Resenha por Thiago Mom
14 de junho de 2005
Reli semana passada e já recomendei pra meio mundo “Como fazer inimigos e alienar pessoas” (Ed. Record), livro de memórias em que o jornalista inglês Toby Young conta sua experiência na redação da revista Vanity Fair, em Nova York. As 356 páginas navegam águas diversas, indo desde a tradicional rixa ingleses vs. americanos (ou londrinos vs. nova-iorquinos) até uma dissecação impagável do jornalismo de celebridades, passando por frustrações como a de não levar supermodelos peitudas pra casa e não entrar em listas VIP. De centenas de teorias e tiradas sobre esses e outros assuntos, Young compõe o retrato de uma elite que tem como vício maior não uísque, cocaína ou Prozac, mas a classificação do maior número de pessoas pelo maior número de critérios possíveis. Só pelo prazer de se colocar no topo das tabelas.
Com exceção, conclui o autor, de um suposto ranking de pessoas espirituosas, com a decência intelectual de não se levar a sério demais. Quando foi trabalhar na Condé Nast (o equivalente americano à Editora Abril), num dos pontos mais caros de Manhattam, Young se inspirava em jornalistas manguaceiros e faiscantes que via principalmente em filmes da década de 30. Mesmo ciente de que não fossem exatamente esses os profissionais que encontraria na Vanity Fair de hoje (num passado não muito remoto, a revista publicava autores como Garcia Márquez), ele também não esperava encontrar um ambiente em que a subserviência pautava grande parte da revista e a subversão se resumia a avacalhar os pouco ricos e poderosos.
E se na antropofagia do mercado nova-iorquino existe cada vez menos espaço pra ser espirituoso, o mesmo acontece com os encontros, já que boa parte deles representa um nicho de mercado tão sério como outro qualquer. Young é um quase baixinho a caminho da calvície, mas é realmente engraçado (numa festa do Oscar, perguntou a uma atriz se ela tinha sido indicada pra Melhor Vestido Coadjuvante) e isso não resulta nem mesmo em sorrisos condescendentes. “A política da companhia sobre assédio sexual não é uma concessão às sensibilidades feministas das funcionárias; é destinada a protegê-las de homens que ganham menos de 500 mil dólares por ano. Elas não gastam horas para depilar a virilha com esteticistas brasileiras de salões de beleza só para saírem com jornalistas”, achincalha.
Pras essas mulheres, especialistas em fabricar mas não em matar vontades, o importante é “ser evasiva, inatingível e cultivar uma certa mística. Elas não estão dispostas a mudar os hábitos de uma vida inteira por uma brincadeira rápida junto à máquina de xerox”. Os atributos masculinos que mais contam pra elas, numa ordem de importância descendente, são “status social, valor líquido, aparência física, apartamento, casa de verão e, bem abaixo da lista, personalidade”. Ressentimento primário, talvez, papo de fracassomaníaco, quem sabe, mas essa lista é endossada por ninguém menos que Candance Bushell, autora de “Sex and the city”; amiga do jornalista, confessa, bêbada, que procura basicamente homens famosos e entupidos de grana como ela.
Além disso, Young tem também o mérito de saber se auto-avacalhar. Sobre o seu desempenho num encontro, relata a uma consultora amorosa: “Facilmente distraído. Nervoso. Voluntarioso. Bilioso. Obcecado com celebridades. Desonesto. Ocasionalmente divertido mas rindo demais das próprias piadas. Agressivo. Maníaco”. Autocrítica rara em tempos tão cabotinos.
Titulo: Melhor vestido coadjuvante
Autor: Thiago Mom
Gênero: Resenha
Data de publicação: 14 de junho de 2005
Resumo: Pras mulheres especialistas em fabricar mas não em matar vontades, o importante é ser evasiva, inatingível e cultivar uma certa mística. Elas não estão dispostas a mudar os hábitos de uma vida inteira por uma brincadeira rápida junto à máquina de xerox.
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Parece uma boa dica de letras e risos, Thiago, boa observação sobre rir de si mesmo (com o devido toque de elegância e loucura). Alguém já disse: ‘os letrados são os guias dos errados’.