Resenha por Nelson Valencio
2 de abril de 2004
Chamar a exposição “Universos Sensíveis” de fascinante tesouro das irmãs Klabin é até uma heresia. Elas tinham muito em comum, a começar pelo fato de serem filhas de Hessel Klabin, fundador da primeira indústria de papel e celulose da América Latina, como nos informa Maria Hirszman na matéria publicada no Estadão de 16 de março último. Além disso, ambas tinham uma paixão imensa pela arte ? o que fica transparente quando se sabe que apenas 10% da coleção das duas está sendo mostrado na Pinacoteca do Estado, um museu obrigatório em São Paulo. A arca completa do tesouro pode ser vista no Rio, caso da coleção de Eva. Assim como sua irmã, Ema terá sua casa, em São Paulo, transformada em museu futuramente.
Apesar dos pontos em comum, Ema e Eva montaram suas coleções de forma diferenciada. O trabalho dos dois curadores sinaliza claramente isso. Na de Ema, que viveu em São Paulo, sua atividade como colecionadora foi dividida em quatro etapas pelo curador Paulo Costa. Viajamos da porcelana chinesa a Portinari, passando pelo Barroco brasileiro.
E se não bastasse lá está também parte da coleção de livros raros. A primeira sensação ao ver aqueles mapas belíssimos é quebrar o vidro e sair correndo com eles. Os monitores, no entanto, estão atentos. Fique esperto.
O curador da coleção de Eva, Márcio Doctors, foi mais psicanalítico e elegeu a tríade arte, maternidade e identidade como eixo. Lendo a reportagem de Maria Hirszman, fica patente que Eva foi uma transgressora. Depois que perdeu o marido, em 1952, assumiu uma postura liberal e trocou a noite pelo dia. Calma. A vida privada da grande dama só diz respeito a ela ? e quem dela participou. O que importa ? pelo menos do que lemos a respeito ? é que Eva viveu intensamente.
É preciso ressaltar que esta troca está a anos-luz de qualquer vulgaridade. Eva era uma amante da arte, acima de tudo. Foi uma mulher fascinante, assim como sua irmã, porém menos low profile. Que figura deve ter sido. Fico imaginando Freud e Moacyr Scliar se debruçando sobre ela - literariamente. Como o primeiro já nos deixou há décadas, resta o escritor gaúcho. Com a vantagem de ser judeu como ela e descobrir ainda mais detalhes de uma personalidade incrível.
Eva é tão incrivelmente interessante que um dos primeiros objetos da sua exposição ? são salas diferentes, separadas por um altar ? é um relógio francês, cujos ponteiros giram em sentido anti-horário. Já imaginaram esta mulher com os cabelos pintados de vermelho, atravessando a noite, fumando em uma sofisticada piteira e cercada de quadros de madonas da Renascença, peças do barroco brasileiro e deusas, como a egípcia Sekmet com sua impressionante cabeça de leoa? E todos originais! É um romance pronto.
O altar citado acima traz os mais diversos objetos de arte, de períodos distintos e civilizações diferentes. Foi uma feliz montagem, quase como um aviso de que o amor pela arte e a fruição estética não têm fronteiras. Das cerâmicas pré-colombianas aos quadros de Chagall e Segall, dos livros raros aos vasos gregos há a mesma paixão. E funciona como um cordão umbilical entre as duas irmãs.
Todo o tesouro exposto em São Paulo resume a dedicação maternal de ambas. Nem é preciso esclarecer que nenhuma delas teve filhos.
Além da coleção riquíssima em todos os sentidos (quanto terá sido o seguro da exposição?), a visita à Pinacoteca nos subtrai do cotidiano de São Paulo. Do barulho de São Paulo, do cinza da metrópole. Passamos pela vida de Eva e Ema Klabin como se estivéssemos numa nave do tempo.
Meu conselho para todos que amam a arte: visitem urgentemente esta mostra da Pinacoteca. E invistam pelo menos três horas neste mergulho. Há outras exposições, mas apostem todas as suas fichas na história pessoal de Eva e Ema Klabin.
Depois do visita não deixem de passar pela loja do museu. Lá está o catálogo das duas coleções por salgados R$ 50. Meus dedos ficaram quase duros ao tentar pegar o cartão de crédito e arrebatar um exemplar. Sejam, no entanto, pacientes como foram Eva e Ema e esperem. É comum encontrá-los por um preço mais digerível posteriormente. Conto com isso.
Por falar em voracidade (pela arte, pelas massas italinas…), passem correndo para o restaurante do museu. Aconchegante, ele só tem um defeito, aliás mortal: não aceita cartões. Nada. De nenhuma bandeira ou modalidade. Se optarem pelas mesas externas, a visão mais próxima é a da estação da Luz, em processo final de restauração. Nem é preciso dizer o quão obrigatória é a visita. Nas mesas internas, o ambiente é mais intimista. Para quem está amando, sugiro esta área. Que momento poderia ser mais mágico para dois apaixonados? Tem que ser uma tarde inteira de colóquio amoroso. Algo como pegar carona no relógio anti-horário de Eva Klabin, um mergulho na Renascença em pleno coração velho de São Paulo.
PS: sobrando tempo, deve-se ir ao Museu de Arte Sacra, a dez minutos de caminhada da Pinacoteca. Trata-se de outro tesouro, encravado numa das mais feias avenidas da cidade. São Paulo é assim mesmo, sua beleza é de outro tom.
Titulo: O fascinante tesouro das irmãs Klabin
Autor: Nelson Valencio
Gênero: Resenha
Data de publicação: 2 de abril de 2004
Resumo: Renascença, Egito antigo e Barroco
Gilberto Dimenstein continua atual: “gostar de São Paulo não é para iniciantes”. Boas dicas, Nelson, especialmente para os apaixonados.
Valeu pelo texto, Nelson. Além de serem ótimas dicas culturais, artística e - pq não? - comportamentais, sua resenha é mais uma homenagem da aPatada a São Paulo, esta cidade que tem uma beleza de outro tom.
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A DICA É ÓTIMA PARA A CULTURA, ALÉM DE PEÇAS VALIOSÍSSIMA CULTURALMENTE, VALE A PENA CONFERIR ESTA RESSALVA DA ANTIGA HÁ CONTEPORÂNIA DE BELEZA