O Estrangeiro

Resenha por Alexandre Piccolo
24 de maio de 2004

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Albert Camus

Albert Camus nasceu em Mondovi (Argélia) no ano de 1913. Seu pai morreu no ano seguinte na batalha de Marne na I Guerra Mundial, deixando dois filhos aos cuidados de sua mãe, Catherine Sintès, de origem espanhola. Infância difícil: Albert, seu irmão Lucien, sua mãe, sua avó autoritária e seu tio açougueiro dividiam um pobre apartamento de dois cômodos. A mãe Catherine chegou a trabalhar como prostituta para alimentar os filhos em meio a pobreza do quarteirão popular de Belcort onde moravam. Camus manteve por ela uma afeição sem tamanho, mesmo sem exaltadas demonstrações de afeto entre filho e mãe semi-surda e analfabeta.

Na escola, seu professor Louis Germain, ciente de sua disposição intelectual, preparou-o com sucesso para o concurso de bolsistas do liceu argelino. Admirador do mar e das paisagens da Argélia, jovem cheio de vida, excelente nadador e amante do futebol, Albert Camus - graças aos primeiros sintomas de tuberculose - deixou o ambiente familiar, inadequado a sua saúde, para morar apenas com o tio. Concluiu os estudos, militou no movimento anti-facista e se casou precipitadamente em junho de 1934 com Simone Hié, com quem rompeu dois anos mais tarde. Aderiu ao partido comunista e se preparou para estudos aprofundados em filosofia nos anos seguintes, além de se engajar como ator e escritor de teatro.

Em 1937, Camus iniciou seus trabalhos jornalísticos no Alger républicain, jornal dirigido por Pascal Pia, onde exerceu diversas funções. Com alguns escritos publicados (La Mort heureuse, Caligula) e outros em concepção (Le Mythe de Sisyphe, La Peste), o engajado jornalista casou-se com Francine Faure e se mudou para França em 1940 para trabalhar como secretário de redação no Paris-Soir. Em julho de 1942, Camus publicou, pela Gallimard, L'étranger (O Estrangeiro) - livro em francês dos mais lidos e traduzidos em todo o mundo. Um parêntese, pois, para justificar a "resenha":

O livro tem ares frios, gelados. Não só pelas construções breves e secas que fazem a leitura deslizar. Da primeira à última frase paira um misto de indiferença, vazio e disfarçada culpa ao percorrer a vida - que não parece propriamente percorrida e, sim, prolongada. A morte da mãe (primeira e impactante expressão do livro), a convivência com os vizinhos, o caso com Marie, o passeio pela praia e "os quatro golpes na porta do azar" são vicissitudes que se enlaçam pelo fio invisível do inevitável, que não pesa, nem fere, nem impõe propriamente um destino, mas conduz e interliga indiferentemente extremos e próximos. Há, na voz do narrador-personagem, uma verdade sensível que puramente racionalizada, tributária do journal intime que observa a vida ao redor, porém sem propriamente senti-la, classificá-la ou julgá-la. À primeira vista, o livro parece pintar o retrato niilista da modernidade, indiferente ao compreensível ou ininteligível: a condenação do ateu-assassino que não chorou no enterro de sua mãe.

Camus, numa entrevista em 1955, revela que uma idéia paradoxal resume seu livro: "dans notre sociéte tout homme qui ne pleure pas à l'enterrement de sa mère risque d'être condamné à mort". E sua trama leva o paradoxo às últimas conseqüências, articulando assassinato e morte e atribuindo ao sutil acaso a condução da vida de seu protagonista. Segundo Camus, seu personagem Mersault não joga o jogo da sociedade e simplesmente se recusa a mentir. Não pratica o ritual das falsas opiniões, costumeiramente supérfluas, mas se fecha em si mesmo sem externar ou marcar posição - talvez daí seu "estrangeirismo" ante o mundo. Não há sequer um primeiro nome que o defina. Mas ainda que o autor nos dê pistas ou chaves de leitura, sua obra é autônoma (e grandiosa) por permitir leituras cujas (re)interpretações há anos a iluminam. O papel extenuante do Sol infatigável no romance merece seu devido destaque, bem como o ataque de nervos do juiz, perplexo ante o ateísmo que desconstrói toda a noção de justiça.

Parêntese fechado, depois dos inúmeros percalços da vida, Camus foi reconhecido e agraciado por toda comunidade intelectual e artística parisiense com o prêmio Nobel de literatura em 10 de dezembro de 1957. Em 4 de janeiro de 1960, morreu num acidente automobilístico, no carro de Michel Gallimard, próximo a Montereau.


Titulo: O Estrangeiro

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Resenha

Data de publicação: 24 de maio de 2004

Resumo:

Algumas palavras sobre um homem e um livro.

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3 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Alê, gosto muito de Camus, no entanto o acho perturbador… A resenha está muito boa, criteriosa…

  2. Mário disse:

    Coincidência ou não, coçou em minha mão nesse fim de semana dois livros de Camus: O Mito de Sísifo e O Estrangeiro. Acabou só coçando mesmo. A resenha, pelo menos, deu um micro-tira-gosto. Valeu. :-)

  3. PH disse:

    Oi Alex! Achei muito bom o recurso de contextualizar a vida de Camus antes da resenha sobre este livro magistral, que tb ficou ótima. Uma crítica construtiva: foi bacana vc ter citado em francês idéia paradoxal que resume o estrangeiro. Mas pela própria importância da idéia, vc deveria ter fornecido a tradução para o português, não? Assim vc aproxima o leitor da idéia central da resenha e, ao mesmo tempo, dá uma opção para os leitores que só dominam o idioma oficial da aPatada - o português. Abs.

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