O crime dum padre Amaro…

Resenha por Alexandre Piccolo
19 de janeiro de 2003

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Cena do filme
O crime do padre Amaro

Críticas à Igreja Católica costumam ser sempre polêmicas e escandalosas, produzem, não raro, enormes bafafás. O crime do padre Amaro, romance de Eça de Queirós lançado em 1880 *, ganhou uma recente versão cinematográfica mexicana ( El crimen del Padre Amaro, 2003), a qual trouxe novamente à tona o já aguardado escândalo. Crítica às instituições religiosas à parte, acredito ser mais proveitoso nos atermos a pequenas e peculiares diferenças entre as obras, nas quais percebe-se uma curiosa verdade, mais temperada e saborosa, outrora apontada por Ricardo Palma, escritor peruano contemporâneo de Eça, nalguns versos de abertura de suas Tradições:

Los viventes da ayer fueron mejores
que los de hoy? -
No, señores.
El hombre es siempre el mismo: cambia el traje,
pero nunca el pelaje.

A adaptação mexicana moderna da obra portuguesa é ótima: a transposição do ambiente português (Leiria) para as localidades mexicanas (Los Reyes) não alteram o cerne espacial da história, o tempo da narrativa foi bem adequado para a dinâmica cinematográfica, o ritmo dos eventos muito bem conduzido, os episódios bem escolhidos e, quando necessários, bem modificados, as personagens convenientemente bem selecionadas e maravilhosamente bem trabalhadas por seus atores. Amaro (Gael García Bernal) e Amélia (Ana Claudia Talancón), vale observar, estão perfeitos em seus papéis - esta, inclusive, acredito que nem Eça a imaginou tão bela. Enfim, uma boa adaptação do romance português, sem vulgarização ou menosprezo com a fonte do passado.

Mas deixando os elogios de lado, percebe-se "algo de diferente" entre o visto e o lido ou, levando ao extremo em outras palavras, não existe no filme o mesmo pragmatismo na história do padre Amaro contada por Eça de Queirós. Se levarmos à risca seu resumo da ópera, publicado no prefácio da terceira edição, ("O crime do padre Amaro é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa"), nada permanece, ou melhor, apenas a Sé. O padre do filme, ainda que jovem e indeciso, possui voz e vontade própria - diferente do bibelô frágil e afeminado do livro. Um ponto intrigante no romance é a onipresença, forçada, subjetiva e até inoportuna, do narrador português, colocando seu bedelho nos mínimos detalhes da história, deixando clara sua opinião sobre cada prato degustado pelos padres "glutões" (dentre inúmeros outros adjetivos depreciativos dum suposto realismo). No cinema, desaparece o "mando único" narrativo e ganham vozes os atores; ainda que sintamos uma leve "mão invisível" os conduzindo, eles possuem iniciativa e vontades pessoais próprias, características inexistentes na folha de papel.

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A bela Ana Claudia
Talancón
, como Amélia.

Certamente tempos e atitudes são outros: Eça via na literatura um comprometimento com a intervenção da realidade, com a contribuição do desenvolvimento social - virtudes também compartilhadas pelo cinema, porém costumeiramente negligenciada. Se houve intenção de melhorar o meio clerical ao expô-lo e criticá-lo, provavelmente tal intenção já não mais existe, mostrando padres e bispos lidando com "los narco" e a sujeira da corrupção moderna - que nem é tão moderna assim. O determinismo marcante da obra de Eça se esvai quase que por completo na trama do cinema (ficam reminescências poucas, como um aviso pro filho: "essa mulher gosta muito de igreja…"), prova do desuso e fracasso da teoria de Taine, tão em voga na segunda metade do século XIX.

Há também mudanças de linguagem e enfoque. O flerte, os primeiros beijos e os encontros às escondidas se dão lentamente quando acompanhamos linha a linha uma certa tensão e ansiedade no casal. Na tela, o toque nos dedos ao ato consumado vemos passar num piscar de olhos, porém composto com notáveis cenas de pura arte, com destaque para a pouca luz do confessionário e o recital de amor com o "Cântico dos Cânticos".

Rumo ao final da obra, pessoalmente preferi o final do livro ao filme, mas não quero estragar expectativas de especatadores e leitores. Ademais, as angústias do padre na tela e no romance se assemelham no centro humano mas diferem nas outras esferas. Os deslizes do padre aconteciam antes e depois, de Eça e da película, pois o pobre-diabo do Amaro existe aos montes. Mas, como dizia um velho amigo, até os pobres são filhos de Deus.

_____

* A primeira vesão d'O crime do padre Amaro foi publicada em fascículos, sem a autorização do escritor, na Revista Ocidental em 1875 - "esboço informe" segundo o próprio Eça. [Abdala Jr., Benjamim, A distância crítica do narrador naturalista in O crime do padre Amaro, ed. Ática, 2001]


Titulo: O crime dum padre Amaro…

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Resenha

Data de publicação: 19 de janeiro de 2003

Resumo:

Tempo longe e distância próxima: algumas palavras sobre O crime do padre Amaro, obra de Eça de Queirós, filmada recentemente pelo cinema mexicano.

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