosos favelados das cada vez mais desprezadas economias do Terceiro Mundo.
É um ensaio de tirar o fôlego.
Titulo: Manifesto contra o trabalho
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Resenha
Data de publicação: 3 de janeiro de 2004
Resumo: Resenha de texto publicado pela Revista Krisis, em 1999.
Poxa, Sampa! Mandou muito bem!!Só faltou dar o link do “Manifesto” na íntegra (versões em português e em alemão)…Tens?
Boa resenha e excelente discussão. Sempre que se fala no trabalho, irrompem questões de amor e ódio. Necessário? Um horror? A resenha e a discussão recolocam a questão do trabalho dentro de um contexto. O que é o trabalho? Sempre foi visto da mesma forma?
Trabalho, trabalho, o paradoxal trabalho. Trabalhamos e trabalhamos para, ao final de todo o suor, conseguirmos fazer aquilo que tanto queríamos e desejávamos: nada. “O direito à preguiça”, de Paul Lafargue, é um célebre ensaio sobre o tema, impossível não “cair na real” após sua leitura.
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O que seria de nós sem o Google…:)http://textz.gnutenberg.net/textz/gruppe_krisis_manifest_gegen_die_arbeit.txt(Manifest gegen die Arbeit - Gruppe Krisis)…und viel Spass!